Poesia numa hora dessas?

Poesia de verdade, aquela que faz a gente perder o fôlego, parar tudo e nunca mais conseguir pensar como antes, essa é muito rara

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RI Rio de Janeiro (RJ) 22/06/2016 - Retrato da colunista Cora Ronai. Foto: Leo Martins / Agencia O Globo Foto: Leo Martins / Agência O Globo   Por Cora Rónai 

Lobby impessoal num hotel em Chelsea, em Nova York: ele se imagina moderninho e descolado, coitado, mas é apenas um hotelzinho pequeno tentando subir na vida através de cadeiras desencontradas e frases inspiradoras, como “Always be a poet”, seja sempre um poeta.

Hotel, vem cá, deixa a tia te explicar uma coisa: tudo na vida tem hora, inclusive ser poeta. Muitos bons versos já foram escritos em quartos e em saguões de hotel, mas raro é o hóspede com o dom da poesia, sobretudo quando chega de uma longa viagem e descobre que o quarto ainda não ficou pronto.

Ou talvez até não, porque poesia ninguém sabe como ou de onde vem; mas poesia não é para quem quer, hotel, é só para quem pode. Não adianta insistir “seja sempre um poeta”, porque o poeta ou é ou não é. Poesia é dom, não é insistência. O que não quer dizer que não exista poesia insistida — isso é o que mais existe, mas faz tanto efeito quanto uma frase banal recortada em vinil. No máximo é bonitinho e enfeita uma tarde, mas desaparece logo sem deixar rastros.

Poesia de verdade, aquela que faz a gente perder o fôlego, parar tudo, ler, reler, pensar e nunca mais conseguir pensar como antes, essa é muito rara.

Não fique triste, hotelzinho desconjuntado. Parentes seus, grandes e pequenos, serviram de abrigo e de inspiração para toda a sorte de poetas. Lindos versos sobre hotéis foram escritos por poetas que nem ao menos estavam em viagem. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, escreveu um dos seus poemas mais bonitos (e mais longos) para um hotel em demolição. Começa assim:

“Vai, Hotel Avenida,

Vai convocar teus hóspedes

No plano de outra vida.

Eras vasto vermelho,

Em cada quarto havias

Um ardiloso espelho.”

(O Hotel Avenida ficava na Avenida Rio Branco, onde fica hoje o edifício Avenida Central, e não era um refúgio de turistas vivendo num mundo paralelo; era ponto fervilhante da cidade, habitat de cariocas, atravessado pela Galeria Cruzeiro, com um ponto final de bonde e vários bares e restaurantes. Gostaria de citar mais trechos, mas estou longe dos meus livros e o Google, que tem quase tudo, só não tem os meus poemas favoritos justamente quando mais preciso deles.)

Do outro lado do Atlântico, uns tantos anos antes, hotéis inspiraram um outro poeta que existia e que não existia, e que atendia por Álvaro de Campos:

“Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão,

Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela,

Dos propósitos que nos acariciam

Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas

Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,

E que doem por sabermos que nunca os realizaremos…”

Lamento, hotelzinho, você não é europeu nem tem este grande terraço, todas as vozes aqui estão perto demais, mas não desanime. Já soube que você tem um rooftop cheio de possibilidades no cocuruto. Se o meu quarto ficar pronto, se eu conseguir descansar, se eu conseguir fazer tudo o que preciso fazer, prometo ir lá conferir, ainda que esteja longe de ser poeta.

E prometo parar de conversar com hotel, porque tudo tem limite.

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