Curativo feito com impressão 3D em Ribeirão Preto usa células-tronco contra feridas crônicas

Solução com material retirado de cordão umbilical pode ajudar pacientes com doenças como diabetes. Tratamento depende de registro na Anvisa antes de chegar aos hospitais.

Por Rodolfo Tiengo

Uma tecnologia desenvolvida por uma startup de Ribeirão Preto (SP) em parceria com unidades de referência na saúde como o Hemocentro, na USP, tem o potencial de combater queimaduras graves e feridas crônicas em pacientes com doenças como diabetes, por meio de um biocurativo produzido com impressora 3D a partir de células-tronco.

“A gente quer tratar aqueles que já usaram todos os medicamentos disponíveis e mesmo assim a ferida não fecha. No Brasil há 5 milhões de pacientes assim. É muita gente que trata e, com tudo que tem disponível no mercado, a ferida continua sem cicatrizar”, explica a bióloga Carolina Caliari, fundadora da In Situ Terapia Celular e ex-aluna do médico Júlio César Voltarelli [1948 – 2012], um dos pioneiros em pesquisa com células-tronco no país.

Fruto de 14 anos de pesquisas, validação e estudos de viabilidade comercial, a solução ainda depende de testes clínicos e registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e pode chegar aos primeiros pacientes por meio de parcerias com hospitais particulares a partir dos próximos dois anos, estima a cientista e CEO da empresa.

Segundo ela, o objetivo é que, em um futuro breve, o biocurativo beneficie pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“É o nosso grande objetivo que todas as pessoas do Brasil tenham acesso ao biocurativo. Nesse primeiro momento provavelmente a gente vai trabalhar em hospitais particulares, mas a ideia é comprovar que o SUS pode economizar utilizando o biocurativo”, diz.

Pesquisa com células-tronco

Carolina se aprofundou por dez anos no tema, período em que fez mestrado e doutorado em imunologia na USP de Ribeirão Preto sob orientação de Voltarelli. Ao encerrar o ciclo acadêmico, sentiu a necessidade de colocar em prática o conhecimento das pesquisas.

Em 2016, ela fundou uma startup e conseguiu investimentos públicos e privados para levar sua ideia adiante.

“Foi uma ideia que demorou dez anos para sair de dentro da universidade. Outro ponto é que a startup é uma forma que a gente tem de tentar fazer com que esse produto chegue ao mercado. Se você desenvolve um produto como esse na universidade, você publica artigo, porque isso é importante, melhora os indicadores da universidade, mas fazer com que ele chegue a quem precisa já é outra etapa que a universidade não faz. Através da startup a gente consegue encurtar um pouco esse caminho”, diz.

Hemocentro no campus da USP em Ribeirão Preto — Foto: Reprodução/EPTV

Hemocentro no campus da USP em Ribeirão Preto — Foto: Reprodução/EPTV

Diferente de soluções já existentes no mercado, com células do próprio paciente, os biocurativos desenvolvidos por Carolina e mais cinco pesquisadores no interior de São Paulo são à base de células-tronco extraídas de cordões umbilicais de diferentes recém-nascidos, material armazenado para fins de pesquisa pelo Hemocentro e fornecido para a startup instalada no Supera Parque, principal polo de inovação de Ribeirão Preto.

“O Hemocentro tem todo um critério para armazenar essas células, tanto para obter quanto para armazenar, porque, como é um produto biológico, a gente tem que fazer vários testes para mostrar que não tem risco de contaminação da pessoa que vai receber, assim como o sangue. O mesmo critério que o Hemocentro tem com o sangue ele tem para essas células do cordão umbilical”, afirma.

Mantidas vivas sob baixas temperaturas, na técnica conhecida como criopreservação, as células são descongeladas e cultivadas em laboratório, antes de serem misturadas com um gel desenvolvido pela empresa e transformadas em uma biotinta.

Pesquisadora em laboratório de startup de Ribeirão Preto que desenvolveu biocurativo com células-tronco — Foto: Leonardo Vilela/EPTV

Pesquisadora em laboratório de startup de Ribeirão Preto que desenvolveu biocurativo com células-tronco — Foto: Leonardo Vilela/EPTV

Com os cartuchos abastecidos, uma impressora 3D produz os biocurativos. O processo de impressão é concluído em questão de minutos e não acaba com o efeito terapêutico das células, segundo Carolina.

“O formato do curativo é bem simples, porque a ideia é fazer com que ele fique aderido à pele, mas teoricamente a gente poderia imprimir em outro formato”, acrescenta.

De acordo com ela, os testes em laboratório com animais já demonstraram a eficácia do produto, que em contato com o corpo estimula a regeneração das células da pele e ajuda na cicatrização.

“No caso da pele a gente imaginaria que ela [célula-tronco] vai virar uma célula da pele e regenerar a pele. A gente não acredita muito nisso. A gente acredita que a célula vai liberar fatores importantes para o crescimento das células da pele. Ela melhora o ambiente da ferida e faz com que as células da própria pele se proliferem”, explica.

Impressora 3D produz biocurativos com células-tronco em startup de Ribeirão Preto (SP) — Foto: Leonardo Vilela/EPTV

Impressora 3D produz biocurativos com células-tronco em startup de Ribeirão Preto (SP) — Foto: Leonardo Vilela/EPTV

O material é aplicado uma única vez, sem necessidade de reposição como em outros métodos, segundo Carolina.

“O processo de obtenção da célula já é caro e depois o paciente tem que ficar trocando porque é rejeitada [pelo organismo]. No nosso caso não. É única aplicação, porque essa célula do cordão umbilical não é rejeitada, ela pode ser usada de uma pessoa em outra”, diz.

Além de melhorar a qualidade de vida dos pacientes, o curativo pode evitar infecções, amputações e reduzir custos hospitalares com internações e outros procedimentos, segundo a CEO da empresa. Enquanto o produto não chega ao mercado, os pesquisadores buscam soluções que permitam um transporte mais seguro dos curativos sem prejuízo às células-tronco.

“Qual vai ser nosso grande desafio: fazer com que o curativo que a gente produz consiga chegar a lugares distantes, uma vez que são células vivas. Tem todas essas questões de logística, tudo vai ser definido conforme a gente vai evoluindo na pesquisa.”

 

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