Salve Tumajan. Por José Paulo Cavalcanti Filho

Certo é que, sem dinheiro para propaganda, inventou de usar para isso a (antiga) ponte do Pina – que tinha um quilômetro, com postes plantados sobre 20 colunas, a cada 50 metros. Comprou tinta branca e pincel, disposto a pintar seu nome naquelas benditas 20 colunas…

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  Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta,membro da Academia Pernambucana de Letras e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade.

Corria o ano de 1958. Jacob Tumajan era mais um desses brasileiros inocentes com espírito público de mais e recursos financeiros de menos. Homem de bem, competente jogador de xadrez, decidiu começar sua carreira política por baixo. Como candidato a vereador. Esse fato me foi contado por um amigo dele – que jura ser verdade. Sei não. Pescador, político e contador de causos têm um fascínio todo especial por exageros. Mestre Ariano até dizia que quem quisesse ouvir uma história boa não podia ser muito exigente com relação aos fatos. Certo é que, sem dinheiro para propaganda, inventou de usar para isso a (antiga) ponte do Pina – que tinha um quilômetro, com postes plantados sobre 20 colunas, a cada 50 metros. Comprou tinta branca e pincel, disposto a pintar seu nome naquelas benditas 20 colunas. Para apresentar, ao povo do Recife, as muitas qualificações que julgava ter. E tinha.

Chegou lá noite alta. E já foi escrevendo, na primeira, “Tumajan é trabalhador”. Na segunda, “Tumajan é honesto”. Na terceira, “Tumajan é honrado”. E tome colunas, e tome adjetivos. Só que havia mais colunas que adjetivos disponíveis, na sua memória. E a escrita começou a ficar exótica. Por falta de alternativas melhores, acabou escrevendo “Tumajan é probo”, “Tumajan é escorreito”, “Tumajan é ínclito”, por aí. Palavreado muito estranho, meu irmão. Muito estranho. Assim se deu até as 4 da madrugada, quando acabaram tinta e paciência do candidato. Foi dormir, cansado e feliz. Faltavam só duas colunas. Manhãzinha, completaria o serviço.

Não contava é que um opositor desalmado acabasse fazendo esse trabalho, por ele. E dito ser malévolo escreveu, na penúltima, “Enfim…”. Com três pontinhos e tudo. Fechando a série com a conclusão lógica de tantos atributos: “Tumajan é foda”. A maldade anda solta nesse mundão perverso. Hoje, até poderia ter dado certo. Iria correr mundo no whatsapp. Tiririca se elegeu, por que não ele? Mas os tempos eram outros, meu irmão. Mais austeros. Sem espaço para essas novidades. E nosso candidato, coitado, acabou foi perdendo a eleição. Pobre do dr. Tumajan.

Resultado de imagem para pintura do mar em abstrato.P.S.     Bons Anos a todos. Agora, perdão, mas o mar me espera. O mar dos poetas. “Nunca d’outrem navegados”, segundo Camões (Os Lusíadas). Ou “O que possa haver além da terra”, em Pessoa (D. João Segundo). Já dizendo que volto a escrever só depois do Carnaval. Se o bom Deus permitir, é claro.

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