Vítima do aquecimento global, Moçambique deveria ser ressarcido pelos poluidores. Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

O planeta entrou num ciclo novo, no qual iremos assistir à multiplicação de grandes desastres ambientais

A destruição da cidade da Beira, em Moçambique, é apenas o lado mais visível de um desastre de dimensões épicas, que arrasou vastas regiões da África Austral. Nesta altura ainda é difícil perceber toda a extensão da tragédia.

Infelizmente, não se trata de um fenômeno isolado. O planeta entrou num ciclo novo, no qual, como consequência direta do aquecimento global, iremos assistir à multiplicação de grandes desastres ambientais. O que hoje ainda nos parece uma exceção, rapidamente se transformará em terrível rotina.

Países como Moçambique, que não têm nem nunca tiveram indústria nem agricultura extensiva, ou seja, que não contribuíram em nada para o aquecimento global, são vítimas inocentes de todo este processo, e deveriam ser ressarcidos pelas grandes potências poluidoras, com destaque para China e EUA.

Se um carro atropela uma pessoa na calçada, o motorista tem obrigação de levar o atropelado para o hospital e de custear o seu tratamento. Não se espera que a vítima agradeça. Esta tem direito a uma justa reparação.

Esgotou-se também o tempo em que era possível tolerar aqueles que insistem, contra todas as evidências, em negar a ligação entre o aquecimento global e a ação humana. Os negacionistas são moralmente responsáveis pelos desastres em curso. Quanto aos dirigentes políticos diretamente responsáveis por práticas contra o ambiente, esses são criminosos. Serão julgados um dia por crimes contra a natureza e contra a Humanidade.

Acompanhei comovido a greve estudantil global que, no passado dia 15 de março, levou milhões de jovens às ruas, nas mais diversas cidades do mundo, protestando contra as más políticas ambientais responsáveis pela atual instabilidade climática.

Há 40 anos, jovem estudante de agronomia em Lisboa, também eu escrevia e erguia faixas chamando a atenção para o aquecimento do planeta. Na época, éramos meia dúzia de inofensivos nefelibatas. Saíamos para as praças, com nossos cartazes, diante da indiferença geral. Ninguém queria saber.

Não teremos outros 40 anos para tomar decisões. Ainda que todos os países do mundo passassem a ser tão respeitadores do ambiente quanto a Dinamarca, já não seria possível anular os efeitos de décadas e décadas de ganância e de irresponsabilidade. É possível, contudo, impedir desastres maiores.

Precisamos, com urgência, repensar os atuais modelos de desenvolvimento, em particular no que diz respeito à utilização do solo. Não foi por acaso que há pouco citei a Dinamarca. O país escandinavo, que já é um dos maiores produtores e consumidores de produtos biológicos, pretende até o final do próximo ano duplicar a quantidade de terra cultivada sem recurso a pesticidas e outros venenos.

Sem surpresa, o Relatório Mundial da Felicidade de 2018, recentemente divulgado, volta a colocar os países escandinavos entre os mais felizes do mundo. O Brasil faria melhor em tomar esses países como exemplo, ao invés dos Estados Unidos, uma potência ao mesmo tempo predadora e suicida, cujo presidente se obstina em negar o aquecimento global. O mesmo vale, evidentemente, para Moçambique. Num mundo tão carente de referências talvez nos baste, afinal, olhar para o Norte.

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