Um passeio pelo verde da cidade

por Fellipe Fernandes 

 

Foto por Hélder TavaresFoto por Hélder Tavares

 

Os moradores da Rua Santo Elias acordaram ao som de motosserras. Numa manhã de domingo, uma querela chegava ao fim no Bairro do Espinheiro, zona norte do Recife. Quem lançasse a vista pela janela do apartamento poderia observar uma discussão em torno de uma das grandes árvores, com troncos grossos e copa larga, que margeiam o asfalto. Era o capítulo final de uma história antiga. Um prédio fora construído com a porta da garagem projetada para ficar atrás de onde uma árvore antiga estava fincada. Depois de uma disputa que durou meses, envolvendo o Ministério Público, moradores da região e a construtora do edifício, esta última levou a melhor, e o exemplar cativo de acácia mimosa estava sendo removido naquele dia. Em troca, a construtora plantou na mesma região 12 pés de ipê.

 

O fim da acácia da Rua Santo Elias, em junho passado, revela uma constante da paisagem recifense, que pode ser notada por qualquer observador mais atento. À medida que novas construções são desenhadas no horizonte da capital pernambucana, o verde perde espaço. A importância das plantas, que inclusive batizaram bairros como Jaqueira, Tamarineira, Mangabeira e Mangueira, é subjugada pelos novos empreendimentos.

 

“Ruas novas são calçadas sem árvore alguma. Um plano de arborização poderia ser feito para planejar o tipo de árvore exato para cada rua, levando em consideração as condições estruturais do lugar e a necessidade de criar microclimas”, afirma o urbanista Luiz Vieira, professor do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco.

 

As árvores podem provocar uma diferença de oito graus na temperatura local. “Na nossa cidade, temos um déficit de área verde. O fato de a arborização municipal ser responsabilidade da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), um órgão de serviços, diz algo sobre como é pensado hoje o paisagismo no Recife”, diz o professor.

 

Ele lembra que o Recife já teve uma diretoria de parques e jardins. Pedro Paulo Araújo já esteve à frente desse departamento. Ao terminar o curso de Agronomia, com 22 anos, passou num concurso público para fiscal de obras da prefeitura. Assim que foi efetivado, tornou-se gerente da divisão de parques e jardins, que mais tarde se tornaria uma diretoria desvinculada da Secretaria de Agricultura, mercado e matadouros, à qual pertencia então. Durante as cinco décadas como funcionário público, ocupou o mesmo cargo diversas vezes, acompanhando mandatos de prefeitos como Geraldo Magalhães, Pelópidas Silveira e José do Rêgo Maciel.

 

Hoje, aos 82 anos, Pedro Paulo mora em Boa Viagem, zona sul da cidade. Ele observa a paisagem ao redor. Olha para algumas poucas árvores em sua rua e para o paredão de edifícios que envolve o bairro. Diz que não gosta de reclamar. “Porque parece coisa de velho, que fica nostálgico por causa da idade”, brinca. Mas garante que não entende o valor que é dado ao verde atualmente no Recife. “Muito muro, asfalto e poucas árvores. As que existem, ou estão aí há muito tempo ou são pequenas, porque não conseguem conservar o que plantam”, comenta, com a experiência de quem já foi responsável por toda a área verde da cidade.

fonte:revista continente