Contestada pela Procuradoria, a delação de Sérgio Cabral pode chegar a ter 80 anexos

O ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral Foto: Theo Marques/Framephoto / Agência O Globo

Cabral iniciou a delação acusando a própria mulher, Adriana Ancelmo

Juliana Castro
O Globo

Contestada nesta terça-feira pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, a delação do ex-governador do Rio Sérgio Cabral tem potencial para movimentar o meio político e Judiciário no Rio e fora do estado. Por enquanto, são duas dezenas de anexos. Os depoimentos do ex-governador, no entanto, continuarão. Estima-se que, com o que ainda falta ser relatado, o número de anexos chegue a pelo menos 80.

As conversas com a Polícia Federal em busca de um possível acordo de delação ocorreram a partir de maio do ano passado. Em julho, Cabral já estava sendo ouvido por um delegado de Brasília. Para isso, ele era levado sob escolta, em muitas ocasiões, do presídio de Bangu 8, na Zona Oeste, à Superintendência da PF no Rio, no Centro do Rio.

FALTAM DEPOIMENTOS – Como a lista de episódios relatados é extensa, o acordo foi assinado — e, posteriormente, homologado pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) — antes mesmo que todos os depoimentos tivessem sido colhidos. Isso porque existe um prazo de 120 dias após a homologação para esses complementos.

As negociações com a PF só se consolidaram depois de longas tentativas de Cabral com o Ministério Público Federal. A força-tarefa da Lava-Jato no Rio rejeitou por diversas vezes qualquer tipo de acordo por entender que o ex-governador ocultava fatos e também patrimônio, incluindo outras joias que não foram apreendidas quando ele foi preso, em novembro de 2016. Os brilhantes encontrados naquela ocasião ainda devem ser avaliados para irem a leilão.

R$ 380 MILHÕES? – Além de desconfiar dos relatos de Cabral, outro ponto que, agora, faz a Procuradoria-Geral da República (PGR) pedir a anulação do acordo é o fato de que os R$ 380 milhões que Cabral promete devolver já estão bloqueados pela Justiça ou foram repatriados — caso dos US$ 110 milhões que foram entregues pelos delatores Renato e Marcelo Chebar, que administravam as contas no exterior onde o montante estava.

Em uma das investidas, de acordo com procuradores, em fevereiro do ano passado Cabral confessou pela primeira vez o recebimento de propina que vinha negando até então. De lá para cá, vem confirmando em juízo as imputações do MPF e, por vezes, vai além expondo nomes que não apareciam nas ações ou eram investigados. Alguns desses personagens já citados pelo ex-governador em depoimentos ao juiz Marcelo Bretas foram ou devem ser alvo de declarações de Cabral à PF.

NOVOS CAMINHOS – A mudança de comportamento de Cabral ocorreu depois que ele já acumulava mais de uma centena de anos de prisão e que vários de seus antigos aliados confirmaram o esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. Atualmente, ele está condenado em 13 processos, dois deles em segunda instância, a penas que somam 282 anos.

A delação é uma busca para que ele abrevie o tempo atrás das grades. Não é possível saber ao certo o impacto do acordo. Normalmente, as tratativas com o MPF trazem o período de cumprimento da pena em regime fechado, semiaberto, aberto e domiciliar.

No pacto com a PF, não há essa definição fechada. A defesa, no entanto, pede à Justiça o benefício ao réu por causa da colaboração.

NOVAS CONDIÇÕES – No depoimento da última segunda-feira, Cabral foi tratado como delator, o que foi alvo de reclamação de algumas defesas. Como colaborador, ele não teve o rosto filmado, procedimento adotado com quem assinou acordo. O MPF falou que a validade e a chancela do selo de colaborador só serviria quando fatos dos processos fossem elucidados. Bretas, então, disse a Cabral:

— O MPF não ter sido parte não desnatura a colaboração. Ainda assim, é uma colaboração, e o senhor será tratado dessa forma.

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