Julian Assange: que é o fundador do Wikileaks, preso em Londres após quase 7 anos de asilo em embaixada do Equador

Julian AssangeDireito de imagemREUTERS
Julian Assange pediu asilo na embaixada do Equador em Londres em 2012; na imagem, ele aparece algemado dentro de um veículo ao ser preso por policiais britânicos nesta quinta-feira

A polícia britânica prendeu nesta quinta-feira o cofundador do site de vazamentos de dados sigilosos WikiLeaks, Julian Assange, em um novo capítulo da história do ativista.

As revelações de maior destaque feitas por Assange mostravam detalhes pouco conhecidos da atuação dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Segundo os documentos, soldados americanos são acusados de atacar e matar homens, mulheres e crianças que não tinham relação direta com os conflitos.

Assange foi preso na embaixada do Equador em Londres, onde ficou asilado durante sete anos para evitar ser extraditado para os EUA.

Ele enfrentava acusações de abuso sexual na Suécia, que posteriormente foram arquivadas, e também temia ser enviado aos Estados Unidos, onde vê o risco de ser julgado pelos vazamentos de dados.

Sua prisão agora estaria realacionada ao fato de ele não ter se apresentado à Justiça britânica. Ele foi considerado culpado pelo Tribunal de Westminster, em Londres, nesta quinta-feira sob essa acusação.

Risco de extradição

Assange agora enfrenta acusações de conspiração federal dos EUA relacionadas a um dos maiores vazamentos de segredos de Estado da história.

O Reino Unido vai decidir se vai extraditá-lo, em resposta a alegações do Departamento de Justiça de que ele conspirou com a então analista de inteligência dos EUA Chelsea Manning para baixar quatro bancos de dados confidenciais do Exército americano.

O ativista pode pegar até cinco anos de prisão nos EUA se for condenado por conspiração para invadir computadores.

A advogada dele, Jennifer Robinson, disse que eles vão lutar contra o pedido de extradição. Ela disse que o que ocorreu estabelecia um “precedente perigoso”, pelo qual qualquer jornalista poderia enfrentar acusações dos EUA por “publicar informações verdadeiras”.

Inicialmente, acreditava-se que a prisão não estaria relacionada aos vazamentos, mas às acusações de abuso sexual feitas por duas mulheres contra ele na Suécia – Assange afirmava que as acusações seriam uma invenção no contexto de uma “caça às bruxas” orquestrada pelos EUA contra o WikiLeaks. Ele também teria violado as leis dos Estados Unidos ao publicar documentos secretos do governo americano.

O ativista havia se refugiado na embaixada para evitar a extradição para a Suécia ou, ainda, para os Estados Unidos, mas acabou surpreendido com a suspensão do asilo.

‘Violações’

A prisão ocorre um dia após o WikiLeaks ter anunciado que havia descoberto uma operação de espionagem das atividades de Assange na embaixada do Equador.

O atual presidente do Equador, Lenín Moreno, vinha limitando as ações permitidas a Assange no interior da representação diplomática.

Segundo o correspondente da BBC James Landale as autoridades equatorianas já tinham vetado o acesso à internet a Julian Assange e tinham acusado o cofundador do Wikileaks de estar desenvolvendo atividade política, o que não é permitido àqueles que têm o pedido de asilo atentido.

O presidente do Equador disse que retirou o asilo de Assange depois de ele ter violado repetidamente regras internacionais. O governo também suspendeu a cidadania equatoriana concedida ao ativista.

Em vídeo publicado em sua conta no Twitter, Lenín Moreno, disse que a conduta de Assange era “desrespeitosa e agressiva”. Moreno acrescentou que o WikiLeaks publicou declarações “hostis e ameaçadoras”.

O ex-presidente do Equador Rafael Correa, que atendeu em 2012 ao pedido de asilo feito por Assange, criticou a decisão.

“Lenín Moreno […] revelou ao mundo sua miséria humana, entregando Julian Assange à polícia britânica – não somente um asilado, como também um cidadão equatoriano”, disse Correa.

Para o ex-presidente, a decisão de entregar Assange à polícia britânica “põe em risco a vida dele e representa uma humilhação para o Equador”.

O WikiLeaks, por sua vez, tuitou que o governo do Equador agiu ilegalmente ao encerrar o asilo político de Assange “em violação do direito internacional”.

O secretário de Estado para Assuntos Internos do Reino Unido, Sajid Javid, confirmou, também via Twitter, a prisão de Assange: “Posso confirmar que Julian Assange está agora sob custódia da polícia e vai responder à Justiça no Reino Unido. Gostaria de agradecer ao Equador por sua cooperação e à polícia por seu profissionalismo. Ninguém está acima da lei.”

Assange tem 47 anos e havia se recusado a deixar a embaixada, alegando que seria extraditado para os Estados Unidos para interrogatório sobre as atividades do WikiLeaks.

Figura controversa

Assange na embaixada do Equador em Londres em 2012, cercada por policiaisDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDa embaixada no Equador, Assange dizia que os EUA promoviam uma “caça às bruxas” contra o WikiLeaks

Para seus apoiadores, Julian Assange é um corajoso defensor da verdade. Para seus críticos, ele é alguém que busca publicidade e que pôs vidas em risco ao tornar público um grande volume de informações confidenciais.

Assange é descrito por ex-colaboradores como intenso, motivado e altamente inteligente – com uma capacidade excepcional de decifrar códigos de computador.

Ele criou o WikiLeaks, que publica documentos e imagens confidenciais, em 2006 – ganhando manchetes em todo o mundo em abril de 2010, quando divulgou imagens de um vídeo mostrando soldados dos Estados Unidos matando 18 civis no Iraque. Eles atiravam do alto de um helicóptero.

No final daquele ano, no entanto, Assange acabou detido no Reino Unido após a Suécia emitir um mandado de prisão internacional por denúncias de abuso sexual contra ele.

As autoridades suecas queriam interrogá-lo sobre denúncias apresentadas por duas mulheres no país. Uma o acusava de estupro. A outra, de que ele a havia molestado e coagido sexualmente em agosto de 2010, quando esteve em Estocolmo como convidado para dar uma palestra. Ele diz que os dois encontros foram totalmente consensuais.

Julian AssangeDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA Suprema Corte do Reino Unido já havia decidido a favor da extradição de Assange – o que nunca chegou a ser efetivado

Assange entrou na embaixada do Equador em Londres em junho de 2012 pedindo asilo politico. Um mês depois, a Suprema Corte do Reino Unido decidiu a favor da extradição dele – o que nunca chegou a ser efetivado.

O Ministério das Relações Exteriores da Suécia, por sua vez, sustentava que a única razão pela qual queria sua extraditação era para que as acusações contra ele no país pudessem ser devidamente investigadas.

Após cinco anos, promotores suecos disseram que estavam encerrando suas investigações sobre Assange. A Polícia Metropolitana de Londres avisou, no entanto, que ele ainda seria preso se deixasse o prédio da embaixada.

A vida dele

Assange normalmente evita falar sobre seu passado, mas o interesse da mídia desde o surgimento do WikiLeaks trouxe algumas ideias sobre as influências que teve.

Ele nasceu em Townsville, no Estado australiano de Queensland, em 1971, e teve uma infância sem raízes enquanto seus pais dirigiam um teatro itinerante.

Ele foi pai aos 18 anos e não demorou a enfrentar batalhas jurídicas pela guarda da criança.

Hacker

Já no desenvolvimento da internet, o australiano viu a chance de usar suas habilidades em matemática – um caminho que também lhe trouxe problemas.

Em 1995, ele foi acusado, junto com um amigo, de dezenas de atividades hackers.

Embora o grupo que integravam fosse experiente o bastante para rastrear os detetives que os monitoravam, Assange acabou sendo pego e se declarando culpado.

Ele foi multado em vários milhares de dólares australianos – escapando da pena de prisão sob a condição de que não voltaria a cometer tais crimes.

Após o episódio, ele passou três anos escrevendo um livro com Suelette Dreyfus – pesquisadora que estava estudando o emergente lado subversivo da internet. A obra, chamada Underground, se tornou um best-seller.

Dreyfus descreveu Assange como um “pesquisador muito qualificado” que estava “bastante interessado no conceito de ética, em conceitos de justiça, no que os governos deveriam e não deveriam fazer”.

A isso se seguiu um curso de física e matemática que ele fez na Universidade de Melbourne, onde virou um destacado membro da sociedade matemática e inventor de um elaborado quebra-cabeça em que seus contemporâneos dizem que teria se superado.

Ele lançou o WikiLeaks em 2006 com um grupo de ativistas que compartilhavam visões semelhantes às dele, criando métodos especiais para receber secretamente materiais sigilosos, candidatos a vazamentos.

Julian Assange na Suécia, em 14 de agosto de 010Direito de imagemAFP
Image captionAssange em 2010, ano em que os vazamentos do WikiLeaks ganhram destaque no mundo

“Para manter nossas fontes seguras, tivemos que espalhar recursos, criptografar tudo e mudar telecomunicações e pessoas ao redor do mundo para ativar leis de proteção em diferentes jurisdições nacionais”, disse Assange à BBC em 2011.

“Nós ficamos bons nisso, e nunca perdemos um caso, ou uma fonte, mas não podemos esperar que todos passem pelos esforços extraordinários que nós fazemos.”

Ele adotou um estilo de vida nômade, administrando o WikiLeaks de locais provisórios e itinerantes.

Assange conseguia passar longos períodos sem comer, e se concentrar no trabalho com poucas horas de sono, segundo Raffi Khatchadourian, repórter da revista New Yorker, que passou várias semanas viajando com ele.

“Ele cria essa atmosfera a seu redor, onde as pessoas próximas querem cuidar dele, para ajudá-lo a seguir em frente. Eu diria que isso provavelmente tem a ver com o seu carisma.”

Campanha de difamação

O WikiLeaks e Assange ganharam destaque com a divulgação de um vídeo mostrando um helicóptero americano atirando em civis no Iraque.

Ele promoveu e defendeu o vídeo, bem como a liberação maciça de documentos militares confidenciais dos Estados Unidos sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque em julho e outubro de 2010.

O WikiLeaks continuou divulgando novas levas de documentos, incluindo cinco milhões de e-mails confidenciais da empresa norte-americana de inteligência Stratfor.

Em meio aos vazamentos, também se viu, no entanto, lutando para sobreviver em 2010, quando várias instituições financeiras dos EUA começaram a bloquear doações que recebia.

Julian Assange, em 2 de fevereiro de 2012Direito de imagemAFP
Image captionAssange diz que esforços da Suécia para prendê-lo são politicamente motivados e parte de uma campanha de difamação contra ele e seu site

A cobertura de Assange foi dominada pelos esforços da Suécia para interrogá-lo sobre as acusações sexuais de 2010.

Ele disse que tais esforços foram politicamente motivados e parte de uma campanha de difamação contra ele e seu site de denúncias.

Assange recorreu então ao presidente do Equador, Rafael Correa, em busca de ajuda. Os dois haviam expressado no passado opiniões semelhantes sobre liberdade.

Em entrevista ao programa de TV de Assange no canal então chamado Russia Today, Correa elogiou o WikiLeaks e seu trabalho várias vezes.

A permanência de Assange na embaixada equatoriana foi marcada por declarações à imprensa e entrevistas ocasionais.

Embates com a mídia

O ativista chegou a fazer uma arguição ao Leveson Inquiry, do Reino Unido – um inquérito público conduzido por juízes e criado pelo então primeiro-ministro David Cameron para analisar a cultura, as práticas e a ética da imprensa após o chamado escândalo de “phone hacking”, de 2011, em que membros da equipe do jornal britânico News Of The World grampearam telefones de celebridades, políticos, atletas e de outras pessoas para conseguir furos jornalísticos.

Assange disse, à época, que havia enfrentado uma “ampla e imprecisa cobertura negativa da mídia”.

Preocupações sobre sua saúde também vieram à tona. Já em outubro de 2012, a embaixada do Equador disse que buscou garantias de que Assange não seria preso se fosse levado ao hospital, afirmando que estava “muito preocupada” com sua condição, indicando que ele apresentava uma infecção no pulmão.

Em agosto de 2014, no entanto, Assange rechaçou notícias de jornal de que estaria deixando a embaixada para procurar tratamento médico.

“Vitória significativa”

Assange mais tarde reclamou à ONU que estava sendo detido ilegalmente, pois não podia deixar a embaixada sem ser preso.

Em fevereiro de 2016, o painel da ONU decidiu em seu favor, afirmando que ele havia sido “arbitrariamente detido” e deveria ser autorizado a andar livre, bem como ser compensado por sua “privação de liberdade”.

Assange comemorou o posicionamento como “uma vitória significativa” e chamou a decisão de “vinculativa”, levando seus advogados a reivindicarem que o pedido de extradição sueco fosse arquivado imediatamente.

A decisão não era legalmente vinculativa para o Reino Unido, no entanto, e o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido respondeu dizendo que “nada muda”.

Em 2016, a promotora-chefe da Suécia Ingrid Isgren viajou até a embaixada equatoriana em Londres para questionar Assange sobre a acusação de estupro de 2010. Os promotores já haviam arquivado a investigação sobre as denúncias de agressão sexual após perderem o prazo para interroga-lo e formular acusações contra ele.

Uma vez que a Suécia arquivou a investigação sobre Assange, o mandado de detenção europeu expedido contra ele não existe mais.

Julian Assange, em 14 de junho de 2013Direito de imagemAFP
Image captionPolícia disse que era obrigada a executar mandado de prisão contra Assange caso ele deixasse a embaixada

Mas a Polícia Metropolitana de Londres disse que ele ainda enfrentava a acusação mínima de não ter se rendido a um tribunal em junho de 2012, uma infração punível com até um ano de prisão ou multa.

Em comunicado, a Corporação disse que era “obrigada a executar o mandado caso ele deixasse a embaixada” – o que significa que ele ainda corria o risco de ser preso.

Um porta-voz do Ministério de Assuntos Internos disse que não poderia confirmar ou negar qualquer pedido de extradição, a menos que alguém tivesse sido preso.

Até a publicação desta reportagem, ainda não havia sido confirmado publicamente se Assange será extraditado para os Estados Unidos.

Fonte:BBC

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