Ernesto balança e pode cair. Por Ricardo Noblat

Por Ricardo Noblat (foto)

Mais uma trapalhada da família Bolsonaro

Tamanha foi a reação negativa ao anúncio do nome do embaixador Ernesto Araújo para o cargo de ministro das Relações Exteriores do futuro governo que já se admite no círculo mais próximo de auxiliares do presidente eleito Jair Bolsonaro que ele poderá ser designado para outra função. Ernesto foi uma escolha mais dos irmãos Bolsonaro do que propriamente do pai.

A função mais cotada seria a de embaixador em um país importante – por que não os Estados Unidos do presidente Donald Trump reverenciado por Ernesto e por seu padrinho, o filósofo Olavo de Carvalho? Um militar da reserva, ex-quatro estrelas, que sempre tem uma resposta na ponta da língua para qualquer pergunta, preferiu desconversar quando provocado por um jornalista:

– Quem o senhor nomearia para comandar uma tropa de relevo? Um coronel ou um general?

A pergunta tinha a ver com a promoção de Ernesto a chanceler, logo ele que jamais chefiou qualquer representação do país. O general limitou-se a retrucar:

– Isso não me cabe. Não é da minha área.

Se houver recuo, não será de imediato. É bem verdade que Bolsonaro já recuou de outras decisões, e que faz política lançando balões de ensaio. Mas foi ele que fez questão de anunciar o nome de Ernesto para ministro. O que diria para dar o dito pelo não dito? O primeiro time de experientes diplomatas do Itamaraty poderia lhe sugerir uma saída.

O Livro Azul dos Pensamentos de Ernesto

O chanceler que nos arriscamos a ter

Há falta do que fazer, ou movido pelo desafio intelectual inerente à empreitada, há quem dentro do Itamaraty tenha passado a se ocupar nas últimas 24 horas em pesquisar tudo o que já foi escrito por Ernesto Araújo, o chanceler do governo Bolsonaro, com a pretensão de dispor no futuro de um livro com o melhor do pensamento dele.

Algumas das pérolas já encontradas:

+ “Quando eu era criança, pela metade dos anos 70, ficava horas folheando um livro chamado “Atlas das Potencialidades Brasileiras” O subtítulo dizia: “Brasil Grande e Forte”. Hoje, querem colocar nas mãos das crianças livros sobre sexo, mas se vissem uma criança lendo um livro chamado “Brasil Grande e Forte” prenderiam os pais e mandariam a criança para um campo de reeducação onde lhe ensinariam que o Brasil não é nem grande nem forte, mas apenas um país que busca a justiça social e os direitos das minorias.”

+ “Haddad é o poste de Lula. Lula é o poste de Maduro, atual gestor do projeto bolivariano. Maduro é o poste de Chávez. Chávez era o poste do Socialismo do Século XXI de Laclau. Laclau e todo o marxismo disfarçado de pós-marxismo é o poste do maoísmo. O maoísmo é o poste do inferno. Bela linha de transmissão. ”

+ “O movimento popular por Bolsonaro não se nutre de ódio, mas de amor e de esperança.”

+ “A Revolução Francesa subitamente contesta a nação. Como em tantas revoluções, o povo que queria pão, respeito e liberdade, mas que amava a monarquia como símbolo nacional, foi rapidamente traído pela elite intelectual que o manobrara para chegar ao poder e que imediatamente começou a dar lhe opressão, miséria e discurso ideológico, juntamente com a cabeça de Luís XVI, que ninguém pedira. Os revolucionários mais extremos queriam um mundo sem classes, sem fronteiras, sem Deus, sem família, sem tradições, sem nação.”.

+ “[Os europeus] já não se percebem como atores do mesmo drama que colocou em cena os cretenses e seu minotauro, os aqueus às portas de Troia, Eneias caindo de joelhos ao entender que o Lácio era sua terra prometida, Salamina e as Termópilas, Alexandre em busca da imortalidade, Aníbal com seus elefantes às portas de Roma, as legiões chegando à Lusitânia e maravilhando?se ao contemplar pela primeira vez as ondas majestosas do Atlântico”.

+ “Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante.”

+ “Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e talvez principalmente a nação americana. Heidegger jamais acreditou na América como portadora do facho do Ocidente, considerava os EUA um país tão materialista quanto a União Soviética e incapaz da autopercepção metafísica indispensável à geração de um “novo começo”, como ele dizia, essa refundação do Ocidente que repetiria em outros termos o primeiro começo gerado pelos antigos gregos. Talvez Heidegger mudasse de opinião após ouvir o discurso de Trump em Varsóvia, e observasse: Nur noch Trump kann das Abendland retten, somente Trump pode ainda salvar o Ocidente.”

+ “E, na crise espiritual dos anos 20, tomou forma um movimento que pioraria ainda mais a situação para o lado nacionalismo: o socialismo se dividiu em duas correntes, uma que permaneceu antinacionalista; e outra que, para chegar ao poder, na Itália e na Alemanha, sequestrou o nacionalismo, deturpou e escravizou o sentimento nacional genuíno para seus fins malévolos, gerando o fascismo e o nazismo (nazismo = nacional socialismo, ou seja, o socialismo nacionalista). A partir da experiência nazifascista e dessa contaminação do sentimento nacional autêntico pelo movimento revolucionário socialista, o nacionalismo tornou se praticamente inviável no Ocidente, ou pelo menos na Europa, inclusive porque, após a II Guerra, a gigantesca máquina de propaganda marxista conseguiu apagar qualquer traço do caráter essencialmente socialista do fascismo e do nazismo, colocando sobre o nacionalismo toda a culpa pela catástrofe.”

+ “A aplicação dessa ideologia à diplomacia produz a obsessão em seguir os “regimes internacionais”. Produz uma política externa onde não há amor à pátria mas apenas apego à “ordem internacional baseada em regras”. A esquerda globalista quer um bando de nações apáticas e domesticadas, e dentro de cada nação um bando de gente repetindo mecanicamente o jargão dos direitos e da justiça, formando assim um mundo onde nem as pessoas nem os povos sejam capazes de pensar ou agir por conta própria. O remédio é voltar a querer grandeza. Encha o peito e diga: Brasil Grande e Forte.”

+ “Aliás, ainda sou do tempo em que ouvia professores marxistas na universidade conclamando cada jovem de todo o mundo a “lutar pela libertação da sua comunidade histórica”, o que soava falso, mas que pelo menos ainda continha um eco de Ésquilo, uma maneira leninista de dizer eleutheroúte patrída. Já hoje o marxismo conclama a destruir o conceito de comunidade histórica, a nação, e não fala mais de liberdade, hoje quer um mundo de fronteiras abertas onde todos são imigrantes e ninguém pode identificar se com a sua terra nem com a sua gente sem ser chamado de fascista. Nos dois casos, a negação do gênero e a negação da nacionalidade, o marxismo cultural busca o mesmo objetivo: enfraquecer o ser humano, torná-lo uma paçoca maleável incapaz de resistir ao poder do estado, criar pessoas inseguras, desconectadas, incapazes de assumir um papel social próprio ou de ter ideia”.

Revista Veja

Deixe uma resposta