Mercado editorial investe em livros que ensinam cidadania às crianças

Títulos evitam levantar bandeiras, mas tratam de dilemas políticos de forma lúdica

O brasileiro 'Quem manda aqui? - um livro sobre política para crianças' teve seus direitos de publicação vendidos para 14 países Foto: Reprodução
O brasileiro ‘Quem manda aqui? – um livro sobre política para crianças’ teve seus direitos de publicação vendidos para 14 países

Foto: ReproduçãoRuan de Sousa Gabriel – O Globo

Capa do livro
Capa do livro “Eleição dos bichos”, publicado pela Companhia das Letras Foto: Divulgação

A Companhia das Letrinhas já havia publicado outro livro do quarteto: “Quem manda aqui?”, que explica às crianças como funcionam as estruturas de poder e que ganhou uma edição espanhola e outra chilena. Ambos os livros nasceram de discussões e oficinas sobre democracia realizadas com crianças.

— Não é fácil vender direitos de publicação de livro infantil, ainda mais para países tão diferentes, mas esses livros falam de temas importantíssimos nesta época em que a democracia está ameaçada em vários países — diz Mell Brites, editora-executiva do Grupo Companhia das Letras. — Queremos publicar mais livros sobre política e temas como gênero, preconceito e refugiados para crianças. Precisamos conversar com as novas gerações se quisermos mudanças efetivas. É a única solução.

Desde a eleição de Donald Trump, as livrarias foram invadidas por títulos que tentam explicar a ascensão populista, como “O povo contra a democracia”, de Yascha Mounk, e “Como as democracias morrem”, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Paralelamente, a oferta de títulos infantis que discutem temas como democracia e como lidar com a diferença também aumentou.

— Questões como feminismo, raça, classes sociais e meio ambiente ganharam espaço e a necessidade de debatê-las influencia também a produção literária voltada ao público infantil — diz Ana Tavares, gerente editorial da Zahar, editora que publicou biografias de líderes como Nelson Mandela, Rosa Parks e Malala Yousafzai para pequenos leitores. — Pais e responsáveis preocupados com o futuro da democracia tendem a incentivar crianças a buscar leituras mais críticas sobre o que estamos vivendo.

Lições de democracia

Assim como as obras que explicam a confusão política para os adultos, os títulos que dão lições de democracia às crianças vendem bem. Os quatro livros da coleção “Livros para o amanhã”, publicado pelo Boitatá, selo infantil da Boitempo, venderam mais de 35 mil exemplares desde o final de 2015. A coleção têm títulos como “O que são classes sociais?” e “A democracia pode ser assim”.

— Política também é coisa de criança — afirma Ivana Jinkings, diretora da Boitempo. — Os livros do Boitatá buscam responder a uma forte demanda que percebemos de pais e educadores quando encontram material de apoio adequado para explicar às crianças conceitos como “democracia”, “impeachment” e “corrupção”. As crianças veem tudo isso na TV e na internet e querem participar.

Capa do livro
Capa do livro “Meu crespo é de rainha”, de bell hooks, publicado pelo Boitatá, selo infantil da Boitempo Foto: Divulgação

O Boitatá publicou livros infantis e pensadores como a feminista negra americana Bell Hooks (“Meu crespo é de rainha”) e o italiano Antonio Gramsci (“O rato e a montanha”). Lançou também “O Capital para crianças”, Joan R. Riera, no qual o Vovô Carlos conta aos netinhos a história do operário Frederico, que não entendia por que não conseguia comprar na feira as meias que ele próprio produzia na fábrica. Só este ano, “O Capital para crianças” vendeu mais de 4,3 mil exemplares.

— Não são livros que levantam bandeiras, mas que tratam de política, filosofia, meio ambiente e diversidade de forma lúdica e delicada — diz Ivana. — Queremos livros que apontem formas diversas de ver e organizar o mundo, com o cuidado de não serem esquemáticos, dogmáticos ou totalizantes.

Turminha da liberdade

Giuliano Miotto, autor dos livros da Turminha da Liberdade, publicados pelo Instituto Liberdade e Justiça, também afirma tentar desviar do dogmatismo ao adaptar, para crianças, as ideias de pensadores liberais como o austríaco Ludwig von Mises e a russo-americana Ayn Rand.

— Meu objetivo não é ensinar valores de direita ou esquerda, mas universais, como responsabilidade individual, autoestima e produtividade — diz. — Responsabilidade individual para aprender a arrumar o quarto e cumprir suas tarefas; autoestima porque um povo sem autoestima empreende pouco; e que produtividade não é só ganhar dinheiro, mas ser útil, produzir algo de valor.

Os dois livros da Turminha da Liberdade — “Anya e o mistério do sumiço do cãozinho Galt” e “Antônio e o segredo do universo em breves lições” — foram financiadas coletivamente e podem ser comprados pela internet por R$ 42 (frete incluso). No primeiro livro, um cãozinho se revolta contra o autoritarismo de um rei que roubava os bens dos outros. No segundo, um vendedor de churros ensina as vantagens da livre iniciativa a um menino.

— Queremos que esses valores impactem positivamente a vida das crianças e também o debate político, que anda muito pobre: ou é “Lula preso” ou é “Lula livre” — afirma Miotto.

Para Maria Amélia Dalvi Salgueiro, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a assimilação dos valores democráticos pelos pequenos leitores depende não só das historinhas que os livros contam, mas também do adulto que lê com a criança.

— Obras podem ser lidas politicamente a depender o mediador. O sentido de um texto é produzido no exercício de leitura. Até o livro mais progressista pode ser lido acriticamente — explica. — Só conseguimos formar leitores críticos quando instigamos suas dúvidas, acolhemos suas perguntas e os incentivamos questionar a realidade.

 

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