Análise da música “Eu te amo”, de Chico Buarque

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     A canção “Eu te amo” (1980), evidencia o cuidado formal presente na obra de Chico Buarque através dos tercetos onde predominam versos decassílabos e rimas centradas no esquema aabccb, com acentuação na quinta e na décima sílabas métricas. Embora não haja uma rigidez nesse processo formal, observa-se a preocupação de manter nas sete estrofes o efeito estético sonoro-visual, cuja elaboração prescinde da parte musical. A canção, composta em parceria com Tom Jobim (que fez a música), revela o alto nível de perfeição artística e a integração completa – embora não indissociável – entre letra e música.

A temática do relacionamento amoroso revela aqui um eu conflitado, consciente da perda da individualidade diante do amor como um processo de continuidade do ser humano . O amor é tomado em seu sentido de comunhão entre os seres, o que implica a intemporalidade (“perdemos a noção da hora”) e a angústia diante da ameaça da descontinuidade, da separação entre dois seres que se tornaram um só (“Me conta agora como hei de partir”).

Na concepção de Bataille, o ser oscila entre o descontínuo e o contínuo, no eterno conflito entre o desejo da vida terrena, onde o descontínuo se estabelece através do abismo que isola os seres em sua individualidade, e a busca do desconhecido, da fusão, da continuidade, obtida através da morte. O erotismo dos corpos implica a dissolução dos seres, na fusão em que ambos se encontram no continuo, como na morte.

Ao fazer a distinção entre as três formas de erotismo: dos corpos, do coração e erotismo sagrado, o autor define este último como “a procura duma continuidade do ser prosseguida sistematicamente para lá do mundo imediato” Entretanto, o homem não deixa de experimentar diante da nostalgia do contínuo o sentimento de angústia pela perda da individualidade:

“Somos seres descontínuos, indivíduos que isoladamente morrem numa aventura ininteligível mas que têm a nostalgia da continuidade perdida.. Suportamos mal a situação que nos amarra à individualidade que somos. E, ao mesmo tempo que conhecemos o angustioso desejo de duração dessa precariedade, temos a obsessão duma continuidade primacial que ao ser geralmente nos una”.

O questionamento que perfaz a trajetória do poema “Eu te amo” implica o processo de loucura e perda do senso propiciado pelo amor, evidente no segundo terceto: “Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios/ Rompi com o mundo, queimei meus navios”. A continuidade entre os seres é reiterada nos versos disseminados por todo o texto em que se sobressai a fusão do eu-lírico com o objeto de seu desejo: “Já confundimos tanto as nossas pernas”; “Meu sangue errou de veia e se perdeu”; “Meu paletó enlaça o teu vestido”; “E o meu sapato inda pisa no teu”.

O temor que reside na iminência do descontínuo se revela pelos versos que, como num refrão, reafirmam o atônito questionamento ao final das estrofres:

“Me conta agora como hei de partir”
“Me diz pra onde é que inda posso ir”
“Diz com que pernas eu devo seguir”
“Me explica com que cara eu vou sair”
“Agora conta como hei de partir”

As circunstâncias expressas pelas palavras “agora”. “onde”, “como” revelam a temporalidade presente no processo de descontinuidade gerado pela separação dos seres. Da sensação de perda da continuidade resulta a angústia, inexistente na dimensão intemporal do amor.
O teor erótico que perpassa os versos é intensificado na penúltima estrofe, onde a ausência da individualidade entre os seres reafirma-se pelo aspecto intemporal e não-circunstancial do amor, evidenciando a nostalgia da continuidade “primacial” de que fala Bataille: “Como, se nos amamos feito dois pagãos/ Teus seios inda estão nas minhas mãos”.

Na última estrofe, o jogo de palavras que implica a assonância e a polissemia das palavras (“tonta”, “conta/conta”) sugere a perda do senso atribuído pelo eu-lírico à mulher amada: “Não, acho que estás te fazendo de tonta”; corrobora a dimensão contínua do amor: “Te dei meus olhos pra tomares conta” e, num último apelo, reitera o temor da descontinuidade: “Agora conta como hei de partir”.

“Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.”

Fonte: análise literária de Maria Helena Sansão Fontes, em “Sem fantasia – Masculino e Feminino em Chico Buarque”

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