Mulheres poderosas dominam remake de terror

Em sua releitura de ‘Suspíria’, Luca Guadagnino se inspira no universo feminino dos filmes de Rainer Werner Fassbinder e nos novos movimentos feministas como o americano #Metoo, que diz acompanhar atentamenteCena do remake de Cena do remake de “Suspíria”: mulheres em maioria no elenco Foto: Divulgação

O cinema gore de Dario Argento é a referência mais imediata de “Suspíria”, remake do clássico de terror homônimo dos anos 1970 que chega aos cinemas brasileiros amanhã. Mas a releitura de Luca Guadagnino para a trama centrada nas atividades de uma irmandade de bruxas de Berlim esconde uma inspiração menos óbvia, porém igualmente importante: os filmes do alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), cineasta que construiu uma filmografia sobre os dilemas e contradições da alma feminina.

— Ele foi um grande mestre da crueldade humana, e criou, junto com suas atrizes, personagens incríveis, mulheres resignadas, atormentadas, mas nunca vítimas. Impossível que seus filmes não viessem à cabeça enquanto concebia “Suspíria” — confirmou Guadagnino, durante o Festival de Veneza, onde seu novo longa-metragem competiu pelo Leão de Ouro. — As mulheres de Fassbinder nunca são esmagadas, mesmo em um ambiente onde reina a brutalidade —, diz o italiano, diretor de “Me chame pelo seu nome”, cujo roteiro, adaptado por James Ivory a partir do livro de André Aciman, venceu o Oscar.

Guadagnino preservou os elementos básicos do original de Argento, realizador que considera “um mestre do gênero”, e por quem sempre teve “enorme admiração”. Mas ao debruçar-se novamente sobre a história de bruxas modernas em tempos turbulentos, preferiu fazê-lo sob a perspectiva dos dias de hoje, à luz dos novos movimentos feministas. “Suspíria” é ambientado em 1977, ano do lançamento do original, e evoca a tensão política e social da época, como as atividades do grupo de esquerda alemão Baader-Meinhof, atentados terroristas, teorias psicanalíticas, Guerra Fria e, claro, o feminismo.

As bruxas do novo “Suspíria” não são exatamente as heroínas dos filmes de Fassbinder da época, como “O casamento de Maria Braun” (1978) e “Lili Marlene” (1981), mas tentam sobreviver, da melhor forma possível, aos solavancos socioeconômicos do período.

— Gostava da ideia de manter a Berlim da segunda metade dos anos 1970, ainda dividida pelo muro, que era símbolo do isolamento e do sentimento de culpa que os alemães herdaram da Segunda Guerra. O muro era um lugar de memória — contou o diretor, que escalou Ingrid Caven, ex-mulher e atriz-fetiche de Fassbinder, como uma das feiticeiras veteranas. — Além disso, naquele ano, o país começou a atravessar o Outono Alemão, versão local da Guerra Fria, com o endurecimento da rivalidade entre as duas Alemanhas, que aumentou a tensão na região.

A dança como personagem

É nesse cenário pouco promissor que desembarca Susie Bannion (Dakota Johnson), bailarina americana disposta a entrar para a Markos Tanz Company, uma das mais renomadas academias do mundo. O brutal assassinato de uma das alunas apressa a admissão da jovem na instituição, mas o desaparecimento de outras estudantes logo a leva a suspeitar que a escola guarda um tenebroso segredo. Tilda Swinton, outro nome do elenco majoritariamente feminino, interpreta Madame Blanc, diretora artística da academia e uma das líderes das atividades satânicas.

— Coloquei em cena mulheres poderosas e não vítimas, uma característica do cinema que faço, no qual há cumplicidade e prazer na forma de investigar o universo feminino — observou Guadagnino, que tem acompanhando com interesse os desdobramentos de movimentos como o americano #MeToo, do “ponto de vista do homem europeu”. — É um manancial de reivindicações que tem criado consciência sobre práticas de opressão. Tínhamos isso em mente quando fizemos “Suspíria”, e teremos nos futuros projetos.

Discretos no filme de Argento, os números coreográficos ganham função fundamental na versão de Guadagnino.

— A dança não é um enfeite na trama. É quase uma personagem, expressa uma linguagem de transcendência e magia —diz o diretor.

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