Os grandes malvados da história têm algo em comum: a vaidade

MIKEL JASO

A FILÓSOFA alemã Hannah Arendt definiu o tão celebrado quanto criticado conceito de “banalidade do mal” em referência ao que observou durante o julgamento de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém, em 1961. Coronel da SS, o trabalho diário de Eichmann consistia em garantir o transporte das massas de judeus para a morte nos campos de concentração.

Arendt falou de um mal banal, sem sentido, devido à submissão cega de quem o havia exercido e à absoluta ausência de um critério próprio. Eichmann era um ser despojado de toda humanidade, porque o ser humano é dotado de capacidade reflexiva e voluntariedade. O seu era um mal sem intenção direta; um mal impessoal, submisso e irrefletido. Um mal diante do qual, segundo Arendt, “as palavras e o pensamento se sentem impotentes”.

Quando escolhemos ter mil retuítes diante do direito à honra e à dor que causamos a uma pessoa, estamos sendo vaidosos

Quando nos deparamos com atos desapiedados tão difíceis de explicar, nos vemos tentados a considerar aqueles que os cometem como seres especiais, irracionais e doentes. Seres diferentes de nós, já que nós, afirmamos, teríamos sido capazes de desobedecer a uma ordem para escolher o bem. Não estamos interessados em pensar nesses indivíduos como pessoas “normais”. “Não, eles não podem ser como eu”, dizemos a modo de consolo.

Os atos banais, mas malignos, só podem ser cometidos em nome de alguém ou de algo sempre por “obediência devida”; isto é, porque um terceiro nos indica e inclusive nos obriga a fazê-lo. As críticas ao conceito da banalidade do mal afirmam que os autores desse tipo de crimes não são pessoas obedientes, mas seres absolutamente cruéis —desse modo voltamos a nos excluir como vulneráveis, pois sabemos que não somos cruéis— que têm a habilidade de oferecer um argumento que justifique seus atos.

Sem nos determos para avaliar a pertinência do conceito, é verdade que não é aplicável a todo ato malvado. Quando o mal é exercido em nome de si mesmo, quando alguém é inteiramente uma pessoa física e psíquica, quando sou eu e não outro quem empreende de forma direta o ato malvado, este não é banal. A maldade individual nunca é banal. É um ato de soberba, um ato de vaidade. A natureza do homem, sua humanidade, não reside no bem nem no mal. O que nos torna humanos é a capacidade, a possibilidade e o dever de resolver o conflito que existe entre ambos.

Quando agimos, tomamos uma decisão. Se diante de nós se abre a possibilidade de escolher entre um ato bom e um mau, estamos diante de um conflito de valores. Para resolver o dilema, estabelecemos uma série de critérios de acordo com nossos próprios valores e com a forma como consideramos os valores do outro. Quando eu imponho meu benefício ao de outra pessoa, isso é egoísmo, outra forma de vaidade. Quando o único benefício que obtenho é provar minha teoria, é pura vaidade.

O estuprador que, frente à liberdade sexual de uma mulher e o dano físico e psíquico que lhe inflige —com seu rastro  inquebrantável— escolhe a possessão e seu próprio prazer é cruel e é vaidoso. Quando escolhemos ter mil retuítes diante do direito à honra e à dor que causamos a uma pessoa ou a um grupo, estamos sendo vaidosos em nossa maledicência. O mal é vaidoso.

Hitler era vaidoso, como vaidosos são todos os grandes malvados da história. Na ficção, Thanos, o supervilão de Vingadores: Guerra Infinita, acaba com metade do universo vivo, caótico e hiperpovoado, pelo bem do próprio universo. Mais repercussão teve a decisão final de Daenerys Targaryen, na famosa série Game of Thrones, quando se dispõe a arrasar todas as aldeias para começar de novo sobre as bases do que para ela é aceitável, conveniente e tolerável, erigindo-se em luminar da verdade e impondo-a em nome de um bem maior. Isso é vaidade.

O supremacismo é vaidade. Matar ou governar pela graça de Deus é vaidade. Existe maior vaidade do que se arrogar o papel de ferramenta divina? Matar ou governar com a exoneração de culpa castrista —“A história me absolverá”— é vaidade.

No curso da história, a tendência foi minimizar e tentar eliminar os atos que hoje consideramos inaceitáveis. Há pouco mais de um século, bater-se em duelo não era apenas legal, mas obrigatório. Dar morte a uma pessoa para resolver uma ofensa. A honra como valor estava acima da vida como valor. Antes dos duelos, o forte se limitava a executar aquele que o ofendia, sem oferecer-lhe sequer a possibilidade de se defender, sem jogar nesse mesmo ato sua própria vida para limpar sua honra. Isso faz parte da evolução moral do coletivo: se honra e vida são valores comparáveis, ao menos que a parte ofendida esteja disposta a arriscar também a sua. E um passo adiante está a proibição de que duas pessoas possam arriscar suas vidas por honra. Quem mata é um assassino, não um duelista. A vida se torna o valor mais precioso. Nada justifica o assassinato. Nada.

Isso não significa que sejamos melhores ou piores do que os homens das cavernas, significa apenas que nos adaptamos a sistemas de conduta que respondem a uma aprendizagem trans-histórica. As sociedades que prosperam são aquelas regidas por sistemas de conduta mais benéficos para a evolução.

Lola Morón é psiquiatra e especialista em neuropsiquiatria.

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