Como o discurso de ódio contamina as redes sociais

Facilidade e rapidez com que o discurso de ódio e as notícias falsas são divulgados nas redes sociais influenciam negativamente uma sociedade

Como o discurso de ódio contamina as redes sociais
Atualmente, discursos extremistas estão a um clique de distância (Foto: Jason Howie/Flickr)
As redes sociais são um universo à parte. Apesar de todos os benefícios que podem trazer para o relacionamento entre as pessoas, muitos malefícios estão presentes. Entre eles, está facilidade e rapidez com que o discurso de ódio e notícias falsas são divulgados, que podem causar grande influência em uma sociedade.

Uma pesquisa feita por jornalistas do New York Times descobriram que, no Instagram, existiam 11.696 mensagens com a hashtag “#JewsDid911” (“Judeus foram responsáveis pelo 11/09”, em tradução livre), apontando os judeus como os culpados pelo atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em setembro de 2001. Outras hashtags faziam alusão ao nazismo e a Adolf Hitler.

O direcionamento da culpa do atentado às Torres Gêmeas aos judeus é infundado, mas muitas das pessoas que usam as redes sociais não sabem disso. Isso facilita que essas pessoas com menor acesso à informação sejam facilmente influenciadas por conteúdos compartilhados nas plataformas digitais – seja Instagram, Facaebook, Twitter ou qualquer outra.

No último final de semana, por exemplo, um ataque a tiros a uma sinagoga em Pittsburgh, nos Estados Unidos, que deixou 11 mortos, pode ter sido influenciado pelas redes sociais. Isso porque Robert D. Bowers, apontado como o autor do ataque, postou conteúdos divulgando seu ódio aos judeus na rede social Gab.

A plataforma Gab tem apenas dois anos de existência e é frequentemente acessada por membros da extrema-direita e neonazistas, que compartilham discursos de ódio e notícias falsas. No momento, a plataforma está fora do ar, como é possível notar em seu site oficial.

Ao tentar acessar a mídia, aparece um texto do CEO da plataforma, Andrew Torba, que aponta a start-up como a “mais censurada” da história. Com grandes críticas à mídia televisiva e a grandes redes sociais – Instagram, Facebook e Twitter -, Torba garante que a Gab não será encerrada, e está apenas trocando de provedor de hospedagem.

New York Times aponta ainda, em uma reportagem, que as eleições presidenciais brasileiras também parecem ter sido influenciadas pelas redes sociais. Ademais, lembra que diferentes países do mundo utilizam as plataformas sociais para manipular a sociedade, como em Mianmar, onde membros do exército teriam usado o Facebook para fomentar ansiedade e medo contra a etnia ronhingya.

“As empresas de mídia social criaram e permitiram que os extremistas movessem sua mensagem das margens para o mainstream. […] No passado, eles não conseguiam encontrar audiências para o seu veneno. Agora, com um clique, ou um post [Facebook], ou um tweet [Twitter], eles podem espalhar suas ideias com uma velocidade que nunca vimos antes”, explicou Jonathan A. Greenblatt, executivo-chefe da ONG Liga Anti-difamação, que combate o discurso de ódio.

As empresas de mídias sociais ainda estudam e trabalham para aprender a lidar com essa disseminação de notícias falsas e discurso de ódio. Algumas usam inteligência artificial e robôs para conseguir filtrar o conteúdo. Outras contam com o auxílio de usuários, que denunciam postagens para a equipe responsável pela análise. O problema é que, algumas vezes, a denúncia é tardia, e o ódio já foi compartilhado.

Um estudo recente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), apontou que, no Twitter, as fake news são 70% mais propensas de serem compartilhadas do que as notícias reais.

Empresas lutam contra a tendência

De acordo com o Facebook, apenas 38% do discurso de ódio na plataforma foi sinalizado por seu sistema interno. Por outro lado, 96% do conteúdo com nudez adulta e 99,5% de conteúdo terrorista foram identificados e excluídos da plataforma.

Já o YouTube afirmou que quase 10 milhões de vídeos foram denunciados por usuários, entre abril e junho deste ano, mas menos de 1 milhão realmente violavam as regras da plataforma. Já as ferramentas de detecção automática da mídia excluíram 6,8 milhões de vídeos no mesmo período.

As empresas querem investir mais no combate ao conteúdo que viola as normas das plataformas. O Facebook, por exemplo, afirmou que vai contratar 10 mil pessoas para trabalhar em questões de segurança. O YouTube afirmou que planeja contar com 10 mil pessoas trabalhando na revisão de vídeos. Enquanto isso, o Twitter, que por muito tempo priorizava a total liberdade de expressão, está repensando essa política por questões de segurança.

O Instagram, que pertence ao Facebook, parece ter sido a última das plataformas a ser atingida pelo discurso de ódio. Criado com o objetivo de compartilhar fotos bonitas e fofas com outros usuários, a plataforma está precisando lidar com imagens de nudez, violência e ódio.

Tanto que, depois dos tiros na sinagoga em Pittsburgh, foi compartilhado um vídeo afirmando que a rica família judia Rothschilds teria criado o Estado de Israel. O vídeo teve mais de 1,6 mil visualizações em apenas 24 horas, e foi compartilhado em outras plataformas.

Fonte:
The New York Times-On Instagram, 11,696 Examples of How Hate Thrives on Social Media

Um comentário em “Como o discurso de ódio contamina as redes sociais

  1. […] via Como o discurso de ódio contamina as redes sociais — Flávio Chaves […]

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