Flávio Chaves é escritor e da APL – Foto: Reprodução
Por Natanael Lima Jr – Jornal Domingo Com Poesia – DCP
Jornalista, 3249 DRT/PE, administrador de empresas, consultor de comunicação e marketing, ensaísta, crítico literário, escritor e poeta. Flávio Chaves é pernambucano, nascido em Carpina, município localizado à 42 km da cidade do Recife, com uma infância tradicionalmente interiorana, completou seus estudos primários e secundários, passando pelo Seminário Salesiano daquele município.
Iniciou sua vida literária aos 25 anos, em 1983, quando publicou o livro de poesia Digitais de um Coração. A partir daí, vários de seus trabalhos passaram a ser publicados regularmente em jornais e revistas do País.
Com o objetivo de difundir e incentivar a preservação dos bens culturais do Estado de Pernambuco, o poeta carpinense, com o apoio da FUNDARPE e UNICAP, idealizou e organizou a I Caminhada Poética Brasileira, movimento que reuniu pelas ruas históricas do Recife os maiores nomes da poesia nacional e que perduraria por mais dois anos, em sua II e III versão.
É filiado à União Brasileira de Escritores – UBE – Secção Pernambuco, onde exerceu o cargo de presidente por 8 anos, trazendo inúmeros benefícios a esta entidade durante sua gestão, desde a construção de sua sede até criação de bibliotecas e instalação da “Estação Cultura”, entre vários eventos, em nível local e nacional, que vieram dinamizar a União Brasileira de Escritores. Flávio Chaves, ainda durante sua gestão, logrou a cessão definitiva da Sede da UBE/PE pela Prefeitura da Cidade do Recife.
Através de suas publicações, Flávio Chaves participou de inúmeros projetos, como o “Nordestes”, com o livro Território da Lembrança em 1999.
Ex-presidente da CEPE (Companhia Editora de Pernambuco) onde vem demonstrando seu habitual traço inovador e dinamizador, desempenhando um papel construtivo nesta instituição.
O escritor pertence a Academia Pernambucana de Letras, onde ocupa a Cadeira 13, Patrono Paula Batista, onde tomou posse no dia 18 de novembro de 1998 e foi saudado pela Acadêmica Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
CINCO POEMAS DE FLÁVIO CHAVES
ENTRE O TEMPO E O SONHO
chega o êxtase
elaborado de lembranças intermitentes
deixando escorrer no mosaico do peito
um grito de ferro e chama estridente
a desenhar com o carvão do que sobrou de mim
um novo enredo da dor soterrado
Aqui, o dia sem notícias é alvoroço,
é o pleno fogo incandescente da brasa viva,
é o cenário lúgubre de um dia sem cor.
E esta canção
abre-se na partitura estremecida e acuada
pois a esperança dançava somente em minha infância
ansiando o hálito do dia aceso
a acender nos olhos de uma procissão inflamada.
Escrevendo um poema anoitecido
os meus olhos traçam uma porta sumida e funda
na viagem que carrega o meu sonho naufragado.
O sonho mais distante dilata minhas veias
e o meu sangue pulsa o frio e o entardecer,
assim, arde essa ânsia nas ruas mais distantes,
onde nasce no peito um tronco aceso
vem com ele desgovernado e incontido
o último poema extraído
de uma coleção de nódoas do tempo.
Toma esse último gesto
de quem não tem mais caminho,
toma essa distância
desgovernada no meu corpo.
Mas eu não choro esse tempo abstrato:
eu tenho silhuetas de luas no espelho
e um bosque de sombras preso em minha carne.
Eu tenho
um labirinto de dores ossificadas
na minha alucinação
que me arde como um transe.
CANTO DE AMOR DISTANTE
O que me arrasta a ti
é o espinho que viaja
de tua distância
chega ao meu corpo
com beleza de cristal selvagem
ou travesseiro-violino que embala o sono,
navega toda a alma
e expulsa os dias.
Movem-se colinas, iluminam-se trevas,
alargam-se rios, sobem-se serras,
que ligar as almas
é um tempo que nunca foi
quando a porta do meu abraço
é a entrada de tua saída.
Teu jeito livre, espontânea vida,
olhar sereno, imagem de despedida
a mover o pranto e alojar-se o frio
Teu corpo,
longa ausência inútil percorrida,
assim… que de mim a ti
só o adeus vive a ligar.
O SONHO ACESO NAS LEMBRANÇAS
Embora em todas as solenidades do mundo
as lembranças sejam minhas
eu sou sargaço inquieto
nas cores inermes do mar
ou um cardápio de fúria
servido aos aflitos
estilhaço-me
entre ansiedade e buscas
ninguém reflui ao íntimo de minha caverna
a desenterrar meu corpo
desse arbitrário rochedo
ninguém pousa sobre minha alma e meus movimentos
a descavar na profundeza do búzio que sou
o telúrico e a penumbra que me sufocam
assim eu me dilato em sombra
e me sobra um momento – mar.
que contrai espera e sal
o leme de minha voz
não navega ao porto das canções
e ao olvidar é ungido de esquecimento
o roteiro dos bentos não me traz à terra
eu ignoro o mar que me despreza
o naufrágio é o tempo que me espera.
Eu sou uma noite de outubro
com uma sombra projetada nos olhos.
A DIMENSÃO SUBMERSA DA BUSCA
Disponho-me no mais profundo do tempo
numa espiral onírica:
meu grito é minha fúria
(em mim, linguagem triste, sem tradução)
então, faço-me uma sonolenta lembrança
guardada no armário embutido da memória
a inquieta-me a parede triste do pensamento
onde exponho meu corpo sem gestos e encontros.
Rogo ao claro
como revelar os olhos na imagem do asilo
para despertar a paisagem sonâmbula do que sinto
como quem nasce na sombra
e um circuito lhe desencadeia de repente,
assim, canto essa fúria estendida nas faíscas
para cegar o destino
que escurece e ânsia.
Só este canto de lavas
poderá redesenhar o caminho
que me aguarda,
abrasado com os ventos
na canção ardente de girassol.
A DISTÂNCIA ALOJADA NA PELE
Cai a tristeza no tapete mudo da casa
flutua inerme insônia tensa
na margem da fibra que rodopia o reino
a respirar suplício no cadafalso da viagem
atravessando bosque de ausência exercitada.
Assim
a vertigem expõe a queda das sílabas
e o espaço ameaça a solidão da fala
que a demolição do horizonte dormente
atira instantâneo o idioma no deserto
onde o olhar diluído que carrega
desenha sombra na retina da miragem
que decifra vulto construído na visagem
pois transita em mágoa
a poeira inquieta da aragem
e a linguagem subterrânea desmonta-se desgarrada.