Brasil está sendo desnacionalizado e os militares fingem que não sabem de nada

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Charge do Newton Silva (newtonsilva.com)

Milton Vieira de Souza Lima

Há muitos brasileiros que consideram idiotice defender nacionalismo. Claro que não devemos ser bitolados/xenófobos. Penso que devemos ser nacionalistas, sim, no sentido de defender o que é nosso para o bem de nosso povo em primeiríssimo plano, prestigiar a empresa nacional (que gera dinheiro aqui e que é investido aqui) e não permitir que sejamos explorados. Sou a favor de privatizações de empresas de áreas não estratégicas. Entretanto não vejo com bons olhos a desnacionalização da Economia de forma desmedida. Não quero me estender com meus pontos de vista.

Para reflexão sobre nacionalismo e liberalismo quero colocar aqui parte do pronunciamento do Desembargador Pedro Vals Feu Rosa, feito por ocasião da abertura do XXV Curso de Política e Estratégia da ADESG – ES (01/07/2010). É impressionante.

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A DESNACIONALIZAÇÃO DO BRASIL
Pedro Vals Feu Rosa

Rússia, Índia e China trataram de fortalecer seus respectivos parques industriais e tecnológicos nacionais, enquanto que nós fizemos o oposto, vendendo para estrangeiros algumas de nossas melhores empresas. Nominalmente, não produzimos sequer uma calculadora de bolso, pois falta-nos até mesmo uma fábrica de chips. Somos meros montadores de aparelhos eletrônicos.

E é assim que o documento norte-americano sugere que a participação do Brasil no BRIC será a de sediar conversas e negociações lá no Rio de Janeiro, onde a atmosfera é mais amena e o carnaval está chegando.

Concluiu-se, ainda, que o Brasil, após 2020, deverá ser um dos grandes exportadores de petróleo e de produtos agrícolas do planeta, o que robusteceria profundamente sua economia; também confere: basicamente é a continuação da economia extrativista que há 500 anos retira do Brasil riquezas naturais a preço de banana em troca de bens industrializados importados a peso de ouro.

ABERTURA DOS PORTOS – Sobre este aspecto, as gerações contemporâneas, na ansiedade de agradar o capitalismo estrangeiro, engendraram uma segunda “abertura dos portos” – esta última, entretanto, de resultados calamitosos para um país que pretende se desenvolver.

Em verdade, o processo de desnacionalização da economia que se promoveu no nosso país, até onde pesquisei, não encontra paralelo no planeta! Citarei um pequeno exemplo: há coisa de um ou dois anos planejou-se vender uma das maiores empresas privadas da França a um grupo norte-americano – um negócio absolutamente lícito.

Mas eis que os Poderes constituídos daquele país, de forma aberta e frontal, anunciaram ser aquela empresa uma jóia do país, que não poderia ser vendida, e que tudo fariam para impedir o avanço das negociações. O resultado: a empresa continua francesa, e agora revitalizada. Em nosso país o processo histórico contemporâneo foi diferente: Venda-se! Entregue-se!

COMPRANDO TUDO… – Nos últimos anos, incríveis 60% das empresas brasileiras negociadas foram parar nas mãos de estrangeiros. Foi assim que chegamos no insólito país cujos habitantes compram o leite de suas próprias vacas, a água mineral de suas próprias nascentes e a maioria dos produtos de sua própria terra de empresas estrangeiras aqui instaladas.

Da indústria alimentícia à mineração, da comunicação à siderurgia, dos transportes à energia, o que o Brasil possuía de melhor foi vendido a grupos estrangeiros. Um país não pode se desenvolver verdadeiramente sob tais condições.

Em verdade, vejo sustentando nossa aparente pujança o remeter para fora, a preços aviltantes, riquezas as mais preciosas que temos a maioria delas de natureza não-renovável.

DILAPIDAÇÃO – A conta desta cegueira já começará a ser paga pela próxima geração – no ritmo atual de extrativismo, que a cada dia só aumenta, daqui a 82 anos não teremos mais minério de ferro para exportar.

Nosso níquel só durará mais 116 anos, o chumbo 96, o nióbio apenas mais 35 anos, o estanho 80, os diamantes 123 e o ouro míseros 43. Sim, o Brasil da Serra Pelada será importador de ouro daqui a mínimos 43 anos!

Dizem alguns que o Brasil cresceu nas últimas décadas. Fico a me perguntar, e vai aí uma grande pergunta, quem tem crescido verdadeiramente – se o Brasil, exportador cada vez maior de riquezas em sua maioria não-renováveis, ou se empresas aqui instaladas, com alguns poucos e evidentes reflexos positivos no nosso dia-a-dia e nas contas nacionais. Confesso não ter encontrado, ainda, resposta a esta pergunta.

PARQUE AGRÍCOLA – Permito-me, concluindo este raciocínio, apontar o exemplo do parque agrícola do sul do Brasil. Éramos grandes e poderosos plantadores e exportadores de soja, trigo etc. E eis que, dentro da nossa macro-política histórica de internacionalização da economia, abrimos nossas fronteiras aos concorrentes argentinos.

Ganharam eles, que praticamente levaram à miséria os agricultores dos estados do sul. A quem disser que “em compensação passamos a exportar mais para lá”, e que graças a isto crescemos, responderia que, após consultar a pauta de nossas exportações, constatei que a maior parte dela é de produtos fabricados por empresas estrangeiras aqui instaladas.

Em uma frase: sacrificamos nossa agricultura a troco de enriquecermos empresas estrangeiras. Ouso perguntar: isto é crescimento real, sólido e consistente?

DESINDUSTRIALIZAÇÃO – O fato é que nossa geração abriu mão de desenvolver um parque industrial próprio, desnacionalizou nossas mais importantes empresas, e está a consumir inebriadamente as maiores riquezas não-renováveis que a natureza nos ofereceu.

Temos assistido complacentemente o capital estrangeiro se apropriar de serviços e riquezas do Brasil de forma antes só concebível em alguns indefesos países africanos. Que a história nos seja misericordiosa, pois que nossa responsabilidade é imensa – afinal, somos nós, a elite do país, os detentores de recursos muito poderosos, hábeis a eliminar ou atenuar estas ameaças.

Parece incrível, mas vergonhosamente empresas estrangeiras já são responsáveis por 70% de nossas exportações de soja, 15% das de laranja, 13% de frango, 6,5% de açúcar e álcool e 30% das de café! Isto já sangra o Brasil em mais de US$ 12 bilhões a cada ano só a título de remessa de lucros.

MEDRIOCRIDADE – Diante desta vergonha fico a pensar nos grandes vultos que, com sacrifício, nos entregaram o Brasil grande que recebemos se contorcendo em suas tumbas, rubros de indignação e revolta com nossa fraqueza e mediocridade. E fico a temer pela cobrança das gerações seguintes, que estão por receber de nossas mãos um país loteado, retalhado, quase que vendido.

Não se diga, cinicamente, em nossa defesa, que a culpa foi do povo. Jamais. Este está lá, padecendo nas íngremes encostas dos nossos morros, trabalhando de sol a sol, semeando e colhendo quase sempre sem apoio algum. Este povo humilde, se algo der errado, terá sido vítima, jamais culpado.

NOSSA CULPA – A culpa tem sido, é e será nossa. Nós, autoridades, empresários e formadores de opinião somos os responsáveis. Aliás, não somos. Fomos.

Digo isto porque já não vejo condições de o Brasil sair de uma era que talvez no futuro seja batizada por algum historiador de “Período de Internacionalização”, “Era da Alienação”, ou seja lá o que for, para nosso desdouro.

É fato: sem que tenhamos percebido, acabamos de passar por uma das “encruzilhadas da História”.

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