A mágoa de quase 26 anos que tive por causa do falso “jornalismo” da Veja

Jorge Béja

A Tribuna da Internet é um blog dinâmico. Está sempre no ar, atualizado e nunca estático. Notícias e artigos e são publicados de imediato. E incrivelmente editado por um só jornalista, Carlos Newton, seu criador. Nele escrevo há cerca de 7 para 8 anos. E dos articulistas, sou o menor de todos. O blog conta com seletos leitores que postam seus comentários sempre de alto nível. Tenho muita honra e sinto grande prazer de participar da Tribuna da Internet como articulista e colaborador para sustentá-lo no ar, visto que os gastos com sua manutenção não são poucos.

Desde novembro de 1993 que trago comigo grande mágoa que me causou a revista Veja (Vejinha-RJ). No auge do exercício da advocacia e devido à projeção que alcancei, não por méritos próprios, mas em razão das rumorosas e inéditas causas que abracei, sempre em defesa de pessoas vitimadas (foram mais de 30 mil causas), a Veja me pediu uma entrevista de uma página.

LONGAS ENTREVISTAS -Queria saber da minha vida, do meu dia-a-dia e como eu fazia para me sustentar, pois trabalhava mais gratuitamente do que cobrava honorários. Além disso — justificou a revista –, eu também era pianista e dava modestos recitais, todos beneficentes.

Concordei. E durante quatro dias (segunda, terça, quarta e quinta-feiras) a delicada e fidalga repórter Márcia Vieira se encontrava comigo pela manhã e comigo passava quase o dia inteiro, registrando tudo. Até meus álbuns de fotos e notícias Márcia carregou com ela e depois me devolveu. Fotos no escritório, nas ruas, no fórum, recebendo clientes…e muito mais, tudo foi feito pelo fotógrafo da Veja-Rio.

E eu acreditando que a entrevista de uma página serviria para estimular outros advogados, principalmente no início da carreira, a obrar sempre e sempre e desinteressadamente pelo próximo, preferencialmente pelos pobres, vítimas das mazelas do poder público e de acidentes e tragédias, naturais e causadas pela incúria humana.

UTIL & FÚTIL – Mas não foi bem assim. Não foi nada assim. No domingo seguinte, quando a Veja-Rio foi para as bancas, minha foto ocupava toda a capa da revista. Embaixo da foto o título “O Chato Útil”. E dentro da revista, em sete páginas, uma outra grande foto com outro título: “Dr. Útil & Fútil”.

Chato, porque eu corria atrás e contra os grandes e poderosos em defesa dos pequenos e pobres. Fútil, porque proibi Madonna de se apresentar no Maracanã com a bandeira brasileira, que ela prometeu esfregar na vagina como “prova de amor ao Brasil e aos brasileiros”. Fútil, porque proibi César Maia de pagar 6 milhões de dólares a Michael Jackson para o cantor, que estava em São Paulo, viajar até o Rio e cantar aqui.

Fútil, porque outra vez proibi o mesmíssimo prefeito de pagar outros 6 milhões de dólares ao cineasta e então senador italiano, Franco Zefirelli, para comandar o Réveillon daquele ano na praia de Copacabana.

DALAI LAMA – Fútil, porque foi com um Habeas-Corpus que impetrei em Brasília que consegui que o Dalai Lama Tenzin Guiatzu e sua comitiva viessem ao Brasil participar da Eco-92, uma vez que o governo brasileiro, subserviente à China, negara-lhe o visto.

Fútil, porque também foi com outro Habeas-Corpus que voltei a Brasília para impetrar e garantir que o então cacique Mário Juruna viajasse até Roterdã e ocupasse sua cadeira no Tribunal Bertrand Russell, lá reunido para discutir a situação indígena de todo o mundo. Juruna, então tutelado pelo Estado Brasileiro, havia sido impedido de viajar até que a ordem judicial derrubou a proibição. E Juruna viajou.

Fútil, porque, ao ler nos jornais a situação da paciente Dilma Fernandes, internada no Hospital Souza Aguiar, onde suas carnes serviam para a comida dos ratos do hospital, também por conta própria e através de Habeas-Corpus, retirei-a de lá, fechei a enfermaria e o diretor do hospital foi levado para a delegacia.

COMIDA DE RATO – Dilma estava em coma, com paralisia cerebral e engessada da cintura até os dois pés. Com o emagrecimento, as pernas foram definhando, definhando e os ratos do hospital entravam pela vão, entre o gesso e as pernas (fininhas, fininhas) e comiam as carnes de Dilma. A princípio o juiz criminal negou o habeas-corpus.

“Ela não está presa, doutor”, disse o juiz. Quando respondi e disse que estava numa situação pior do que presidiária, porque sem condições de se defender, aí o doutor me deu razão e expediu a ordem de remoção, fechamento da enfermaria e condução do diretor até à presença do delegado de polícia.

LIBERTAÇÃO – Era uma mágoa que a Vejinha-RJ me causou e que me acompanhava até o dia de ontem, 23 de abril de 2019. E a mágoa se foi. Saiu de mim e me deixou de vez. Tudo por causa do artigo que o doutor José Carlos Werneck, advogado militante em Brasília, escreveu e publicou aqui na Tribuna da Internet. Artigo em minha homenagem, em comemoração ao 23 de Abril (73 anos de idade). Com elogios que não mereço.

Saiba, doutor Werneck, seu artigo, fora da linha editorial da TI, me lavou a alma, como se dizia antigamente. Retirou de mim a mágoa que a revista Veja (Vejinha-RJ) cravou no meu sentimento, na minha honra e na minha reputação, e doravante nunca mais tê-la-ei. Tudo, graças ao seu artigo, doutor José Carlos Werneck.

Para que os leitores tenham, ainda que ligeira e incompleta, a dimensão da publicação da referida revista em novembro de 1993, aqui vai reproduzida, sem os devidos caprichos fotográficos, a capa da longa matéria sobre minha vida que a Revista Veja-Rio publicou. Obrigado, doutor Werneck. Obrigado, Carlos Newton. Ambos me tiraram o peso da mágoa que me acompanhou por quase 26 anos.

Deixe uma resposta