Não foi só o Trump. Por Monica De Bolle

Por Monica De Bolle* (foto)

Depois da crise, o nacionalismo se tornou cada vez mais escancarado.

Não foi só o Trump nem a combinação do Brexit com sua vitória eleitoral em 2016. Ao contrário do que muitos ainda pensam, o populismo nacionalista ressurgente começou a despontar nos países avançados — e em seguida em um punhado de países emergentes — logo após a crise financeira de 2008. É isso que mostra pesquisa recente concluída por mim e coautores, prestes a ser publicada pelo Peterson Institute for International Economics, após o processo habitual de peer review.

Nós examinamos 55 plataformas políticas de todos os países do G20 antes e depois da crise de 2008. Criamos metodologia para codificar e atribuir notas de 1 a 5 para diferentes aspectos do nacionalismo econômico que desponta como pilar do populismo nacionalista que hoje enfrentamos pelo mundo. Dividimos o nacionalismo econômico em sete dimensões de política econômica: a política industrial, a política comercial, a política em relação ao investimento externo, a política migratória, a política macroeconômica, a política em relação às instituições multilaterais e a política em relação à concorrência. Cada uma dessas dimensões recebeu nota no documento do partido político analisado: a nota 1 refletia a inclinação liberal no sentido clássico do termo; já a nota 5 refletia o grau máximo de nacionalismo justificado por casos históricos, como o nazismo dos anos 30 ou o fascismo nacionalista na Itália e na Espanha. Analisamos todos os partidos que haviam recebido mais de 10% dos votos nas eleições gerais mais próximas anteriores à crise de 2008 e nas eleições mais recentes.

A primeira constatação interessante é que, tanto nos países avançados quanto nos emergentes, os partidos que não tinham relevância ou que não existiam antes da crise, são, de um modo geral, mais extremistas — muitos são mais nacionalistas, outros têm claro viés estatizante. Portanto, as plataformas políticas desses “novos” atores no quadro político de cada país refletem nitidamente a aglutinação nos extremos que caracteriza esta era de polarização. Como disse anteriormente, essa revelação é generalizada, não se restringe à reinvenção do Partido Republicano nos Estados Unidos, tampouco ao Ukip defensor do Brexit na Grã-Bretanha. Há novos nacionalistas no México, na Índia, na Coreia do Sul, por exemplo.

O PSL de Jair Bolsonaro é difícil de codificar, pois a plataforma de 2018 não contém informações suficientes, mostrando o que já sabíamos: o partido que venceu as eleições não tinha propostas claras ou bem delineadas para nada. Não à toa vemos o protagonismo do Congresso preenchendo esse vácuo. Tal protagonismo é bem-vindo. A segunda constatação é que a crise financeira de 2008 pode, de fato, ter servido como um divisor de águas importante. Quando consideramos as plataformas políticas antes da crise, havia claramente posicionamentos mais à esquerda ou mais à direita, mas o nacionalismo não era tão evidente. Quando constatávamos nacionalismo, ele aparecia de forma meio encabulada, quase pedindo perdão por ali estar.

As plataformas mais recentes demonstram orgulho em ser nacionalistas, escancaram essa postura sem qualquer pudor. Nossa metodologia foi capaz de captar isso com clareza, além de demonstrar quão abrangente é a tendência. E, igualmente importante, embora muito do nacionalismo de hoje esteja identificado com partidos de extrema-direita, há partidos de esquerda que também o abraçaram.

A terceira constatação é que o nacionalismo é contagiante. Ele se espalha de um país para o outro como uma epidemia — ou como uma crise financeira. Países não são nacionalistas individualmente. O discurso de que o estrangeiro deve ser visto com desconfiança — seja o estrangeiro as empresas, os imigrantes, as instituições — tem fortíssimo apelo emocional e, por conseguinte, político. Os partidos são o fio que conduz esses sentimentos mais descarados do eleitor. Será muito interessante ver como isso haverá de se refletir nas próximas eleições, sobretudo nas eleições para presidente aqui nos EUA. Já se veem dos dois lados do espectro ideológico os sinais do nacionalismo destemido. Ele aparece tanto em Trump quanto nas propostas da senadora democrata Elizabeth Warren, uma das primeiras colocadas nas pesquisas.

O Brasil que tanto já sofreu com os desmandos nacionalistas escapará dessas tendências? O Brasil do Congresso na liderança e de Rodrigo Maia como capitão das reformas conseguirá resistir ao apelo? De um lado, nossos problemas são grandes demais, urgentes demais, para que possamos nos permitir tirar os olhos do que é preciso fazer. De outro, é justamente da frustração que nasce o populismo nacionalista mais estridente. Os perigos estão aí. Basta prestar atenção no presidente e em seu entorno, filhos incluídos.

*Monica De Bolle é diretora de estudos latino-americanos e mercados emergentes da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics 

Revista Época

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