Mudanças climáticas em curso têm reflexos em Pernambuco

Ciclos comuns de chuva e seca no Estado têm se tornado mais frequentes, confusos e extremos, devido à ação do homem e do aquecimento global.

12 pessoas morreram devido às chuvas no Grande Recife

12 pessoas morreram devido às chuvas no Grande Recife      Foto: Paullo Allmeida / Folha de Pernambuco
Por: Artur Ferraz e Paulo Trigueiro – Folhape

Sessenta e três municípios do Interior de Pernambuco tiveram situação de emergência decretada por uma longa estiagem. Na Região Metropolitana do Recife, quatro tiveram por excesso de chuva. A média de chuva anual vem diminuindo na Mata Norte. Na Mata Sul, as enchentes ocorrem com frequências maiores. Em Pernambuco, fazem vítimas fatais e afetam comunidades inteiras. Especialistas acreditam que as oscilações climáticas naturais se potencializam com a mudança climática global em curso, causada pela ação humana. E elas podem se tornar ainda mais problemáticas. Tecnologias de captação e armazenamento de água que antes só eram necessárias no Sertão ou no Agreste, já são implementadas pelo Governo do Estado na Zona da Mata.

“O que está acontecendo agora no Recife pode ser considerado dentro de uma variabilidade climática. São fenômenos que acontecem ciclicamente dentro de um determinado tempo. A questão é que, com a mudança climática em curso, eles se tornarem mais frequentes, extremos ou bagunçados. Este é o cenário mais provável para explicarmos os extremos no Estado, mas tudo ainda está em estudo”, explica o doutor em meteorologia pela UFCG Ranyere Nóbrega.

Institutos de pesquisas climáticas como o Potsdam, preveem 2020 como o último ano em que a diminuição do lançamento de gases de efeito estufa possam evitar as mudanças. Meteorologista da Agência Pernambucana de Águas e Clima, Vinícius Gomes detalha que há ainda um debate sobre o aquecimento do planeta, já uma certeza, está sendo causado por ação do homem ou apenas responde a um ciclo natural. “Já são claras as mudanças criadas em microclimas, principalmente em cidades como São Paulo e algumas chinesas, muito poluídas. Aqui no Recife, as ilhas de calor são bons exemplos. O normal é a incidência solar evaporar a água e aquecer o solo e o ar. Quando se tira o aporte de umidade, colocando asfalto na cidade, a água é perdida. A radiação apenas aquece o solo e o ar”, explica o meteorologista Vinícius Gomes. “Mas não há certeza se o homem tem capacidade de realizar esse tipo de mudança globalmente, já que a maior parte da superfície terrestre é oceânica e a população mundial não está organizada uniformemente.”

Transtornos invernais
O desenvolvimento metropolitano, além do calor, também é responsável por alagamentos. Para o doutor em geografia pela Universidade de Sorbonne, Jan Bitoun, as consequências do crescimento desordenado do Recife são quase irreversíveis. Para acabar com os alagamentos, seria necessário reconstruir a Cidade corretamente. “No começo dos anos 1900, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito planejou um grande canal que ia do Parque Amorim até a avenida Mário Melo, desaguando no Beberibe, onde hoje fica o Monumento Tortura Nunca Mais. Ele evitaria alagamento de partes baixas como a praça Oswaldo Cruz e mesmo algumas mais altas como a rua Gervásio Pires. Não foi feito,” analisou.

Bitoun cita ainda construções com solo impermeáveis sobre terrenos antes alagados. Todos os grandes Shoppings do Recife e de Jaboatão, assim como o aeroporto, são exemplos. “Quando o rio se expandia, tinha esses locais para ocupar. O Shopping Recife, inclusive, era citado com um aterro naquela época”, lembrou. “A orla de Boa de Viagem também foi impermeabilizada, retendo as chuvas. Os mais idosos ainda lembram quando Boa Viagem terminava na Avenida Conselheiro Aguiar. Aquela orla tinha um dos poucos solos arenosos no Recife, útil para a infiltração da água. A maioria da nossa superfície é argilosa ou arenoargilosa.”

Quando as chuvas são mais insistentes, como tem ocorrido neste inverno, os transtornos se transformam em deslizamentos de barreiras, desabrigados e mortos. A RMR registrou 109 pessoas sem casa e 12 vítimas fatais nesta semana.

Sob o domínio do medo
O casal Douglas Mendes da Silva, 19, e Daiane Aparecida, 28, moram a poucos metros de onde morreu o casal de idosos Natalício Vicente da Silva e Ivonete Maria da Silva, atingido por um deslizamento de terra na última quarta-feira, no bairro do Passarinho, Zona Norte do Recife. Sobem, entre uma e outra queda d’água, o barro molhado da rua Ageu. Depois, descem à direita e sobem outra ladeira escorregadia para, enfim, chegar na casa, numa encosta. “Quando a pessoa deita a cabeça no travesseiro, pensa muita coisa. A qualquer momento, nossa casa pode desmoronar”, contou Douglas.

Antes de ir para Passarinho, eles moravam em Águas Compridas, em Olinda, onde presenciaram outro desmoronamento, sem vítima. São as moradias que cabem no orçamento da família. Sem emprego, ele diz que a única forma de garantir o sustento é vendendo pipoca e água na comunidade. A isso, se junta o que ela ganha do Bolsa Família, resultando numa renda média de R$ 370 por mês para o casal e os quatro filhos de Daiane, de 2 a 8 anos. Só o aluguel consome R$ 100. Com a chuva, só as crianças saíram de casa e foram para a casa da irmã dela. “Lá é muito apertado, não dava para a gente dormir também”, diz Daiane.

Na planície, quem mora na beira do canal também vive em alerta. Na quarta-feira, ao ver subir o nível do Rio Beberibe, outra jovem de 19 anos, Luana Kelly dos Santos, amarrou os colchões, suspendeu o fogão e recolheu o que tinha da sua casa, no Jacarezinho, em São Benedito, em Olinda, para levar à casa da mãe, num ponto mais alto da comunidade. “Sabia que ia encher e a gente dormiu lá. Às 4h da madrugada, o povo que mora aqui saiu avisando e a água já estava acabando com tudo”, lembra a dona de casa.

A família vive do que o marido consegue apurar como autônomo e da ajuda da mãe dela, Marilene Maria dos Santos, 48, que cedeu a casa para a família há três anos. Antes disso, ela morava ali com todos os filhos, totalizando 12 pessoas no mesmo espaço.
Em Timbaúba, na Mata Norte do Estado, a barragem Tiúma chegou ao limite pela primeira vez em muitos anos. “Nem me lembro quando foi. Eu moro em Coronel Maranhão, muito próximo. Se ela estourasse, seria o primeiro bairro atingido. Acordei às três da manhã, com muita chuva. A gente escuta que está muito forte e tem medo, não volta a dormir. Esperei amanhecer, porque tenho meus pais idosos. A gente fica pensando como fazer, caso aconteça algo. Eu os levaria para o primeiro andar dos meus vizinhos”, planeja a artesã Rosângela Felipe, 50.

A barragem de Tiúma é uma das que correm alto risco de rompimento segundo relatório da Confederação Nacional dos Municípios. No começo do ano, a secretária de Infraestrutura e Recursos Hídricos de Pernambuco, Fernandha Batista, afirmou em janeiro à Folha de Pernambuco que o problema estava na forma de avaliação utilizada e que nenhuma barragem no Estado corria riscos. “A gente não sabe se vai ter uma sirene, um alerta, alguma coisa, caso ela apresente algum problema. Saber isso nos tranquilizaria”, demandou Rosângela.

A falta de chuva
Precipitações na Mata Norte, como as que encheram o reservatório de Timbaúba, são concentradas. Foram sentidas na plantação de Luiz Damião, 50, na comunidade dos Marrecos, em Lagoa do Itaenga. Quando chegaram, ele já utilizava a água de uma cisterna de calçadão com a capacidade 52 mil litros, instalada em sua propriedade pelo Governo do Estado em 2017. São tecnologias que, até então, eram restritas ao Sertão e ao Agreste. Mas em 10 anos, as chuvas médias anuais na cidade diminuíram em quase 40%.

“Muita gente foi embora daqui porque não conseguia sobreviver com a monocultura da cana-de-açúcar ou da mandioca. A comunidade onde estudei meu primário, chamada de Mundo Novo, por exemplo, acabou. Carrapato, também. As pessoas não viam potencial nas terras porque só esperavam a chuva voltar. Aí todas venderam suas terras para os grandes produtores”, explica Damião.

A mudança veio com a ajuda de ONGs como o Centro Sabiá e o Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta) e do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). A partir da demanda da comunidade, as professoras de agronomia Aníbia Vicente e Gizélia Ferreira coordenaram um projeto de implantação de um Sistema Agroflorestal (SAF) nas áreas dos agricultores.

“Nós conversamos com a comunidade e fizemos dois diagnósticos: um geral e outro mais aprofundado, com 17 famílias. Eles elencaram as prioridades, que foram o manejo e conservação de água, de solo, de biodiversidade”, explica Gizélia, atualmente cursando o doutorado em Sevilha, na Espanha.

Damião tentou levar o pai ao curso sobre SAF, uma das atividades do projeto pensado pelo IFPE para a comunidade. “Ele disse que tinha mais de 50 anos de agricultura e não tinha mais o que aprender. Mas quando eu replantei um pedacinho da terra dele e, em seis meses, o lucro foi muito maior que a monocultura, ele mandou eu derrubar e fazer da nova forma”, lembra.

Ali, o milharal é misturado com uma plantação de batatas, que cobre o chão com folhas baixas e não permite que o sol evapore a água, mantendo o solo úmido por muito mais tempo. O capim se deixa viver. As árvores, quando morrem, servem de cobertura para enriquecer de nutrientes a terra enquanto se decompõe. As plantas que fixam a água no perto das raízes são colocadas sistematicamente próximas a poços. Um deles, na propriedade vizinha a de Damião, já estava perto de secar quando foi recuperado com o reflorestamento da mata atlântica por um professor da UFRPE. “Muitos trabalhos científicos em SAFs já estabelecidos observaram o retorno de fontes de água desaparecidas”, conta Gizélia. Animais como o sagui e o galo-de-campina também voltaram a aparecer nas terras, verdadeiros oásis de mata atlântica entre grandes monoculturas.

O SAF é um sistema de produção que mescla diversas espécies, de forma planejada, para a produção de frutíferas, madeireiras, grãos e hortaliças nos estágios iniciais. “E com a evolução desses sistemas eles vão também promovendo e fortalecendo alguns processos e ciclos ecossistêmicos. Promovem a proteção dos solos, estabelecem raízes em profundidade, reduzem processos erosivos, reduzem a temperatura nesses espaços de 3 a 5 graus, dessa forma reduzem a evapotranspiração e a evaporação, mantendo os ambientes mais úmidos.”

Desertificação
No Sertão, em muitos locais o processo atual é o chamado de desertificação pelo engenheiro agrônomo Vasconcelos Sobrinho. “É o tipo de solo que conhecemos como luvissolo crômico. É rico em argila. Quando você vai desmatando, o solo fica exposto e há um processo erosivo intenso que retira toda a argila. E, como o resto do material é quartzo, ele sobe e dá aquela fisionomia de solos de deserto”, explica o doutor em Geociências pela UFPE Fernando Mota.

Ele confirma que ainda não sofremos uma mudança climática, mas que devemos estar no processo. “As pessoas precisam se preocupar, se não, uma real mudança vai acontecer. Ainda no processo, vemos isso: aumento do processo de secura e de precipitação, Mata com chuva abaixo da média. É preciso agir.”

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