O Ministro da Deseducação. Por Maria Helena RR de Sousa

  Maria Helena RR de Sousa

Mas se não houve nada, nem golpe, nem revolução, porque diabos o pernambucano Gregório Bezerra foi velado sob a forte emoção de seus companheiros que lotavam a Assembleia Legislativa de Pernambuco e mais sussurravam do que cantavam a Internacional Socialista para depois, ao ouvir o brado “Companheiro Gregório!”, responder a uma só voz “Presente!”. 

Não consigo encontrar uma passagem do governo dos Bolsonaros que me entusiasme, que me deixe esperançosa de um futuro melhor para o Brasil. Nada. E fico muito triste com isso, pois gostaria muito de morrer levando comigo a esperança de deixar para filhos e netos um país forte, rico e, sobretudo, instruído.

Mas com esse ministro que alguém teve a infeliz ideia de colocar no MEC? Com esse cidadão que ignora completamente nossa História, que agora nos ameaça com a edição de livros didáticos que mentirão para nossas crianças? Com essa figura que já confessou estar encantado com o cargo que ocupa e que, portanto, pouco se lixa com as críticas que lhe fazem?

Se o tal ministro ao menos quisesse conhecer melhor a História do país onde vive, ele poderia ter o imenso prazer – sim, porque ler as entrevistas de Geneton Moraes Neto é um imenso prazer, não só pelo talento que ele tinha como entrevistador, mas como pela seriedade com que ele descrevia as mais célebres figuras e os fatos mais importantes de nossa época.

O arquivo sumiu. No entanto a força dessa imagem permanece até hoje. Não há recifense que ali vivesse em abril de 1964 que não guarde na memória a dor e o desespero de ver passar por suas ruas aquele homem decente e correto puxado como um animal por um coronel alucinado cujo nome prefiro nunca repetir.

Geneton infelizmente nos deixou. E muito cedo. Mas seus textos ainda estão aqui e lê-los é conhecer melhor o Brasil. São suas palavras que deveriam ser entregues aos nossos estudantes e não, por exemplo, o vídeo que nos envergonha ao negar o Golpe de 1964.

Leiam aqui uma das muitas barbaridades ditas pelo colombiano Vélez: “O golpe foi uma votação no Congresso, uma instância constitucional, quando há a ausência do presidente”. Bem, Vélez talvez não saiba, mas em 31 de março de 1964 Goulart ainda estava no país…

Mas vamos lá, vamos tentar acreditar nessa figura espalhafatosa, nesse ministro que deseduca o MEC e nem tenta se educar.

Digamos que não tenha havido golpe. Nem muito menos, por óbvio, revolução. Como disse Luis Fernando Veríssimo em sua coluna de 4 de abril, o que houve foi Nada. Tudo bem. Aceito, foi um Nada vergonhoso, feio, mas um Nada.

Mas se não houve nada, nem golpe, nem revolução, porque diabos o pernambucano Gregório Bezerra foi velado sob a forte emoção de seus companheiros que lotavam a Assembleia Legislativa de Pernambuco e mais sussurravam do que cantavam a Internacional Socialista para depois, ao ouvir o brado “Companheiro Gregório!”, responder a uma só voz “Presente!”.

Dirão os adeptos do ministro deseducador: “mas ele era um comunista!”. Era, sim, e daí? por isso merecia viver o que Geneton Moraes Neto chamou de seu Último Canto Gregoriano?

“A imagem de Gregório Bezerra ensanguentado, amarrado a uma corda e arrastado pelas ruas do Recife por um coronel raivoso ganhou a força de um emblema. O desfile foi filmado e exibido na televisão.”

O arquivo sumiu. No entanto a força dessa imagem permanece até hoje. Não há recifense que ali vivesse em abril de 1964 que não guarde na memória a dor e o desespero de ver passar por suas ruas aquele homem decente e correto puxado como um animal por um coronel alucinado cujo nome prefiro nunca repetir.

Mas a pergunta ainda vive. Se não houve golpe, se os militares agora, 55 anos depois, só queriam rememorar o golpe que não houve, se a intenção, segundo o capitão Bolsonaro, foi “rememorar” o fato e identificar pontos corretos e errados para o “bem do Brasil no futuro”, garantindo que a ascensão dos militares ao poder se deu para interromper “a escalada em direção ao totalitarismo”, só me resta lastimar. Preferia mil vezes viver sob um governo de Gregório Bezerra, do que sob as armas indecentes do coronel que o arrastou pelo bairro de Casa Forte, Recife, PE, 3 de abril de 1964.

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