Uma inscrição de 2.000 anos resolve o último mistério da devastação de Pompeia

Descoberta de escrita feita a carvão em uma parede demonstra que a erupção do Vesúvio ocorreu em 24 de outubro, e não em 24 de agosto

Arqueólogo mostra alguns dos novos afrescos encontrados em PompeiaAmpliar foto
Arqueólogo mostra alguns dos novos afrescos encontrados em Pompeia CIRO FUSCO EFE
DANIEL VERDÚ

Os cadáveres petrificados estavam com roupas demais, usavam peças de lã e casacos compridos que cobriam seus corpos. Havia braseiros nas portas das casas e alguns dos frutos carbonizados não correspondiam à data da colheita. Elementos demais não se coadunavam com o 24 de agosto, a data em que o Vesúvio tinha oficialmente entrado em erupção e soterrado Pompeia, na Itália, para sempre. Não havia muito mais dados, e sempre se acabava encontrando uma justificativa que se encaixasse à força nos elementos daquela cena apocalíptica. A última descoberta em uma das paredes das casas que emergem das novas escavações em Pompeia mandou milhões de livros de história de volta à gráfica. O Vesúvio entrou em erupção no outono, e não no verão, como se acreditava.

Uma inscrição a carvão descoberta na parede de uma casa pôs fim às dúvidas sobre a data da erupção mais famosa da história. Era 24 de outubro, e não 24 de agosto do ano 79 depois de Cristo como se sustentava até agora. A maioria dos manuais e livros de história se agarraram a essa data com base em uma carta de Plínio, o Jovem, enviada a Tácito. No entanto, alguns especialistas já apontavam que o monge amanuense que deve ter transcrito a carta na Idade Média – provavelmente não entendia nenhuma palavra que copiava – poderia ter cometido alguns erros que anteciparam em dois meses a data fatídica.

Arqueóloga aponta a inscrição achada
Arqueóloga aponta a inscrição achada CIRO FUSCO EFE
A enorme máquina do tempo que Pompeia tem sido há anos continha um erro básico de cálculo para a viagem até aqueles dias. Mas foi corrigido com base na inscrição em uma das paredes das casas que estão surgindo nas novas escavações da chamada zona Regio V. O rabisco de carvão tinha a data do “décimo sexto dia antes das calendas de novembro”, que de acordo com nosso calendário atual corresponderia a 17 de outubro. Isto é, uma semana antes da terrível erupção. Um período que, desta vez, sim, coincidia com a época das frutas carbonizadas encontradas, como castanhas, romãs e nozes.

O diretor do parque arqueológico de Pompeia, Massimo Osanna, não tem dúvidas sobre a autenticidade da correção. “Havia algumas vozes apontando nessa direção. Mas nunca encontramos uma prova tão forte. Tínhamos dúvidas sobre alguns objetos descobertos ou os frutos que eles continham. Mas eles também poderiam ter sido coletados em outros momentos para outros usos. Este é um passo decisivo.” A inscrição fora feita em carvão porque a casa estava em construção e, presumivelmente, os trabalhadores se entretinham com a ideia de apagá-la quando a obra estivesse terminada. “Agora muitas anomalias têm explicação, como os braseiros para o fogo que encontramos em alguns lugares e que, durante algum tempo, se dizia que eram usados para outras atividades. Mas era difícil e muito estranho.” Tanto assim que nesta terça-feira, 16, até o ministro da Cultura, Alberto Bonisoli, foi ao parque arqueológico para celebrar o achado.

A emoção da descoberta também é relativizada. Mary Beard, historiadora e especialista em Roma antiga, Prêmio Princesa de Astúrias 2016 e estrela da mídia, responde ao EL PAÍS em um e-mail que está um pouco menos entusiasmada do que seus colegas. “A verdade é que há muito tempo se suspeitava que a erupção tinha sido em outubro. Esta é uma grande pista a mais, no entanto, na realidade apenas embasa o que estava começando a ser e a visão padrão da situação.” Em suma, uma visão que deverá ser corrigida agora em muitos livros, filmes e peças de teatro.

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