A surpreendente relação entre o estresse, a memória e o tamanho do cérebro

Um estudo relaciona a tensão crônica com um órgão menor, especialmente em mulheres

estres
ANDRÉS MASA

Se sentir estresse normalmente é uma situação que você desconhece, o que diferencia você de pessoas menos afortunadas talvez seja o tamanho de seu cérebro. É o que sugere um estudo científico que avaliou o órgão de 2.200 voluntários jovens e de meia idade — a média foi de 48 anos. Segundo o trabalho, as pessoas com estresse crônico tendem a ter um órgão menor. E não só isso. A pesquisa não explica se a relação é causa ou efeito da tensão constante, se é que é alguma das duas coisas, mas destaca que é especialmente notável entre as mulheres.

O corpo humano reage ao estresse produzindo diferentes hormônios, mas a marca que os cientistas costumam buscar no sangue para detectar é a deixada pelo cortisol. O cortisol é absolutamente necessário para a vida, porque a tensão que produz predispõe o organismo a reagir rapidamente diante de uma situação de alerta. Mas a melhora na capacidade de reação se limita a momentos pontuais.

Se o nível se mantém elevado por muito tempo, se o estresse se torna crônico, a resposta hormonal deixa de ser benéfica e se torna um problema. O estudo, publicado na revista Neurology, relaciona os níveis mais altos de cortisol com o volume cerebral menor e também com o dano em algumas funções cognitivas.

Ressonância magnética e testes psicológicos

Para chegar a essas conclusões, os acadêmicos analisaram os cérebros dos participantes do estudo Framingham, que fazem parte da terceira geração de uma população de Boston na qual os cientistas estudam a relação entre a saúde e o estilo de vida. Fazem isso desde os anos 1940.

Os pesquisadores analisaram imagens obtidas com equipamentos de ressonância magnética e fizeram testes cognitivos dos sujeitos para avaliar sua memória, sua capacidade de raciocínio abstrato, sua percepção visual, sua atenção e função executiva, um conceito que reúne diferentes habilidades que se complementam para alcançar metas futuras. Apesar das diferenças no volume cerebral, os cientistas detectaram danos na microestrutura da massa branca em várias regiões do órgão mestre do organismo, especialmente no corpo caloso que conecta os dois hemisférios cerebrais.

“A massa branca – um tecido composto de fibras nervosas que comunicam as diferentes partes do cérebro – está altamente correlacionada à velocidade de processamento, que por sua vez está associada fortemente a uma maior habilidade cognitiva em geral”, explicam os autores no artigo. “A interrupção da transferência de informação devido ao dano na massa branca poderia explicar parcialmente as deficiências das habilidades cognitivas associadas a maiores concentrações de cortisol”, acrescentam.

Entre as faculdades que os pesquisadores viram prejudicadas destaca a memória, esse recurso tão apreciado. Não é uma novidade; os episódios de estresse já tinham sido relacionados a uma menor capacidade de evocar as lembranças anteriormente, mas não a partir das mudanças no volume cerebral como os pesquisadores propõem… e essas são muito mais difíceis de comprovar. Até agora é só uma hipótese e por mais que outros estudos pareçam apontar na mesma direção, esses trabalhos ainda são muito poucos. Na verdade, se houvesse a relação que os cientistas descrevem entre o cortisol, o estresse e a estrutura cerebral, as implicações seriam muito importantes: pode ser que as mudanças estruturais do órgão sirvam para predizer o desenvolvimento de algum tipo de demência na velhice.

Não é só a memória, a atenção também se ressente

A principal pesquisadora do laboratório de Neurociência Social Cognitiva da Universidade de Valência, Alicia Salvador, é uma das pessoas que estudam na Espanha o possível papel que o cortisol pode ter no declínio cognitivo na velhice. “Está claro que os níveis elevados de cortisol durante um tempo prolongado afetam o sistema nervoso, e isso pode ter consequências na capacidade de adaptação posterior, mas que seja ao ponto de provocar demência ainda não foi demonstrado cientificamente”, explica Salvador.

O que está claro para sua equipe, graças aos resultados que obteve nas pesquisas que vem realizando desde 2004, é que o estresse realmente influi na memória. E que não afeta da mesma forma os homens e as mulheres, nem os jovens e as pessoas mais velhas. Contudo, Salvador insiste que o cortisol não é o inimigo.

“Há muitas provas de que tem influência na cognição, e entre as funções mais estudadas está a memória, mas também aspectos como a atenção e a tomada de decisões, que começaram a ser estudadas um pouco depois”, explica a pesquisadora. O que acontece é que os níveis que cada um consegue aguentar antes de notar os efeitos negativos são diferentes. E o que é mais importante: a força da tensão não é o único parâmetro importante na hora de avaliar o efeito do cortisol sobre a saúde. Aprender a administrar o estresse corretamente pode fazer a diferença.

Para viver tranquilo, ‘mindfulness’ e aceitação

Estudos anteriores relacionaram o estresse com a deterioração do hipocampo, “que é a região do cérebro que determina a memória de longo prazo”, explica o catedrático emérito do departamento de Psicologia Biológica e de Saúde da Universidade Autônoma de Madri, Bernardo Moreno. O acadêmico não demonstra surpresa diante de um efeito já reconhecido pela comunidade científica.

O professor enfatiza que o estresse é inevitável, inclusive desejável para ativarmos certas situações que exigem atuar rapidamente. Mas também destaca que, do ponto de vista evolutivo, nosso organismo está adaptado ao estilo de vida paleolítico, no qual esses momentos eram pontuais. O estresse agora está fora de lugar e isso provoca perversas consequências.

Segundo Moreno, o contexto urbano, industrial, competitivo e de imprevisibilidade atual está tornando a tensão crônica, e isso favorece a deterioração cognitiva. Também fomenta o surgimento de doenças cardiovasculares e promove respostas contraproducentes do sistema imune que podem desencadear neoplasias, ou seja, tumores benignos e malignos.

A boa notícia é que, por mais que seja inevitável, podemos regulá-lo. “Sempre houve a desconexão, a viagem, os amigos, os momentos agradáveis” que nos ajudam a reduzir a tensão, diz Moreno. E agora também há uma plêiade de técnicas às quais podemos recorrer, e entre elas o catedrático emérito destaca as relacionadas ao mindfulness, sobre o qual se diz que pode ser feito inclusive enquanto se escova os dentes, e os recursos de aceitação e compromisso.

Os últimos implicam tornar-se consciente do problema e da necessidade de superá-lo. “Eu não sou meus pensamentos, eu não sou minhas emoções. Posso estar estressado, mas também posso continuar”, recita Moreno, emulando o processo mental pelo qual funciona essa forma de administrar o estresse. Mas adverte: “As técnicas são elementos que podem ajudar, mas só se a pessoa estiver habituada”. Ou seja, é imprescindível fazer o esforço prévio de torná-las um hábito.

E acrescenta um detalhe fundamental: “Não podem resolver constantemente os problemas. Se é preciso recorrer a elas constantemente é que o estresse de fundo não está resolvido”, aprofunda Moreno. E, sendo assim, parece mais do que desejável resolvê-lo antes que as faculdades minguem além da conta.

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