Acordo de Paris é tão fraco e impraticável que talvez nem valha a pena criticá-lo

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com)

Leandro Narloch
Folha

Ambientalistas temem que Bolsonaro retire o Brasil do Acordo de Paris e desista da candidatura para sediar a COP-25, a conferência anual da ONU para negociações sobre o clima. De fato, não sei se seria uma boa estratégia do governo. O Acordo de Paris é tão fraco e impraticável que talvez nem valha a pena desafiá-lo.

Meu resumo do Acordo de Paris. Em 2015, depois de anos de muito discurso e enrolação, líderes mundiais acordaram que cada país signatário produziria relatórios (ou seja, mais discurso e enrolação) com metas de redução de emissão de carbono na atmosfera. Por pressão de diversos líderes (entre eles Obama, que temia a derrota da proposta no Senado americano), o acordo não saiu “legally binding”, ou seja, não ganhou força de lei.

SEM PUNIÇÕES – Se algum país não cumprir as metas que estipulou, provavelmente tudo se resolverá com diplomacia, explicações, talvez pedidos de desculpas e novas promessas. Mais discurso e enrolação.

É o que deve acontecer com o Brasil e a maioria dos países. Na semana passada, o Programa da ONU para o Meio Ambiente publicou um relatório sobre as emissões de gases do efeito estufa dos países do G20. Mostra que diversos países na prática ignoraram suas metas. É o caso de Coreia do Sul, Austrália, Argentina, Canadá, União Europeia e Estados Unidos. Outros países, como Turquia e Rússia, até parecem cumprir o prometido, mas porque estipularam metas baixas demais.

O Brasil é um dos poucos países que tem andado na linha, mas isso não é exatamente uma boa notícia. O país emitiu menos carbono nos últimos anos porque viveu a maior crise econômica de sua história. Empobrecemos – e pobres, por definição, produzem e consomem menos.

RETOMADA – Agora imagine se a economia der um salto nos próximos anos. Será uma excelente notícia para os brasileiros pobres e para quem se preocupa com eles. Mas isso resultará em mais fretes de caminhão, mais lixo, blocos de concreto, SUVs a diesel, engarrafamentos, churrasqueiras e lareiras, mais alimentação e agricultura. Se isso acontecer, soará como piada a promessa de reduzir as emissões de carbono em 37% até 2030. Mais ricos, poluiremos mais.

Quando integrantes do setor agrícola pedem para Bolsonaro pegar leve com os ambientalistas e manter o Brasil no Acordo de Paris, estão querendo dizer o seguinte: “presidente, não arranje problema para si próprio; vale mais a pena manter a conversinha do Acordo de Paris e deixar os ambientalistas adormecidos”. Abandonar o tratado pode resultar em represálias comerciais e dificuldades para estrangeiros investirem por aqui –e ainda há a possibilidade de perdermos dinheiro destinado a países pobres investirem em energias renováveis.

É melhor evitar provocações e deixar o assunto para 2030.

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