A perspectiva do tempo coloca Nelson Rodrigues a um passo da eternidade

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Nelson Rodrigues nos mostrava a vida como ela é

Pedro do Coutto

Completo neste domingo o tema que iniciei ontem sobre Nelson Rodrigues cuja obra foi destacada por Rodrigo Salem, edição de sábado da Folha de São Paulo, quando abordou o projeto de Maurício Mota de abrir para o grande autor uma estrada para Hollywood começando pela filmagem de Um Beijo no Asfalto.

Hoje focalizo a visão bastante firme com base na perspectiva que só o tempo fornece. O título deste artigo é do filme “A um passo da eternidade”, dirigido por Fred Zinnemann, obra que marcou o retorno de Frank Sinatra às telas e sua própria vida artística, que foi abalada pelo rompimento de Ava Gardner, com quem fora casado. Mas este é outro assunto.

IMPORTÂNCIA – O fato é que, para mim, a dimensão da importância dos artistas somente se projeta depois de um tempo de sua morte. Este é o momento indispensável para que, sem preconceito contra ou a favor, possamos identificar para nós mesmos, e para os outros, a importância da obra e de sua contribuição para a arte. O raciocínio, baseado na tradução que o tempo fornece aplica-se também a políticos, pintores, músicos, às vezes não compreendidos quando vivos e que terminam recebendo julgamento verdadeiro após sua passagem pelo túnel do tempo. São muitos os exemplos do que estou dizendo.

Mas esse julgamento que fazemos inclui destaques quando comparamos as obras de ontem e as obras de hoje, no alvorecer de novos romances, peças teatrais que certamente irão se seguir. Vão se seguir a partir das sombras de autores do passado. Uma prova bastante sensível pela palavra é o “Museu do Amanhã”, construído pelo prefeito Eduardo Paes. Ótima ideia talvez mais importante até do que o julgamento desse marco em frente ao mar no Rio de Janeiro.

ARTE FUTURA? – O nome poético pode significar que o museu será ao longo do tempo o palco de novas obras, artistas, talentos, enfim produtos que participarão amanhã dos corredores e espelhos do museu.

Os museus do mundo, como é natural, são monumentos de arte que passaram. O do Louvre, por exemplo, expõe obras primas que talvez quando surgiram não receberam o devido valor. É sempre assim. Acontece muitas vezes, quando se usa a lente da perspectiva.

Ela, a perspectiva, projeta novas interpretações, percepções, dúvidas, novas certezas. Caso típico do gigante Nelson Rodrigues. Autor de uma obra imortal, a peça “Vestido de Noiva”, de 1942, dirigida pelo mestre Ziembinsky, polonês que muito acrescentou ao teatro brasileiro. Eu disse ontem que “Vestido de Noiva” era o “Cidadão Kane” do teatro, uma beleza a peça que a meu ver deve ser reapresentada. Deixo a ideia para Fernanda Montenegro, que no Fantástico da rede Globo selecionou algumas obras de Nelson.

EM TRÊS PLANOS – “Vestido de Noiva” transcorre em três planos da atriz principal: a realidade, o subconsciente e o delírio, não percebido pela própria personagem. No final os três planos se encontram levando o drama para dentro de um triângulo.

Nelson Rodrigues viverá para sempre, além de crescer com a passagem do tempo. Um artista bem maior do que seu tempo. Está a um passo da eternidade. Esse passo será feito por aqueles que vêm depois de nós.

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