Cioran e a tragédia do existir

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     Três romenos escolheram Paris como lar: Mircea Eliade, lonesco e E. M. Cioran. Este último nasceu em Rosinari, na Transilvânía, em 1911. Dois de seus livros estão traduzidos em português: Breviário da Decomposição e Exercícios de Admiração. As críticas feitas por Cioran ao positivismo e ao cientificismo têm como finalidade diagnosticar a queda do homem no horror do existir. Uma queda que a filosofia tradicional procura esconder ao construir um universo inverossímil e, por intermédio desse universo, tenta falar em nome de todos os homens, esquecendo-se de considerar que cada homem é único, capaz de discorrer apenas sobre si próprio. Impossível se faz, portanto, prosseguir nesta pretensa fala em nome de uma coletividade.

O pensamento de Cioran estrutura-se nessa tese e é marcado por um ceticismo crítico, predominantemente sombrio. Nos textos de Cioran, o passado é percebido como um estágio falso e obscuro, e o futuro não irá além de uma mera ilusão. Esta posição é defendida com firmeza tal que transforma o filósofo em um renegado da humanidade. O que não importa, já que os céticos são assim classificados.

Ao atacar o homem em suas fragilidades, Cioran evidencia ser ele o único animal capaz de transformar o paraíso em um inferno, malgrado suas fraquezas ou até mesmo por causa delas, construindo destarte o reino da negatividade. Importante perceber, no entanto, que essa negatividade não se configura como um espaço circunscrito, tão pernicioso quanto a prisão da positividade. O raciocínio em Cioran é desenvolvido a partir de situações limites. Na sua composição, são elementos básicos a negatividade, a morte, Deus, a demência e a loucura. Ingredientes que ao se combinarem formam um universo governado pela injustiça e impostura. Não sem propósito.

Cioran refere-se com ternura e admiração a Diógenes (413-324), o que viveu com toda intensidade possível a loucura filosófica. Natural de Sínope – costa do Mar Negro – Diógenes teve como pai Icésio, banqueiro acusado de falso moedeiro juntamente com seu filho, o próprio Diógenes, razão pela qual terminaram ambos – pai e filho – desterrados. No livro Vidas de filósofos mais ilustres, Diógenes Laércio descreve-nos a vida, as ironias profundamente cínicas de Diógenes. Neste texto, tomamos conhecimento de seus ataques a Platão, do seu comportamento sempre à margem do social para melhor demonstrar o quanto depreciava seus concidadãos. Diógenes freqüentava a companhia das prostitutas e dos ladrões, e sorria para seus críticos: “Os médicos andam em companhia dos enfermos e não se contaminam”.

Da crítica demolidora de Diógenes nada conseguia escapar: as ciências, as artes ou as instituições sociais. Do mesmo modo, nada passa incólume pelo crivo de Cioran. O filósofo romeno insiste tanto ou mais que Diógenes na lacuna insuperável existente entre um ser humano e outro – e não entre o homem e a natureza, como querem alguns. Nesta lacuna, encontra-se a prova inconteste da inanidade do existir. Cada homem é levado a buscar a ilusão que melhor atenue sua insatisfação. Cada homem deverá criar seu delírio privado, onde possa sonhar seus próprios sonhos – o que o aproxima do despertar. E, quando desperto, irá perceber a condição não-legislável do mundo, pois “a dor desintegra a matéria e a angústia, a alma”.

A fatalidade faz-se presente em todas as coisas e dela também não escapamos. Encontra-se aí a origem dos problemas da existência humana. Mas, por mais intensa que seja a angústia, por mais profunda que seja a dor sentida, sobrevive-se. Estranha e aleatória ironia. Tornamo-nos sobreviventes de nós mesmos. Farsantes criadores de impurezas que a psicanálise teima em decantar. As impurezas permitem, contudo, o surgimento da curiosidade a respeito de nós mesmos. E assim tentamos preencher o vazio que precipita nossa queda no tempo. Situação inexorável que deixa claro a “inconveniência de se ter nascido”.

A morte esteia o pensar de Cioran. Não a morte em si, mas a obsessão em torno dela. Mania que permite suportar as noites insones, quando é sentido nas artérias o fluir do sangue que conduz a vida e também a morte. Antagonismo cruel do existir. E este mesmo sangue terá que correr de maneira abundante para alimentar os legados históricos vitoriosos: “As religiões contam em seu balanço mais crimes do que as mais sangrentas tiranias, e aqueles que a humanidade divinizou superam de longe os assassinos mais conscienciosos em sua sede de sangue”.

O que está feito não pode ser reparado. O mundo está construído, acabado. Impossível repará-lo. Qualquer equívoco, qualquer erro, por mínimo que seja, terá sido irremediável. Não existe o devir para transformá-lo em algo relativo, o que diminuiria seu poder corrosivo. É inegável que o devir propicia impulso ao filosofar. No entanto, para Cioran, é necessário ter-se em conta que este impulso estará sempre impregnado de um movimento que só conduz ao vazio. Talvez por saber disso, Hegel assumiu-se o próprio demiurgo e criou seu mundo para poder concorrer com o universo. Projeto grandioso que Cioran, implacável, irá classificar de megalômano, pois, como tal, desconhece o horror e o absurdo da existência.

Para alguns, os textos de Cioran são suspicazes. Será que isso é o suficiente para transformá-lo em um pensador reacionário? É temerário afirmar que sim e com prudência deve-se dizer não. Suas reflexões a respeito da política são anarquizantes, mas isto não o transforma em anarquista. Discorrer a respeito da preferência política de um regime é, para Cioran, flutuar no vazio. E a única possibilidade para que isso não ocorra está na opção por um determinado tipo de estado policial, em detrimento de outro. Esta, sim, seria uma escolha compatibilizante com a realidade. Colocação que bem poderia ter partido de Diógenes de Sínope. Um dos ensaios mais polêmicos de Cioran gira em torno da figura de Joseph de Maistre (1735-1821), ferrenho crítico da Revolução Francesa e de filósofos como Bacon, Locke, Diderot, Voltaire… De Maistre defendia a existência de forças misteriosas que agiriam sobre o homem e o universo, determinando seus comportamentos, embora de uma maneira aleatória.

Toda essa concepção respaldava-se em um romantismo cristão banhado de uma certa escatologia. Em um dos parágrafos do ensaio dedicado às idéias de J. de Maistre, Cioran é preciso, atingindo em cheio os que acreditam na revolução como uma redenção:

“Só é realmente revolucionário o estado pré-revolucionário, aquele em que os espíritos se consagram ao duplo culto do futuro e destruição. Enquanto uma revolução é apenas uma possibilidade, ela transcende os dados e as constantes da história, ultrapassa por assim dizer o seu espaço. Mas a partir do momento em que se instaura, retorna e se conforma a ele, prolongando o passado, segue sua rotina. Não há anarquista que não esconda, no mais fundo de suas revoltas, um reacionário que espera a sua hora, a hora da tomada do poder”.(2)

É provável que o leitor aprenda com Cioran a desfrutar de uma liberdade muito mais ampla em relação às idéias; liberdade semelhante àquela que é vivida por um ouvinte de música: “Se alguém deve tudo a Bach é sem dúvida Deus”. Esta liberdade, e só ela, desvendaria o problema filosófico do infinito, já que o infinito estaria na sua própria essência. O eventual leitor, para desfrutar dessa liberdade proposta por Cioran, deve conseguir ultrapassar o momento avassalador, e até mesmo asfixiante, criado pelo romeno, na abordagem do mundo. Caso contrário, poderá o leitor abandonar o livro exclamando: “O horror. O horror”. Os excessivamente pudicos e acadêmicos podem sentir um mal-estar com “Filosofia e Prostituição” (in Breviário da Decomposição). Neste texto é estabelecido um paralelo entre aquelas que praticam o “pirronismo do trottoir” e o filósofo. No universo da prostituição, tudo é aceito e nada é aceito. O que faz brotar com toda força de sua virulência, o conformismo e o cinismo. A negação, enfim, dos empreendimentos humanos. Os que aspiram fazer algo de útil ou pensam em fazê-lo, devem abandonar esse terreno para não caírem na “inanidade do ser” e no absurdo onde tudo se torna hostil:

Aquele que não sabe refrear está condenado por transcender a realidade, e só lhe resta aceitar a condição à margem do socialmente estabelecido. Se esta condição conduz ao sofrimento, advém a tragédia. No entanto, aquele que não sofre por encontrar-se à margem, é um observador da farsa com a qual não compactua. Isto o transforma em um deus finito e miserável e, como tal, será execrado por ser apenas um epígono desiludido e estéril.

Em tudo há uma certa insanidade, principalmente na aurora, quando o desespero da privação e uma certa sabedoria acompanham seu surgimento. Aí, então, passamos a acreditar que o desenrolar das horas irá trazer frutos pluriabertos às nossas bocas sequiosas. A noite vem e nos encontra sentados, sedentos e suados na mesma poltrona e a crise, como se fosse uma anêmona, silenciosamente se aproxima. Necessário se faz evitá-la. Só nos resta escrever ou “por isso escrevemos”, como diz Cioran. Revoltamo-nos então em palavras contra nós mesmos e nossos semelhantes.

Fonte: Terra Magazine por Fernando Rego. Baiano de Salvador, foi filósofo. Deu aulas na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia por 25 anos. Seus ensaios compõem o livro História Noturna da Filosofia (2006, Quarteto Editora).

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