Filósofo italiano analisa como o mundo perdeu a confiança no futuro

Em ‘Depois do Futuro’, Franco Berardi (foto) mostra como o amanhã, antes visto com euforia, se tornou motivo de desespero

Por Amanda Mont’Alvão Veloso* 

“Não, não é filme, é o futuro / nossos filhos vão se matar / por nada – por nada! / tente mudar, tente mudar, mudar o amanhã”. Em lírica enraivecida, Redson Pozzi fazia ecoar um dos manifestos inconformistas contidos no disco de estreia da banda punk paulistana Cólera, Tente Mudar o Amanhã, de 1984. A arte e o pensamento desfrutam de encontros involuntários: o cantor e compositor brasileiro, morto em 2011, anunciava em canção o que mais tarde o filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi registraria no livro Depois do Futuro, publicado na Itália em 2009 e que chega ao Brasil pela editora Ubu.

Dez anos depois da publicação original, o livro confirma uma melancólica atualidade dos pensamentos de Bifo, estudioso das relações entre comunicação e tecnologia, e intelectual que tem na biografia participação ativa no Maio de 68. Aguardado com entusiasmo e euforia no século 20, o futuro hoje é esperado com desolação. Para chegar a esta enfática constatação, o italiano convoca referências do cinema, psicanálise, filosofia, linguística, poesia e dos movimentos artísticos.

As utopias, fundadas nas vanguardas culturais e apoiadas nas esperanças de justiça social, democracia liberal e tecnologia, foram substituídas por uma perspectiva sombria dos dias que virão, mesmo com conquistas. Um futuro temido em uma permanência que se esgarça – a expectativa de vida aumentou cinco anos, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Por quanto tempo cada um de nós viverá o avançar dos dias em um horizonte de pessimismo?

O prefácio à edição brasileira, escrito em janeiro deste ano, confirma factualmente as amargas sensações reservadas ao futuro. Berardi comenta a ascensão da extrema-direita ao poder por meio do voto, o reacionarismo e o retorno aos nacionalismos em diferentes partes do globo. As expectativas frustradas perante a promessa de progresso e a sedução do individualismo deram corpo a um ressentimento agressivo, com ataques violentos promovidos por jovens excluídos do poder econômico e político. Triunfo do fascismo? Não na opinião do filósofo, para quem a nova brutalidade e o ódio são expressões de um desespero e de uma vingança nutridos não só pelo colapso financeiro, mas também pela humilhação política e sexual trazida de carona. Se antes a resposta à desilusão era de violência e potência, hoje ela encampa um escape psíquico da impotência e do autodesprezo. “Hoje, pessoas brancas votam em partidos nacionalistas não porque acreditam pertencer a uma comunidade, mas porque gostariam de resgatar esse sentimento do passado. Elas cresceram na era do individualismo desenfreado, confiaram nas promessas do egoísmo neoliberal e se descobriram perdedoras”, argumenta o autor.

Como chegamos a tamanha descrença no futuro? Certamente não de forma abrupta ou inimaginável. O livro de Berardi consiste em dar nome e contexto a essa transição, e estabelece em 1977 o divisor de águas, marco do que ele chama de “século sem futuro”. É o ano em que nasceram o punk, a Apple e foram publicados importantes ensaios sobre a tecnologia e as relações, como A Informatização da Sociedade, de Alain Minc e Simon Nora, e A Condição Pós-moderna, de Jean-François Lyotard. Algo se rompeu entre a esperança e a prática. Não se trata da morte do futuro enquanto existência, mas sim da falência de sua equivalência com o progresso. Esta distinção é fundamental para entender a crítica do filósofo italiano do sistema trabalhista, do uso da tecnologia e das conquistas da dimensão espaço-temporal.

O intervalo de comparação começa em 1909, com a publicação do Manifesto Futurista. As tendências registradas na história tornavam o futuro conhecível, assim como as leis de desenvolvimento formuladas pela ciência. O que não estava previsto ou precisava de ajuste era modificável pela ação humana. Se no século 20 tinham valor a máquina, a funcionalidade, a velocidade, a violência e a guerra, nos cem anos seguintes passaram a vigorar a competição, a produtividade, a precarização e a desvalia das relações de contato. A vanguarda, cosmopolita e afeita à desterritorialização e à experimentação, contrasta com a atualidade do nacionalismo e da previsibilidade.

As máquinas, antes externas ao humano, se tornaram internalizadas – que o digam os biohackers e seus chips implantados no próprio corpo. Dispositivos de avanço se transformam em mecanismos de controle, e então é inevitável pensarmos no Big Brother orwelliano – mais real que ficcional – e nos aplicativos que dão acesso a dados pessoais, microfones, fotos e documentos. A invasão é paradoxalmente voluntária.

Há um gosto amargo de déjà vu nos argumentos acima, familiarizados pela literatura distópica, pelo cinema engajado e pelas revoltas populares. Black Mirror, O Conto da Aiae Westworld apontam para uma desumanização alarmante justamente porque reconhecível. Por que, então, mais uma publicação sobre o desencanto? Porque Berardi não sucumbe à nostalgia das utopias; é na idealização da sociedade que ele situa os estados autoritários e o terror do nazismo, fascismo e comunismo. A vigilância tornou-se signo de convivência e repressão.

Foi na pretensão da igualdade como meta obtusa, ou seja, sem espaço para as diferenças étnicas, religiosas e tantos outros matizes, que começaram os ataques à singularidade que hoje marcam o noticiário do nosso século. A pluralidade de identidades foi tomada como desorganizacional, indomesticável. A rede virtual, promissoramente espaço de liberdade, mostrou-se também aprisionamento customizado de agendas do ódio e da perversão, a exemplo dos fóruns de incitação a crimes como pedofilia, estupro, racismo e homofobia. A navegação anônima pulverizou as práticas e as intenções. Não cabe, porém, demonizar a experiência na internet: enquanto alguns se juntam para tramar a violação da lei, outros se reúnem para denunciar a supressão dos direitos humanos em seus países.

Na análise do intelectual italiano, o trabalho tem papel de termômetro nesse futuro que se espera obscuro. Na passagem da tecnologia que facilitou processos à aceleração das atividades multitarefas desempenhadas, o esforço ficou tão fragmentado em partículas e horas que o trabalhador em si ficou invisibilizado. Seu rendimento é que se tornou farol. A dedicação de uma vida não mais dá a segurança de uma aposentadoria correspondente. Parar de trabalhar torna-se um risco. E para aqueles ainda inseridos no mercado de trabalho, mais um golpe na singularidade: algoritmos avaliam performance e decidem demissões, conforme denuncia Cathy O’Neil, doutora em matemática pela Universidade de Harvard.

Para muitos, o futuro já é um lamentável presente. Hoje há mais idosos no mundo do que crianças, segundo a ONU. São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. Uma situação inédita no mundo que não soube alimentar esperanças para o desconhecido. Os jovens já experimentam efeitos infelizes, alerta Berardi. Depressão e ansiedade fermentam estatísticas e preocupações. O suicídio individual e também o dos coletes-bomba e tiroteios em massa demonstram o extremo da consequência. Há também as experiências radicais de isolamento vividas pelos hikikomori no Japão, em que adolescentes e jovens adultos se trancam em seus quartos superconectados e renunciam à vida externa.

As pessoas nascidas nos anos 1980 vivenciaram a prevalência da mídia sobre o contato com o corpo humano, assinala o italiano. A conexão de outrora é a conectividade que só faz laços intermediados por códigos. Mas a ausência da corporeidade é cara. Ela deixa de fora a sensibilização e o encontro empático que só a humanização multiplica. É suporte para a solidariedade, esta que fez resistência ao projeto desumanizador de Hitler no nazismo e que parece ser o componente-chave para a ressurreição do futuro proposta por Berardi.

Ainda que pinte um cenário de desamparo, o filósofo oferece propostas. E elas passam pelo exercício da futurabilidade, que depende da pluralidade, do afeto e da poesia que extrai o mais-além da linguagem. Enquanto paira o retrocesso como descrição frequente do futuro aqui no Brasil, com o negacionismo e o ultraje coordenando políticas públicas, imaginar a mudança perante o caos parece beirar o ingênuo. Mas é crucial, parece nos dizer Berardi, indiretamente. Carece de sustentação coletiva, da arte e de coragem para permitir-se pensar aquilo que a máquina não nos apresentou.

*Amanda Mont’Alvão Veloso é psicanalista, jornalista e mestranda em linguística aplicada pela PUC-SP 

O Estado de São Paulo

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