Cartas de Berlim: Pedalo, logo existo, por Albert Steinberger

      por Albert Steinberger

Pedalar sempre significou para mim a aventura de conhecer lugares novos. Quando era criança sempre usava a bicicleta para descobrir lugares mais distantes. Primeiro a minha rua, depois a quadra e assim foi com o bairro, uma parte da cidade e depois por toda Brasília, cidade em que cresci.

Hoje em dia, uso a bicicleta para tudo em Berlim, inclusive, quando vou filmar com câmera e tripé. Fico feliz de não estar sozinho. E olha que agora a temperatura lá fora está negativa, mas os ciclistas não param de passar.

Ainda na minha época de repórter em Brasília, lembro de um diretor do Detran dizer que ciclista na capital não é ciclista, mas ativista, tamanho era o risco de se pedalar na cidade. Na época fiquei realmente chocado com a opinião dele, principalmente vinda de um funcionário do departamento de trânsito. Tive e tenho a impressão que o urbanismo das nossas cidades brasileiras são desenhados majoritariamente por quem anda de carro.

BierBike, um bar sob rodas.

Meus amigos de Brasília têm me dito que a situação na capital para os ciclistas melhorou um pouco. Torço muito por isso.

Mas se analisamos quem usa a bicicleta em Brasília, veremos que a maioria é jovem e esportista.

Já em Berlim, é fácil ver que a bike não é necessariamente esporte. Cada um tem uma relação diferente com as magrelas por aqui. Isto pode se perceber pelos diferentes estilos nas ruas, desde mountain bike e bicicleta de estrada, como também bikes de cidade com bolsas e suportes adaptados para fazer compras ou ir ao trabalho, por exemplo.

Aqui alguns, ecologistas, pedalam porque assim não geram emissão de carbono, outros, porque curtem pedalar mesmo, gostam do vento no rosto, passear por parques no verão e desestressar na volta do trabalho. Mas uma grande maioria usa a bicicleta porque faz sentido. Porque é mais fácil, mais barato, mais rápido e é seguro.

Em Berlim, existem ciclovias, pistas com preferência para bicicletas, transporte público adaptado para magrelas e, o mais importante, há a cultura de respeito no trânsito. Os motoristas, ao dobrarem à direita, conferem no retrovisor duas vezes e ainda dão uma olhada sobre o ombro para ver se há alguém no ponto cego. Se vem bicicleta, esperam.

Isto faz com que pedalar aqui seja seguro e popular. Entre os ciclistas existem pessoas de todas as idades, desde crianças até aposentados. E são exatamente os aposentados, que, de acordo com dados do clube de ciclismo alemão ADFC, têm feito cicloturismo com maior frequência pela Alemanha.

Na esquina de casa, vejo todos os dias pais e mães levando os filhos em bicicletas para a escola. Seja com reboques, ou com suportes especiais, alguns chegam a levar três crianças, de uma só vez. Acreditem!

Entre os turistas, é muito popular um bar/bicicleta, em que dezesseis pessoas pedalam juntos, para impulsionar uma engenhoca com balcão e barris de cerveja. Isso enquanto tomam um chopp, é claro. Importante dizer que o responsável pelo volante não bebe. Beber e conduzir bicicleta na Alemanha é crime.

Mas a criatividade não para por aí. Existe ainda o Berlim Horizontal, que oferece passeios pela cidade a dois, mas o casal vai deitado em uma cama, acoplada à parte de trás de uma bike.

A bicicleta faz parte da rotina da cidade. Não somente para os cicloativistas ou esportistas. A bicicleta aqui pertence a todos e a cidade convida a pedalar.

Albert Steinberger é repórter freelancer, ciclista e curioso. Formado em Jornalismo pela UnB, fez um mestrado em Jornalismo de Televisão na Golsmiths College, University of London. Atualmente, mora em Berlim de onde trabalha como repórter multimídia para jornais, sites e TVs. 

 

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