Bióloga revela momentos de fraqueza, mas diz que não se arrepende de nada

  • Sorridente, com bom aspecto de saúde, Ana Paula conversou com a mãe, Rosângela Maciel
Ana Paula Maciel sai da prisão em São Petersburgo após receber liberdade provisóriaDmitry Lovetsky / AP

PORTO ALEGRE – Muito bem física e mentalmente. Foi assim que descreveu à mãe a bióloga brasileira Ana Paula Maciel, solta pela Justiça russa na quarta-feira mediante o pagamento de uma fiança de R$ 138 mil. Sorridente, com bom aspecto de saúde, Ana Paula conversou com a mãe, Rosângela Maciel, por telefone ontem à noite, depois de descansar dos 62 dias de detenção junto com os colegas de Greenpeace.

– É uma menina muito forte, não tem frescura. Está bem ciente do que aconteceu e, em todos esses pequenos contatos que fizemos, nunca disse que se arrependia. Sempre continuou fazendo campanha pelo Ártico, mesmo atrás das grades. Na verdade, não estava muito preocupada com ela. Nunca chorou, nunca demonstrou tristeza. Nunca se lamentou, nem se lastimou. Sempre procurou fazer coisas boas e alegres. A voz parecia emocionada, sim, mas nada de choro, nada de não conseguir falar – descreveu a mãe.

Ana Paula ficou mais de dois meses detida em duas penitenciárias e, nos momentos finais, teve a companhia de jovens russas acusadas de posse de drogas e homicídio. Mesmo nos momentos de fraqueza, descritos em cartas e telefonemas à família, a ativista não abandonou a confiança numa solução favorável aos 28 ativistas do grupo ambiental, presos em setembro durante um protesto contra a exploração e petróleo no Ártico.

Rosângela deve viajar para a Rússia no domingo, onde deve passar uma semana em companhia da filha. A mãe de Ana Paula viajará em companhia da sobrinha da bióloga, Alessandra, e de dois assessores do Greenpeace.

Como foram os 62 dias de prisão

19 a 24 de setembro – Os 28 ativistas do Greenpeace e dois cinegrafistas que cobriam a ação de protesto foram presos a bordo do Arctic Sunrise, invadido pela Guarda Costeira Russa. Os tripulantes, entre eles a bióloga brasileira Ana Paula Maciel, ficam sob custódia da Polícia durante cinco dias dentro da embarcação, período em que o navio levou para ser rebocado do Ártico até o porto de Murmansk, noroeste da Rússia. Foram os momentos mais tensos da prisão, já que o grupo de ativistas não podia se comunicar com o Greepeace e os fuzileiros não falavam inglês. O grupo passava a maior parte do tempo confinado nas cabines da embarcação.

24 de setembro a 27 de outubro – Ana Paula foi encaminhada para Centro de Detenção de Murmansk. A cela, de cinco metros quadrados, tinha duas camas, um banheiro isolado por cortina e uma mesa. O ambiente tinha calefação e aparelho de TV. A bióloga fazia as refeições na própria cela, já que a detenção não tem refeitório.

Ana Paula fica sozinha na cela e pode sair durante uma hora por dia para se exercitar num espaço externo de 25 metros quadrados. Segundo relatou à mãe, recebia semanalmente um pacote com mantimentos enviado pelo Greenpeace com chocolates, cigarros, biscoitos, blocos de anotações, livros e material de higiene e limpeza. Em 27 de setembro, no terceiro dia de detenção, escreve uma carta para a família em que relata “momentos de fraqueza”. No dia 2 de outubro, escreve outra carta, mais longa, onde conta que é bem tratada, mas diz que se sente “como um bicho de zoo”.

Na primeira semana, também tem contato com a advogada Valentina Frolova, que irá ajudá-la a superar os momentos mais tensos. Para Rosângela, Ana Paula classificou a advogada como “sua segunda mãe, atenciosa e carinhosa”. No dia 10 telefona para a família pela primeira vez. Pergunta pelos cães da casa, Lilica e Laila, e diz que tem vontade de estar em Porto Alegre. Nesse período, também escreve cartas para o namorado, o mergulhador mexicano Miguel Angel Arguelles. Escreve um bilhete de cinco linhas para a mãe pedindo que ela e a sobrinha vão visitá-la na prisão, lembrando que seria uma boa oportunidade de “conhecer a aurora boreal e a neve”.

28 de outubro a 11 de novembro – A partir do dia 28, recebe na cela a companhia de uma jovem russa que espera julgamento por porte de droga. De acordo com a mãe de Ana Paula, o ânimo da filha melhora com a presença da colega. Envia a última carta à família, escrita no dia 2 de novembro. Em uma página e meia, Ana Paula conta que recebeu companhia e descreve a garota russa como uma pessoa alegre e que a ajuda a suportar a solidão do cárcere. Segundo o relato, as duas se divertem principalmente tentando se comunicar – Ana Paula em inglês e a garota em russo. Divide os mantimentos, incluindo os cigarros, com a colega de cela. Incentivada pela detenta, passa a se exercitar regularmente na cela. Faz abdominais, apoios e movimentos giratórios todos os dias e justifica que, do contrário, “ficaria atrofiada”.

11 a 18 de novembro – É transferida para a Penitenciária Feminina de São Petesburgo, 1,1 mil quilômetros ao sul de Murmansk. O grupo de 28 ativistas e dois jornalistas se desloca por trem, em vagão-prisão, e chega à estação de Ladojski por volta do meio-dia (hora local) após sete horas de viagem. De lá, vão para a prisão a bordo de um caminhão. Na Penitenciária Feminina de São Petesburgo, Ana Paula divide a cela com duas detentas russas – acusadas por homicídio. A penitenciária tem mais estrutura que a anterior, com refeitório e pátio para sol coletivo. Segundo relata à mãe, o ânimo melhora bastante porque a cidade tem um clima mais ameno e mais horas de sol. A cela também era equipada com uma televisão. No dia 18, a Justiça aceita o pedido de liberdade, sob fiança, de uma médica do Greenpeace e dos dois cinegrafistas que cobriam a ação – todo s russos.

19 e 23 de novembro – No dia 19, vai a julgamento o pedido de liberdade para Ana Paula, aceito pela Justiça russa no final da tarde (horáriolocal). A bióloga fica sabendo da decisão no mesmo momento e foi fotografada emocionada e chorando – a única vez em todo o período de reclusão. A expectativa é de que a soltura se concretiza apenas em um prazo mínimo de cinco dias, mas o pagamento da fiança acaba sendo rápido e Ana Paula é libertada 24 horas depois.

Passa a primeira noite de liberdade na casa da advogada Valentina Frolova. De acordo com a mãe, para não se sentir sozinha, já que havia sido a única estrangeira do grupo libertada até então. No dia seguinte, vai para o hotel onde todos os 28 ativistas libertados estão alojados.