Uma Casa olindense de ideias

por Antônio Campo
Consolidada como uma das maiores festas literárias no âmbito internacional, a Fliporto possui uma linha de trabalho definida em razão dos seus excelentes resultados e pelo conceito de qualidade que se amplia em cada edição. Com certeza me sinto orgulhoso ao dizer que a Fliporto, não por vontade minha, mas pelas dimensões e novos ensejos que vem conquistando – sem copiar nada de ninguém, inventando e se tornando modelo, teria de ser, com o de fato se tornou, um movimento cultural de permanente atuação e verticalidades, não apenas no seu episódio cimeiro anual, realizado no mês de novembro, mas pelo que nossa Festa tem de caráter expressivo e de valorização de muitas estâncias do saber, das artes e da cultura.

A notória sinalização para esse programa de ações está na Casa Fliporto, com sede no Largo do Amparo, que se tornou num espaço para discussão não apenas acadêmicas e científicas de grandes temas atuais da cultura e do conhecimento humano, mas um local germinador de ideias, não apenas no conceito ontológico: ideias como algo material que existe no mundo real, ideias como uma possibilidade do conhecimento no mundo inteligível e suas convergências de saber – a única fonte de verdadeiro conhecimento. Uma Casa de ideias erm um espaço urbano que tem como cenário duas Igrejas históricas, no tradicional bairro olindense do Amparo, onde começa ensinando às crianças (até aquelas tiradas do colo)  o dom, os deleites e os mistérios da leitura, o despertar do conhecimento, não apenas para a alfabetização informacional e comunicacional, mas uma verdadeira descoberta da leitura. Outro capítulo é o que busca um diálogo, permanente, com a modernidade, nos mais diversos campos da inteligência, são os DIÁLOGOS CASA FLIPORTO, com os seus colóquios e seus debatedores de notórios saberes acadêmicos, sobre o social e o ambiental, detendo-se, recentemente, pela primeira vez no Recife, na filosofia perene de Søren Kierkegaard, na passagem do dia 5 de maio comemorativo aos 200 anos de nascimento; numa Escola de arquitetura como a de Bauhaus, tão impressionantemente ousada e atual, como há 100 anos numa Berlim devastada pelo nazismo, discutindo nesse momento,  num COLÓQUIO que vem aí, a figura singular e plural de Walter Gropius; num grande debate que estamos formatando sobre Gertrud Von Lefort – Raïssa Maritain – Maria do Carmo Tavares de Miranda: Aproximações, salientando que as duas primeiras autoras jamais foram estudadas no Recife, salvo pelo DIARIO DE PERNAMBUCO há mais de 20 anos; na beleza estética da poesia de César Leal – celebrando os seus 90 anos. Há um grande debate nascendo na pauta mensal da Casa Fliporto sobre a questão do patrimônio cultural edificado e imaginário de Pernambuco, iniciado com o pedido de tombamento do mural Batalha dos Guararapes, de Francisco Brennand. Há um mapeamento iconográfico, (iniciado) pioneiro, do patrimônio artístico construído, no Recife e Olinda. Outras formas de atividades artísticas, como iniciação à música, poesia e pintura estão no eixo das nossas preocupações nesse novo ambiente de diálogos e colaboração cultural.  Sem falar da Revista – a ArtFliporto, com o seu 3º número a sair, com suas ousadias gráfico-visuais e de qualidade de textos, sobre os quais todos concordam pela sua excelência. Uma Casa com a capacidade de aceitar o novo, ao mesmo tempo, vinculá-lo ao antigo, em busca de novas ideias.

Antônio Campos : Advogado, Conselheiro Federal da OAB, Editor, Escritor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto.