‘Se aumentar muito o número de garimpeiros na nossa terra, vai dar morte’, diz líder ianomami

O pajé Davi Kopenawa Foto: Felipe Hanower / Agência O Globo

Davi Kopenawa já se tornou um cacique totalmente aculturado

Leandro Prazeres
O Globo

Respeitado internacionalmente, o líder indígena Davi Kopenawa diz estar preocupado com os notícias que ouve de Brasília e com o que vê, diariamente, em sua terra. Kopenawa é a principal liderança do povo ianomami , que vive em uma área de 9 milhões de hectares no extremo Norte do país. Ele convive, desde a infância, com a cobiça pelo ouro extraído por garimpeiros ilegais em suas terras. Agora, tenta reagir às declarações do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que defende a mineração em terras indígenas e que disse querer a instalação de diversas “Serras Peladas” pelo Brasil.

Em entrevista ao GLOBO, Kopenawa diz ser contra a mineração em suas terras e faz um alerta sobre a possibilidade de mortes com o aumento de garimpeiros em terras indígenas.

Imagens de satélite vêm mostrando um aumento dos focos de garimpo nas terras indígenas ianomâmi nos últimos meses. O senhor tem percebido isso na sua região?
Desde que começou esse novo governo, desde janeiro, entrou muito garimpeiro em nossas terras. Eles entram nas terras levando comida, gasolina, muita gente. Entra tudo. Entra doença. No mês passado, houve retirada de garimpeiros. O pessoal (do governo) mandou uns embora, mas eles estão retornando. Garimpeiro não vai sair de uma vez.

Por que acha que esse aumento aconteceu?
O preço do ouro é alto. Então, para eles, é muito bom o garimpo.

Mas percebe se houve aumento ou redução da fiscalização?
A fiscalização funciona assim: eles (órgãos ambientais) só vão lá quando querem. Às vezes, a gente avisa o Exército sobre as invasões na nossa terra, mas eles só vão lá quando querem. Demora muito.

O presidente Jair Bolsonaro vem repetindo a sua intenção de abrir as terras indígenas para a mineração. Qual a sua opinião sobre isso?
A minha opinião, e eu não estou sozinho nisso, é a opinião de todos os povos ianomâmi, é que a gente não quer mineração em terra indígena. A mineração não vai trazer nenhum benefício para o índio. Nenhum benefício para o ianomâmi. Só vai trazer coisa ruim. Doença, rio poluído e violência.

Por que você acha que o presidente está insistindo tanto nesse assunto?
O presidente Bolsonaro tem contato muito forte com outros governos. Com o governo americano, com o governo canadense. São governo mais fortes. O que o presidente quer é deixar esses países virem aqui para extrair a riqueza da terra da nossa terra. O índio brasileiro não vai ganhar nada. Quem vai ganhar é o americano, é o canadense. Essa é a minha fala. Em quem o presidente está pensando? Não é no nosso povo. Ninguém está pensando no que vai acontecer se o governo colocar mineração em terra indígena.

Alas do governo e até o presidente Bolsonaro afirmam que ONGs estrangeiras teriam interesse em comprometer a soberania do Brasil sobre a Amazônia por conta das riquezas da região. Por outro lado, o próprio presidente diz que quer que empresas estrangeiras façam mineração nas terras indígenas. Como você vê esse paradoxo?
É complicado entender isso, né? O governo brasileiro está envolvido com os americanos. Está alinhado com eles. Esse é o pensamento dele (Bolsonaro). Ele mesmo fala. O governo brasileiro fica falando como se abrir a terra indígena para a mineração fosse melhorar a vida do índio. Ele é militar e pensa como militar. Quando eu tinha 10 anos, o presidente também era militar (João Baptista Figueiredo). Ele é fruto disso. Agora que ele chegou ao governo, fica repetindo a mesma coisa que os militares sempre disseram. Que tem muita terra para pouco índio, que não precisa de tanta terra.

Você tem medo de que esse discurso cause a morte de mais indígenas como ocorreu no massacre de Haximu, em 1993, quando mataram 16 ianomamis?
O governo dele (Bolsonaro) não vai matar com arma de fogo. Eu estou preocupado porque isso vai acabar matando o meu povo com doença. É isso que eu estou preocupado. Agora, se aumentar muito o número de garimpeiros na nossa terra, vai dar morte. Morte de garimpeiro e morte de ianomâmi. É isso que vai acontecer. Ninguém vai morrer sozinho. Nós morreremos e os garimpeiros morrerão na floresta. E as famílias deles vão sofrer como as nossas estão sofrendo.

Vocês estão preparados para conflitos?
Nós estamos acordando. Se o garimpeiro atacar a gente, nós vamos reagir.

Você soube da morte de uma liderança indígena no Amapá?
Sim. Mataram como um animal selvagem. E nós, índios, irmãos, não somos animais. Nós somos gente.

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