A demissão de Said Farhat e a morte de Petrônio Portela, os “operários da abertura”. Por Sebastião Nery

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Said Farhat exigiu de João Figueiredo a redemocratização do país

Por Sebastião Nery

Jornalismo é o fato. A notícia, a informação. Depois é que vem a análise. O ideal é quando o jornalista pode dar a notícia em cima do fato. Mas, muitas vezes, a maioria das vezes, só decorrido algum tempo é que temos o fato em todos os seus dados, Como a lua, a informação não nasce de vez. Ela se vai corporificando aos poucos, através da costura de numerosos elementos dispersos.

Essas histórias que conto hoje não poderia ter contado no primeiro instante. Primeiro, para não expor as fontes de informação. Mas, principalmente, porque só agora a versão surge clara, redonda, luminosa. Como uma lua, cheia de consequências políticas.

FARHAT SE DEMITE – Logo depois dos incidentes de Florianópolis, o ministro Said Farhat, da Comunicação Social, entrou cedo no gabinete do Presidente Figueiredo.

Não podia continuar no governo e por isso apresentava seu pedido de demissão, que pedia ao Presidente para aceitar. Desde o primeiro instante, ele deixara claro que ia para o governo ajudar o Presidente em seu projeto de abertura política, único caminho viável para o Brasil transformar-se numa nação socialmente equilibrada e economicamente poderosa.

Figueiredo atalhou logo dizendo que aquele era, é e continuaria sendo o objetivo de seu Governo. Por isso, não estava entendendo o gesto do ministro e amigo.

Farhat pôs o dedo na ferida. Disse ao Presidente que dentro do Planalto não havia essa unanimidade que ele imaginava em torno do projeto de abertura, ao menos em torno do ritmo, da velocidade do projeto. Alguns tinham, dentro de si, um projeto diferente e sempre agiam em função disso. Com os episódios de Florianópolis, haviam chegado a um nível intolerável as disfarçadas ou indisfarçadas hostilidades a ele, Farhat. Por isso, achava que devia sair para que o Presidente pudesse montar uma equipe realmente unida.

Figueiredo cortou a conversa textualmente: – “Nós dois viemos para cá realizar juntos um projeto de Governo. Só sairemos juntos. Não aceito a demissão de maneira nenhuma”.

MORTE DE PETRÔNIO – Um jornal de manchetes sensacionalistas poderia ter noticiado assim a morte do ex-ministro da Justiça – “Petrônio Assassinado pelo Planalto”. A Bíblia ensinou que ao homem não é dado discutir os desígnios da Providência. Mas, a notícia humana, exata, da morte do “operário da abertura” (a inteligente manchete do Correio Braziliense), mostra que a candidatura de Petrônio à Presidência da República em 1984 é que foi a responsável por todos os equívocos médicos que deixaram um ministro da Justiça morrer com uma assistência médica tão minguada.

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Petrônio Portela era o candidato civil à Presidência

Primeiro, ele já tinha passado muito mal na noite de quinta para sexta-feira durante uma viagem de Florianópolis para Laguna onde foi representar o presidente. Volta de helicóptero para Florianópolis. Chega a Laguna, faz o eletrocardiograma, acusa o enfarte. Não aceitou ficar internado.

Petrônio exigiu dos médicos levarem-no para Brasília. Na Casa de Saúde Santa Lucia, o eletro acusa o enfarte em Santa Catarina mas Petrônio não aceita ficar internado. Em casa teve o segundo enfarte e não resistiu.

UM OBSTINADO – Como exigiu, sempre falavam em distúrbio gástrico, que era consequência e não causa. “Eu sempre fui obstinado”, ele me dizia na entrevista que o Correio Braziliense publicou. No fim de todo seu longo projeto de abertura estava, já mais ou menos pacífica, sua candidatura civil (a única até então aceita pelo sistema) para a sucessão de Figueiredo.

Petrônio sabia que, com um pulmão só, na hora em que entrasse em um CTI enfartado, temporariamente afastado do Ministério, os adversários de sua candidatura teriam o argumento definitivo: “É um doente, não pode”.

Ele se obstinou para derrotar a morte e ganhar o poder. Não conseguiu. E deixou a Nação perplexa e com medo da abertura sem seu operário.

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