O cordel/ literatura do mundo real/ agora é/ patrimônio cultural

REPRODUÇÃO
cordel

Com raízes portugueses, o cordel no Brasil remonta ao século 19. Nome se explica pelo fato de livros ficarem pendurados

São Paulo – Cordel tem raiz portuguesa. Remete a folhetos pendurados com histórias em forma de verso. Mistura de culturas (africana, indígena, árabe, europeia), o  cordel tornou-se parte da identidade brasileira, especialmente na região Nordeste, mas não quem não o reconheça, em qualquer lugar do país. Agora, foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, conforme decisão anunciada na quarta-feira (19) pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Poetas, declamadores, editores, ilustradores, desenhistas, artistas plásticos, xilogravadores e folheteiros, como são conhecidos os vendedores de livros, já podem comemorar”, diz o Iphan. No Brasil, o gênero remonta ao século 19 – as origens vêm do século 16, na Península Ibérica. Uma pesquisa aponta o marco de 1893, quando o paraibano Leandro Gomes de Barros teria publicado os primeiros versos no país. O jornalista e pesquisador Assis Ângelo cita Leandro Barros e Silvino Pirauá, também paraibano, como “expoentes máximos” do gêneros.  como e Leandro Gomes de Barros, ambos paraibanos e desaparecidos no século passado.

Os folhetos em que passaram a ser inseridos pequenos textos corridos e poemas eram chamados de ‘folhetos de cordel’, escreve Assis em seu blog. “Esses folhetos sempre foram vendidos de mão em mão e a baixo custo. Primeiramente por uma entidade de cegos em Lisboa, por autorização do rei vigente à época. Falamos do século 16, por aí”, acrescenta. “A expressão literatura de cordel foi cunhada pelo fato de ser, no Brasil, vendido de mão em mão e também nas feiras livres, pendurados em cordões, barbantes.”

“O folheto-de-cordel e alguns espetáculos populares como o ‘auto-de-guerreiros’ ou o ‘cavalo-marinho’ são fontes preciosas para os artistas que sonham se unir a uma linhagem mais apegada às raízes da cultura brasileira. É que, em seu conjunto, tudo aquilo forma um espaço cultural criado por nosso próprio povo e no qual, por isso mesmo, ele se expressa sem maiores imposições e deformações que lhe viessem de fora ou de cima”, escreveu, em 1999, o escritor Ariano Suassuna, para quem a “imensa maioria do povo pobre do Brasil real” é o único contingente da população “verdadeiramente autorizado a criar uma arte popular brasileira”.

A notícia coincide com os 30 anos da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, completados no último dia 7. A entidade, com sede no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, tem uma lista de cordelistas de destaque, na qual se identificam alguns bastante conhecidos, como o Cego Aderaldo e Patativa do Assaré.

Existe um projeto de lei (PLS 136/2018) que propõe tornar o cordel obrigatório no currículo da educação básica. “Para mim, estudar o cordel significa ter contato com o mundo da poesia a partir do cotidiano, com um carga de significado que dificilmente outra forma literária tem no Brasil, especialmente no nosso Nordeste, onde o cordel é a porta de entrada para o mundo da literatura e pode ser um mote para criação de hábito da leitura para milhões de brasileiros”, diz à Rádio Senado a senadora Regina Sousa (PT-PI), autora da proposta. O PLS está na Comissão de Educação, com parecer favorável do relator, Paulo Paim (PT-RS). Se aprovado, pode ir diretamente à Câmara.

O cordel é conhecido por alguns temas recorrentes, como o cangaço. Mas hoje tem uma infinidade de assuntos, passando por esporte, comportamento, política. A jornalista e tradutora Rosa Freire D´Aguiar, viúva de Celso Furtado, por exemplo, comemorou a notícia do Iphan e lembrou que o próprio economista foi tema. Ela publicou versos escritos pelo pernambucano Manoel Monteiro, que morreu em 2014. Fazem referência à cassação de direitos políticos e civis que Furtado sofreu – como muitos outros – após o golpe de 1964, por meio do Ato Institucional nº 1 (AI-1).

O Ato n. 1
Exilou Celso Furtado
Por ver nele uma ameaça
À segurança do Estado
Achavam que economista
Por rimar com comunista
Devia ser expurgado.
Celso como cientista
Tinha doutorado e pós
Era “Senhor dos Anéis”
Guardião de muitos sóis
Pelo que enunciava
Pra estrangeiro prestava
Só não servia pra nós. 

Na lembrança daquele golpe, sem citar o nome, Rosa Freire faz menção ao presidenciável Jair Bolsonaro. “As ameaças autoritárias (para dizer o mínimo) pregadas impunemente pelo candidato que lidera a pesquisa eleitoral me trouxeram à memória o longo exílio que os militares do golpe de 64 impuseram a Celso”, escreveu em rede social.

RBA

Deixe uma resposta