Como a tecnologia mudou o romance contemporâneo

Antes, casais se conheciam por meio de amigos em comum, da vizinhança ou na escola. Hoje, aplicativos de namoro são a principal forma de encontros

Como a tecnologia mudou o romance contemporâneo
Aplicativos oferecem uma vasta gama de opções de parceiros (Foto: Pixabay)

Para as gerações futuras, a pergunta: “Como você e o avô se conheceram?”, será provavelmente respondida com: “Tinder, obviamente”. Em oito anos, a internet se tornou a maneira dominante pela qual os casais heterossexuais se encontram. O último estudo sobre como os casais se formam atualmente, divulgado em pela Universidade de Stanford, descobriu que 39% dos casais heterossexuais se conheceram por meio de encontros ou aplicativos online, em comparação a 22% em 2009, quando o estudo foi realizado pela última vez. A vida foi invadida pela tecnologia, assim como a vida amorosa. O que mais podemos aprender sobre como o romance mudou?

Hoje, conhecemos estranhos, não mais amigos de amigos

As pessoas que se encontram através de amigos em comum – antes a maior categoria – caíram de 34%, em 1990, para 20% nos dados mais recentes do estudo; outras maneiras de iniciar relacionamentos, como através do trabalho, família e vizinhos, também diminuíram. Analisando o estudo pela primeira vez, pode parecer que o número de casais que se encontram bares ou restaurantes subiu, mas isso é apenas porque eles “se encontraram” online primeiro e o bar foi o local de seu primeiro encontro presencial.

A acessibilidade dos navegadores da web em meados dos anos 1990 e a popularização dos smartphones habilitados para internet há pouco mais de uma década tiveram um impacto enorme. “Eu não sei se vamos ver outra inovação tão poderosa quanto essas duas nos próximos 20 anos”, diz Michael Rosenfeld, professor de psicologia que conduziu o estudo.

O namoro online perdeu o estigma

“As pessoas que entrevistei conversaram sobre como era começar namoro online anos atrás. As pessoas não queriam que ninguém soubesse. E agora são muito mais abertas sobre isso, porque se tornou onipresente. Um dos meus participantes disse que o Tinder fez o namoro online se tornar algo legal. A percepção mudou “, diz Roisin Ryan-Flood, professora de sociologia da Universidade de Essex, que está escrevendo um livro sobre namoro online.

Como vivemos em um mundo cada vez mais digital, não é surpreendente, diz ela, que nossos relacionamentos tenham sido feitos digitalmente da mesma forma que fazem compras online ou reservas para um feriado.

“Da minha pesquisa, as pessoas costumavam falar sobre namoro online como: ‘Estou muito ocupado e é uma maneira eficiente de conhecer pessoas’. Você pode acessar um aplicativo de namoro e marcar um encontro diferente para cada noite da semana”, diz Ryan-Flood.

O fascínio por amores da juventude está em declínio

No Reino Unido e nos EUA, as pessoas estão se casando mais tarde. Na Grã-Bretanha, a idade do primeiro casamento vem aumentando desde o início dos anos 1970 e agora é de 37,9 para homens e 35,5 para mulheres.

“As pessoas estão tendo muito mais encontros e experiências antes de se estabelecerem [com um parceiro]”, diz Rosenfeld.

“À medida que nos tornamos mais globalizados, esses contextos locais estreitos – e a pequena comunidade de amigos de escolas primárias e secundárias – não têm muita influência sobre como podemos imaginar nosso futuro”, explica a socióloga Julia Carter, da Universidade do Oeste da Inglaterra.

“No passado, você podia conhecer alguém na universidade, aceitar isso e ser feliz”, diz Carter. “O que aconteceu é que essa tecnologia de namoro removeu esse ponto de parada, então as pessoas continuam procurando. No passado, as pessoas poderiam ter se estabelecido com sua namorada ou namorado universitário, ao passo que agora eles têm esse campo imaginário mais amplo de parceiros em potencial, o que está tendo um impacto sobre quando as pessoas se estabelecem com um parceiro. Sabemos que as pessoas hoje se casam muito mais tarde e têm filhos mais tarde, o que faz com que relacionamentos universitários tendam a fracassar”.

Romances no local de trabalho também estão em declínio

Rosenfeld diz que se tornou mais fácil encontrar pessoas online do que em escritórios. “Na faculdade, há muitas pessoas solteiras ao seu redor, mas se você está no mercado de trabalho, de repente não está 100% claro quem é solteiro ou se é apropriado namorar seu supervisor. Os problemas da vida real se intrometem”, explica Rosenfeld.

Os romances de escritório se tornaram menos aceitáveis? “Há certamente desvantagens em namorar alguém no trabalho. Uma vez que as coisas azedam e você tem de vê-las todos os dias, isso é uma desvantagem. Nossos amigos de recursos humanos perceberam isso e sugerem que o escritório não é um ótimo lugar para o romance”, diz Rosenfeld.

Pode ser também que, após as revelações do #MeToo sobre assédio sexual, as pessoas estejam mais propensas a manter “distância profissional no trabalho. “Eu não acho que seja uma coisa ruim se torna as pessoas mais conscientes sobre o assédio sexual ou os limites. Você não sai em um encontro com alguém que te assedia sexualmente”, diz Ryan-Flood.

Você não ama teu vizinho

Menos pessoas estão namorando com seus vizinhos – outro fato que tem relação com uma população mais móvel. “Há setenta anos, os americanos se casavam quando tinham 19 ou 20 anos. Você realmente não ia a lugar algum, então falava sobre [se casar com alguém] na escola, na igreja ou no bairro – essas foram as únicas pessoas que você conheceu. Agora, as pessoas estão se estabelecendo mais tarde na vida, então são viajadas, vivem em lugares diferentes e o bairro de origem não é tão relevante quanto costumava ser”, diz Rosenfeld.

Também pode ter algo a ver com o fato de não conhecermos mais nossos vizinhos. Um estudo realizado no Reino Unido no ano passado descobriu que 73% das pessoas não conheciam os nomes de seus vizinhos e 68% os descreviam como pessoas “estranhas”.

Nossas histórias de amor estão ficando mais chatas – ou pelo menos mais curtas

Em 2009, os entrevistados da pesquisa usaram 67 palavras para contar a história de como se encontraram. Em 2017, o número caiu para 37 palavras, provavelmente porque não é preciso muita coisa para dizer além de: “Demos um ‘match’ no Tinder”.

É uma vergonha perdermos as histórias de faíscas e espontaneidade? “Algumas pessoas que entrevistei expressaram uma espécie de nostalgia por essa ideia de uma maneira diferente de as pessoas namorarem, em vez de ficarem online, e havia uma sensação de descartabilidade, mas, na maioria das vezes, as pessoas tinham experiências realmente positivas”, diz Ryan-Flood.

De qualquer forma, a tecnologia mudará “e talvez o Tinder seja realmente romântico”, diz Ryan-Flood, com uma risada.

“Meus pais se conheceram em um baile. Eu não acho que os aplicativos são melhores ou piores do que qualquer outra maneira. O que realmente conta é encontrar alguém com quem você se sinta conectado”, conclui Ryan-Flood.

Fonte:
The Guardian-Why childhood sweethearts no longer measure up – and six other ways dating has changed

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