A ROTINA E OS DESAFIOS DA RECONSTRUÇÃO DO MUSEU NACIONAL, SEIS MESES DEPOIS

Trabalho deve levar até cinco anos para ser concluído; milhares de peças foram resgatadas dos escombros, mas muitas também se perderam

O Museu Nacional, em abril de 2019, meses após do incêndio que destruiu parte do edifício e seu acervo Foto: Custódio Coimbra / Agência O GloboO Museu Nacional, em abril de 2019, meses após do incêndio que destruiu parte do edifício e seu acervo Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Quando entrou em um dos salões da seção ulterior do Museu Nacional, Maxuel Caetano, 29, sabia que, em meio às cinzas e escombros, podia repousar o que sobrou de Sha-amun-em-su. A múmia da cantora-sacerdotisa que integrava o seleto grupo de amas virgens de Mut, a esposa do deus egípcio Amon, era uma das peças mais raras do Museu Nacional , em fase de reconstrução após o incêndio do último 2 de setembro. Em questão de minutos, ele e o colega Jefferson encontraram um esqueleto inteiro, deitado sob restos de um armário. O sarcófago datado de 750 a.C. e os vestígios do embalsamamento haviam sido totalmente consumidos pelo fogo. Mas não cabia lamúria. Os restos mortais estavam ali, em ossos chamuscados.

“Caraca, o Jefferson fez o maior escândalo”, recorda o bem-humorado Max, antes de imitar o amigo. “Eu não vou botar a mão nisso aí, li na Internet que dá feitiçaria”. O bioarqueólogo Murilo Bastos, especialista em ossos humanos que orientava os serventes de obra, ainda tentou explicar que se tratava de uma lenda, mas não conseguiu convencer Jefferson a ajudar no resgate da múmia. Os três integram a equipe de pesquisadores e operários que trabalha nas buscas pelo acervo, e foram os primeiros, em quase 2.800 anos, a ver Sha-amun-em-su de fato — privilégio que nem Pedro II, o dono da coleção, tivera. O belo sarcófago de madeira estucada e policromada era lacrado.

A peça era o xodó do imperador. Relatos dão conta de longas conversas mantidas com a múmia cantora, que permaneceu em seu gabinete até a Proclamação da República, quando foi incluída no catálogo museal. Foi um presente do quediva Ismail, do Egito, na segunda viagem de Pedro de Alcântara ao país, em 1876. O interesse por egiptologia começou ainda na infância, com a chegada de uma coleção adquirida pelo pai, Pedro I, no melhor do “jeitinho brasileiro”.

O monarca arrematou as relíquias escavadas no Templo de Karnak, durante a passagem de um comerciante italiano pelo Rio de Janeiro. Seu destino original era Buenos Aires, mas notícias de instabilidade política na Argentina o desanimaram a seguir viagem. Como a lista da alfândega não contemplava a permissão para a entrada de múmias no Brasil, a solução foi enquadrar o artigo como “carne seca”. Assim começou aquele que era o mais importante acervo egípcio da América Latina até cinco meses atrás. Só na sala onde Sha-amun-em-su foi resgatada, havia outras três múmias raras. Duas delas permanecem sob os escombros.

As ruínas do Templo de Karnak por volta de 1925. O complexo religioso de Karnak, especialmente dedicado ao culto do deus Ámon, faz parte da antiga cidade de Tebas, um dos locais mais sagrados na religião dos antigos egípcios e que chegou a ser capital de alguma dinastias de faraós. Para os historiadores, a cidade começou a ser habitada há cerca de cinco mil anos atrás. Foto: Herbert Felton / Getty Images
As ruínas do Templo de Karnak por volta de 1925. O complexo religioso de Karnak, especialmente dedicado ao culto do deus Ámon, faz parte da antiga cidade de Tebas, um dos locais mais sagrados na religião dos antigos egípcios e que chegou a ser capital de alguma dinastias de faraós. Para os historiadores, a cidade começou a ser habitada há cerca de cinco mil anos atrás. Foto: Herbert Felton / Getty Images

O resgate não é um processo trivial. Para que os operários limpem a área, a fim de permitir o início das obras de recuperação, é preciso fazer um pente fino no entulho, uma grande mistura de alvenaria e mobiliário destroçados com restos de peças milenares no meio. Nada pode ser simplesmente descartado. Uma primeira verificação é seguida de rigorosa peneiragem, necessariamente aprovada por um pesquisador. “As cerâmicas egípcias são muito parecidas com telhas. Com o tempo, passamos a identificar melhor, pelas curvas”, conta Max. “Uma telha tem várias ondulações, o vaso já é mais arredondado, com uma bordinha mais grossa e o fundo mais resistente”, detalha o operário de olhar cada vez mais acurado.

Cada setor de pesquisa tem suas prioridades, mas, em um primeiro momento, os trabalhos têm sido direcionados para viabilizar as obras emergenciais do Paço de São Cristóvão. Além do escoramento das estruturas fragilizadas, que punham em risco a equipe, é preciso construir um telhado que cubra todo o prédio para proteger das chuvas o que sobrou do acervo. Em fase final de construção, a mega estrutura ficará a 23 metros de altura e será suportada por 42 pilastras cujas bases, concretadas ao chão, exigem a abertura de espaços em toda a área do museu, inclusive no jardim interno.

O ritmo é ditado pelo avanço dos homens nos andaimes. Um deles é o baiano Eraldo Galvão, de 34 anos. O cansaço é tamanho que ele dorme sentado ao conversar com a esposa quando chega em casa. “Nossa responsabilidade é muito grande. Durmo e acordo pensando nessa obra”, conta o marceneiro. A queixa aparente contrasta com um sorriso largo. Especializado em projetos de restauração, Eraldo conhece o sentimento de sentir-se responsável pelo resultado final. “Toda vez que passo na Pinheiro Machado, olho para a cúpula do Palácio Guanabara e penso que tem dedo meu ali”, diz.

Desta vez, ele estava de férias no interior da Bahia quando soube, pela televisão, sobre o incêndio. “Fiquei muito chateado e, na hora, falei ao meu pai que torcia para pegar essa obra”, recorda. O convite para trabalhar no Museu viria dias depois, e também significou ficar mais perto da família. Antes, estava em Vassouras dedicado à recuperação de um casarão histórico.

A RESTAURAÇÃO DO MUSEU NACIONAL, EM IMAGENS

Ele pede atenção à reportagem antes de entrar em casa, no bairro de Quintino, subúrbio do Rio. Ao abrir a pequena porta que revela uma sala abaixo do nível da rua, as gêmeas Ana Beatriz e Larissa, de oito anos, disputam com o agitado João Miguel, de três, o abraço no pai. O mais novo faz questão de dedurar que, outra vez, as irmãs assistiam à série infantil “Carinha de Anjo”. Além de ouvir as últimas sobre a trama, Eraldo tem que dar notas para apresentações de dança antes de contar em detalhes o dia na obra — as filhas querem falar tudo na escola. A paraibana Paula, sua esposa, diz que a dupla chegou a conhecer o antigo museu, mas, no futuro, as visitas terão outro significado. “Essa festa compensa qualquer cansaço”, diz Eraldo, que acorda às 4h50 de segunda à sábado em uma semana que ainda comporta três idas a uma igreja evangélica de Madureira.

Com funções de contenção, Eraldo só fica sabendo do avanço nas buscas pelo acervo na hora do almoço, em um refeitório improvisado do lado de fora do museu. Lá os peões mostram fotos e links de internet sobre os itens encontrados. Os celulares foram proibidos pela direção no canteiro de obras. Por isso, Max teve dificuldades para convencer a esposa de que tinha resgatado um fêmur de dinossauro com quase dois metros. “Esse dia me impactou muito. Só tinha ouvido falar disso na escola”, conta. “Era muito pesado, precisamos de seis pessoas para pegar. Estava meio quebrado, e retiramos de maca, como se fosse uma pessoa. Muito colega achou que era de mentira”, recorda.

Como de praxe no trabalho de resgate, os pesquisadores da área explicaram todos os detalhes sobre o objeto — espécie, tamanho, época e local em que viveu. “A prova de que o Museu vive são as verdadeiras aulas que esses operários têm no dia a dia da obra”, afirma Murilo, o bioarqueólogo. Max, que não concluiu o Ensino Médio, falou minuciosamente à ÉPOCA sobre a formação e características de fósseis vegetais. Ele ficou um mês inteiro dedicado à seção de paleobotânica, supervisionado pela pesquisadora Luciana Witovisk, curadora desse acervo. Depois de múmias e dinossauros, procurar marcas de plantas antigas poderia ser um tédio. “Fiquei muito interessado pelo tempo delas. Achava muito engraçado quando ela falava que um fóssil de 3 milhões de anos era novinho”, conta, aos risos.

““NOSSA RESPONSABILIDADE É MUITO GRANDE. DURMO E ACORDO PENSANDO NESSA OBRA””

ERALDO GALVÃO
Um dos restauradores do Museu Nacional
A missão da dupla era vasculhar 24 armários incinerados em busca do que restou de um acervo com mais de 7 mil fósseis botânicos — a maior e mais antiga coleção do gênero no país. No dia seguinte à tragédia, o cenário era desolador: o calor fizera os armários encolherem à metade do tamanho, criando uma massa disforme de pedra e metal fundido. Ainda assim, Luciana era otimista. “Havia um São Jorge na minha sala, que foi a última a incendiar. Passados dois meses, encontrei a imagem, e só o pano que o envolvia tinha pegado fogo. Foi um sinal de que iríamos recuperar todos os fósseis emblemáticos”, crê.

Dito e feito. Com o avanço das buscas , no entanto, vieram as dores na coluna, e a responsabilidade de Max aumentou: ele passou a fazer a primeira análise dos itens recuperados. “O danado aprendeu tudo. Sabia separar folha, madeira, samambaia. Até os que estavam danificados ele conseguia identificar”, elogia a professora, lembrando que, por duas vezes, a dupla descobriu novos fósseis dentro de pedras com as superfícies destruídas.

Trabalhadores da reforma vão ao Museu de segunda à sábado. Auxiliados pelos pesquisadores, eles também passaram a aprender sobre os objetos que coletam, como fósseis de dinossauros e plantas Foto: Gabriel Vasconcelos e João Pedro Soares / Agência O Globo
Trabalhadores da reforma vão ao Museu de segunda à sábado. Auxiliados pelos pesquisadores, eles também passaram a aprender sobre os objetos que coletam, como fósseis de dinossauros e plantas Foto: Gabriel Vasconcelos e João Pedro Soares / Agência O Globo

No último dos armários, a apoteose: “quando ele tirou a gaveta com esforço, vi uma coisa redonda no meio de tudo destruído”. O único fóssil que se salvou naquele arquivo foi justamente o Psaronius brasiliensis, o exemplar mais antigo encontrado no Brasil, com cerca de 270 milhões de anos. Ao fim das buscas na seção, cerca de 20% da coleção foi recuperada. “A história da paleobotânica no Brasil não se perdeu. Os principais fósseis, os mais antigos, a gente achou. O resto a gente sofre, mas recoleta”, garante Luciana.

Entre os pesquisadores, o resgate mais celebrado foi o crânio de Luzia , a primeira habitante das Américas. Ciente da responsabilidade que carregava, Murilo tinha as mãos trêmulas quando se aproximou do armário incinerado que abrigava a relíquia. “Fui escolhido por ser bem magro, já que a abertura da porta era muito estreita”, explica. Fragmento por fragmento, ele salvou a peça-símbolo da instituição. “Em temperaturas mais altas, ossos tendem a quebrar, mas conseguimos identificá-la com facilidade. Havia muito papel queimado no entorno, parecia uma churrasqueira. Muitos armários derreteram, mas, para nossa sorte, aquele era resistente e a prateleira estava só um pouco envergada”, comemora.

O trabalho de resgate corre em clima de satisfação, à diferença do ambiente fúnebre que tomava a Quinta da Boa Vista no dia seguinte ao incêndio. Ante às cinzas ainda quentes, os pesquisadores relatavam, às lágrimas, a sensação de ver seus objetos de pesquisa destruídos. “Meu marido acordou sem profissão”, dizia a esposa de um deles, que preferiu não se identificar. “Hoje, quem vê de fora talvez não entenda por que brincamos tanto aqui”, diz a arqueóloga Cláudia Carvalho, coordenadora do trabalho de resgate, que envolve 60 profissionais da instituição. “Se cada um parar para pensar no que o incêndio significa para a sua vida pessoal, não conseguimos avançar”, afirma.

Em alguns casos, é possível dizer, a mudança brusca de rotina foi bem-vinda. Com funções de curadoria há anos, a arqueóloga Angela Maria Rabello voltou ao terreno. Não mais em sítios pré-históricos como fazia na juventude, mas no próprio Museu. “Não quero mais parar de escavar, isso tem sido muito importante para mim. As peças que estamos resgatando vão desde o paleolítico e neolítico europeu, africano e asiático, até as coleções ameríndias e outras mais recentes. Aqui está a história do mundo”, diz a pesquisadora, que ingressou na UFRJ ainda em 1974, como estagiária.
Trabalho de restauração e busca de objetos acontece no Museu desde pouco tempo após o incêndio. Instituição temia revenda ilegal de objetos coletados por ali Foto: Gabriel Vasconcelos e João Pedro Soares / Agência O Globo
Trabalho de restauração e busca de objetos acontece no Museu desde pouco tempo após o incêndio. Instituição temia revenda ilegal de objetos coletados por ali Foto: Gabriel Vasconcelos e João Pedro Soares / Agência O Globo

TRAUMA VITALÍCIO

Mas o trauma é latente. Para o diretor da instituição, o paleontólogo Alexander Kellner, uma dor que se mistura ao sentimento de impotência. Ao encerrar o expediente na sexta-feira que antecedeu a tragédia, a sensação era de dever cumprido. Finalmente, o Museu Nacional tinha recebido a vistoria de um técnico do BNDES, condição para a implementação de um projeto de combate a incêndios financiado pelo banco de desenvolvimento.

Kellner passou aquele final de semana em Porto Alegre, para comemorar o aniversário de sua companheira. Livre de preocupações, não ligou o celular ao aterrissar de volta no Rio, no domingo. Estranhou, então, a presença do filho mais velho no saguão de desembarque. Pensou tratar-se de uma coincidência. O primogênito poderia ter ido buscar a namorada. Ao saber que não, perguntou se estava tudo bem com a mãe do rapaz, sua ex-mulher. “Fogo, pai”. “Meu apartamento pegou fogo?”, perguntou o diretor, perdido até identificar um de seus assessores aos prantos. Após a negação inicial, não tardou para que as raízes germânicas tomassem as rédeas da situação.

O diretor é um sujeito insólito. Cientista mundialmente reconhecido, vai todos os anos ao território brasileiro na Antártida em busca de fósseis de dinossauros. Mas não faz a linha introspectiva da maioria de seus pares. Fala alto e gosta das frases de efeito, sempre marcadas pela contração das feições arianas. Amável, mas ríspido no segundo seguinte, marcha decidido pelo prédio anexo do Museu, no alto de seus quase dois metros. Ele estava há apenas seis meses no cargo quando ocorreu o desastre. Naquela noite, foi direto para a Quinta e, à revelia do comandante dos Bombeiros, adentrou o edifício em chamas . Queria ver de perto a gravidade do incêndio e salvar objetos de sua pesquisa, armazenados em sua sala. Ao constatar estágio das chamas, resignou-se.

“Enfrentei muita resistência de familiares e amigos quando decidi concorrer à direção do Museu, mas mantive o propósito. Sei que a instituição precisa de alguém com o meu perfil”, afirma, elencando longa lista de realizações. “Meu único medo era um incêndio. Um mês depois de eu assumir, o Museu teve o primeiro curso de segurança contra incêndios. Na primeira aula, eu era o único presente. Levei um instrutor na congregação seguinte e falei: ‘se eu pudesse, obrigava cada um de vocês a participar. Entre pesquisadores, alunos e técnicos, formamos mais de 90 pessoas”, exalta.

Alexandre Kellner, diretor do Museu Nacional, durante inauguração da exposição
Alexandre Kellner, diretor do Museu Nacional, durante inauguração da exposição “Quando nem tudo era gelo – Novas descobertas no continente Antártico”, no Centro Cultural Museu Casa da Moeda. Kellner vai anualmente ao território brasileiro na Antártida em busca de fósseis de dinossauros. Foto: Márcio Alves / Agência O Globo
“É muito cruel, sobretudo porque o dinheiro estava chegando , cara. Sabe qual é a pior parte para mim? Eu revi todo o meu procedimento e sabe o que eu poderia ter feito de diferente? Nada. Eu preferia ter errado e saber onde foi”, desabafa. “Perdi uma das coisas que me é cara. Não sou mais o pesquisador Alex Kellner, coisa que me honra. Agora, sou o diretor do museu que pegou fogo”, diz, em tom solene. “E já que é assim, vamos reconstruí-lo. Enquanto me deixarem trabalhar, vou fazer”, promete. O primeiro passo para a recuperação foi a contratação da empreiteira Concrejato, selecionada em chamada pública 19 dias após a tragédia — um tempo recorde dentro da burocracia da universidade.

Ainda na semana do incêndio, uma primeira verba emergencial de R$ 10 milhões foi assegurada pelo Ministério da Educação (MEC) do então presidente Michel Temer. Receosa do extravio de objetos do acervo para a venda no mercado negro, especialmente no caso dos meteoritos, a reitoria da UFRJ fez uma força tarefa para obter recursos. Também era preciso criar condições para a continuidade dos cursos de pós-graduação, reconhecidos internacionalmente. Em 50 anos de existência, o Programa de Antropologia Social, por exemplo, nunca recebeu nota diferente do conceito máximo da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do MEC).

“”PERDI UMA DAS COISAS QUE ME É CARA””

ALEXANDRE KELLNER
Diretor do Museu Nacional
Do montante de R$ 102 milhões garantidos em menos de três meses para a reconstrução, a maior parte veio de emendas parlamentares da bancada fluminense em Brasília. Um encontro realizado menos de 48 horas após a tragédia, em plena campanha eleitoral, contou com a presença de mais de 30 dos 46 deputados. Ficou acertada a destinação de uma emenda de bancada no valor de R$ 55 milhões – R$ 30 milhões para as obras no edifício e outros R$ 25 milhões para a construção do anexo que irá abrigar os centros de pesquisa em um terreno contíguo à Quinta, de 49 mil m², cedido pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU). Como as emendas são impositivas, entram automaticamente no orçamento e não podem ser sustadas. O restante dos recursos será aportado por BNDES (R$ 20 milhões), CNPq (R$ 10 milhões), Finep (R$ 10 milhões), Unesco (R$ 5 milhões) e Capes (R$ 2 milhões).

Apesar do sucesso, as negociações para a destinação da verba junto ao Planalto não foram simples. Em uma das reuniões para convencer Temer sobre a importância da liberação, a universidade rivalizou com o Ministério da Cultura pela verba de R$ 55 milhões. Deputados presentes relatam que o então ministro da pasta, Sérgio Sá Leitão interveio para demover a presidência do repasse, culpabilizando a direção da universidade e politizando o debate a todo momento. O lobby do já presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM) teria sido decisivo para manter a universidade à frente da reconstrução.

Na mesma linha, alguns presidenciáveis associaram a responsabilidade pela tragédia à vinculação partidária do reitor da UFRJ, Roberto Leher, filiado ao PSOL. “A indicação política leva a isso”, comentou, na ocasião, o ainda deputado Jair Bolsonaro (PSL), que teve endosso de Ana Amélia (PP), candidata a vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB). Em que pese a retórica, deputados ouvidos por ÉPOCA disseram que Bolsonaro não questionou as emendas propostas pela bancada fluminense.
A universidade estima que a reconstrução total do museu levará até cinco anos e custará cerca de R$ 250 milhões, a maior parte de recursos públicos. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
A universidade estima que a reconstrução total do museu levará até cinco anos e custará cerca de R$ 250 milhões, a maior parte de recursos públicos. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Para os parlamentares, é o indicativo de que o novo governo é capaz de colaborar com o Museu. No dia 1º de fevereiro, houve a primeira visita da nova equipe do Ministério da Educação à universidade, e Leher confirma a impressão. “Creio que os dirigentes do MEC perceberam que a UFRJ tem um plano de ação sólido. Isso facilita muito o diálogo, que ficou objetivo, em torno de questões concretas”, garante.

O reitor lamenta que a tragédia não tenha despertado um debate sobre a falta de políticas públicas voltadas à manutenção do patrimônio histórico-cultural no país. “No caso dos prédios tombados, não existe sequer rubrica orçamentária. O setor privado também não investe. Tivemos nove projetos aprovados na Lei Rouanet, mas não apareceram patrocinadores. Ninguém quer apoiar a reforma da parte elétrica, porque não aparece a plaquinha da empresa. Cada vez mais, só querem financiar espetáculos da Broadway”, queixa-se.

RENOVAÇÃO EM CURSO

Após a conclusão das obras emergenciais, em março, terá início a reforma efetiva do prédio. Como a estrutura é tombada, tem de ser recriada tal como era antes, o que será feito a partir da fachada, cuja conclusão está prevista para o início de 2020. A universidade estima que a reconstrução total do museu levará até cinco anos e custará cerca de R$ 250 milhões, a maior parte de recursos públicos.

Com a seção frontal recuperada, a direção já espera promover exposições, para manter vivo o contato com o público. Enquanto isso, a parte de trás seguirá isolada, em reforma. Simultaneamente, um grupo de trabalho em dedicação exclusiva formulará o novo conceito museal da instituição, cujo prédio principal será utilizado somente para as exposições. As coleções e atividades de pós-graduação serão transferidas para os anexos, demanda antiga dos pesquisadores. A ideia é integrar o Museu à Quinta e outras opções de lazer complementares em São Cristóvão, melhorando o acesso a trem e metrô. Para tal, já existem conversas com a Unesco, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura do Rio. A meta da reitoria é ousada: aumentar o número de visitantes anuais de 180 mil para 1 milhão de pessoas em até cinco anos.

“Se pensarmos só nas escolas públicas do grande Rio, são mais de 2 milhões de estudantes. A Quinta tem condições de receber 50 mil pessoas num fim de semana, só precisa de infraestrutura adequada. Todo turista que vier ao Rio tem que passar no Museu. Nós fazemos isso quando viajamos”, defende o reitor. “Queremos que a tragédia atraia atenção não só via espetacularização, mas pelo viés da informação. Fui guiado pelas filhas crianças de um casal amigo no Museu de Antropologia no México. Nossas crianças não conhecem seus ancestrais. Gosto do desafio de reinventar uma tradição museal”, conclui.

No delicado contexto de segurança pública do Rio, a ambulância escoltada por viaturas da Polícia Militar poderia dar a ideia de que um ferido em confronto era transportado. Na verdade, o aparato se devia ao transporte de Sha-amun-em-su para uma clínica de radiologia na Barra da Tijuca, onde seria tomografada para o estudo do que havia no interior do sarcófago lacrado. Foi a forma que os pesquisadores do Laboratório de Processamento de Imagem (Lapid) do Museu encontraram para driblar a falta de recursos para adquirir uma máquina de escaneamento tridimensional.

Semanalmente, o médico Iugiro Kuroki informava a equipe do Lapid dos horários vagos, e a estratégia era montada. Ao analisar as imagens da múmia cantora, oito anos após a tomografia, o egiptólogo Antônio Brancaglion descobriu que sua garganta estava revestida por uma bandagem de resina. Como o mesmo foi detectado em outra múmia-sacerdotisa contemporânea na Universidade de Chicago, os estudiosos suspeitam que o artefato tenha sido colocado para permitir àquelas mulheres usar a voz no mundo dos mortos.

Restauradores trabalham entre os escombros do Museu Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Restauradores trabalham entre os escombros do Museu Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
O método não invasivo permite que os pesquisadores analisem minuciosamente seus objetos de pesquisa sem a necessidade de tocá-los ou abrir os sarcófagos, no caso das múmias. Agora, irá possibilitar também a criação de réplicas das peças destruídas pelo fogo. O Museu conta com duas impressoras 3D, que tinham ido para manutenção e se salvaram do incêndio. Elas retornariam dias antes da tragédia, mas um elevador quebrado adiou a entrega. Na Praça Mauá, zona portuária do Rio, Jorge Lopes opera a maior máquina do gênero na América Latina, patrimônio do INT. Desde 2000, ele trabalha no Lapid em parceria com o paleontólogo Sérgio Azevedo, coordenador da iniciativa que é pioneira em nível mundial.

“Tinha uma máscara indígena linda, representada pelo Debret, e vários outros objetos preciosos que não foram escaneados a tempo. É difícil não pensar o que poderíamos ter feito”, lamenta Jorge, apesar do grande volume de material escaneado. Este, porém, não é seu maior remorso. “Incomodou muito não ter levado minha filha, de quatro anos, para conhecer o Museu antes do incêndio. Você não faz ideia”, desabafa. Ela será mais uma integrante da numerosa comitiva infantil que tem presença garantida na reabertura do Museu. A obra emergencial termina neste mês de março, para o lamento de Maxuel.

“Vou levar essa experiência para a vida toda. Fiz amizades boas, adquiri conhecimento. Antes, fóssil, dinossauro e múmia não faziam nenhum sentido. Vi a importância das pessoas que trabalham com isso”, relata o sensível Max. Ante as ruínas da sala onde fez sua especialização em fósseis botânicos, escuta da professora Luciana que leva muito jeito para a paleontologia e tem estágio garantido na casa caso siga esse caminho. “Pô, um convite desses”, diz, sem graça.

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