Lava-Jato, os tempos são outros. Por FRANCISCO DACAL

Por FRANCISCO DACAL – Escritor e administrador de empresas

    Lei, ora lei. Ética, que nada. Diziam as velhas raposas, naqueles tempos. Abafar escândalos era uma arte. Havia especialistas em vários setores da engrenagem. Hábeis conselheiros, para manter o status quo de envolvidos, se, algum dia, por acaso, fossem apanhados em flagrante delito. A sensação era a de que, no Brasil, os poderosos navegavam acima da lei. 

    Ultrapassados os 100 primeiros anos da República, chegamos ao século 21 em plena democracia. Às portas, um novo modelo de fazer política. Pluralidade de pensamentos. Respeito ao contraditório e às urnas. Ética. Moralidade. Equilíbrio e responsabilidade no trato da coisa pública. Maravilha, maravilha!

    Não. Deu tudo errado. Prevaleceu a hereditariedade da prática existente, agravada. Para espanto geral.

    Mas eis que, em Curitiba, no estado do Paraná, surge a Operação Lava-Jato, que atinge pela raiz, em cheio, como nunca antes tinha ocorrido, a sistemática da corrupção, vulgarmente considerada um indomável poder. Competentes e corajosos juízes, procuradores e policiais federais cumprem suas funções com seriedade e vigor, só isso, como os brasileiros acreditavam ser possível. Tinham razão. 

    Resultado: o fim da impunidade. Mais de 100 condenados, e presos, entre políticos de vários partidos, agentes públicos e empresários – dos mais graúdos. Bilhões de reais foram recuperados aos cofres públicos. E ainda tem muito trabalho pela frente.

    Com méritos, a Lava-Jato teve seu esforço reconhecido, inclusive internacionalmente. Conquistou um grande apoio e o respeito da maior parte dos brasileiros, extensivos aos responsáveis por levar esta árdua tarefa à frente (ratificada por estâncias superiores), o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, fato que aconteceria com qualquer outro profissional da categoria que estivesse em seus respectivos lugares, e que, com certeza, também sofreria os mesmos ataques que sofrem dos sediciosos apenados e asseclas.

    Há resistência, contra os efeitos decorrentes das ações da Lava-Jato, até de impensáveis lugares. A última delas partiu do, até então, desconhecido site de notícias The Intercept Brasil, dirigido por um jornalista dos EUA, Gleen Greenwald, sediado no Rio de Janeiro. Supõe-se que hackers invadiram telefones (um crime grave) do juiz e do procurador, principais da Lava-Jato, sequestraram informações e forneceram ao dito site (por que não a uma das organizações de imprensa de peso nacional, de grande circulação e audiência, como seria o normal?), embora digam que elas vieram de uma fonte anônima. De modo que diálogos, rigorosamente focados, de edição duvidosa, têm sido vazados como sendo autênticos, porém sem reconhecimento de uma autoridade específica do Judiciário. E do que foi divulgado, até o momento, nada compromete o futuro da Operação. O episódio agitou o noticiário e criou embaraços, como a ida do atual ministro Sérgio Moro ao Senado e a Câmara Federal, para esclarecimentos, num ambiente em parte hostil e de baixo decoro. Disse Maquiavel: “na verdade os homens ofendem ou por medo ou por ódio”. 

    Ademais, como, agora, os tempos são outros, em breve as bases que geraram os vazamentos serão elucidadas, por quem de direito, espera-se.  

    

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