Entidades denunciam ataques a jornalistas nas eleições

Organizações em prol da liberdade de imprensa denunciam ataques, intimidação e censura contra jornalistas que cobrem o processo eleitoral deste ano

Entidades denunciam ataques a jornalistas nas eleições
Entre as denúncias, está a intimidação de eleitores e a pressão de diretores de meios de comunicação (Foto: PxHere)
Organizações em prol da liberdade de imprensa divulgaram nesta quinta-feira, 25, um comunicado repudiando toda e qualquer forma de violência contra jornalistas. Centenas de profissionais da imprensa vêm sendo intimidados, censurados e ameaçados durante a cobertura do processo eleitoral deste ano.

Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), foram documentados 141 casos de ameaças e violências contra jornalistas que cobriam as eleições. “A Abraji documentou 141 casos de ameaças e violência contra jornalistas que cobriam as eleições. A maioria deles é atribuída a partidários de Bolsonaro, enquanto o restante é atribuído a apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT)”, disse a Abraji, em comunicado.

O caso mais famoso, e um dos mais recentes, foi o da jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo. A repórter denunciou em uma reportagem um suposto esquema de apoio ilegal de empresas privadas ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), no qual companhias contratavam pacotes de envio de mensagens em massa pelo WhatsApp para atacar o PT. Com base na reportagem, a Polícia Federal abriu uma investigação sobre o caso.

Após a publicação da matéria, Patrícia passou a ser constantemente ameaçada online, recebeu duas ligações e teve a conta no WhatsApp hackeada. Ao mesmo tempo, o diretor-executivo do Datafolha – instituto de pesquisa pertencente ao Grupo Folha –Mauro Paulinotambém passou a receber ameaças.

“Os jornalistas que cobrem a eleição presidencial no Brasil devem poder trabalhar livremente e com segurança enquanto fazem reportagens sobre questões de interesse público. Pedimos aos candidatos de todos os partidos que respeitem a liberdade de imprensa, se abstenham de fazer declarações inflamatórias contra a mídia, e exortem seus partidários a parar de assediar e ameaçar jornalistas”, solicitou a coordenadora do Programa do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) para a América Central e do Sul, Natalie Southwick.

No caso dos ataques contra jornalistas do sexo feminino, normalmente as ofensas incluem violência de gênero, como assédio sexual e ameaças de violência sexual, de acordo com a entidade Artigo 19, uma das signatárias do comunicado. “As ameaças são inaceitáveis; elas devem ser investigadas e todos os envolvidos devem ser responsabilizados a fim de proteger o jornalismo responsável, investigativo e independente”, destacou a diretora-executiva da Conectas Direitos Humanos, Juana Kweitel.

Em março, antes mesmo das campanhas políticas se intensificarem, pessoas atiraram contra um ônibus com 28 jornalistas. O coletivo transportava repórteres que cobriam um evento do PT. Ninguém ficou ferido. Por sua vez, há registros de apoiadores do PT intimidando e agredindo repórteres.

“Ataques por apoiadores de candidatos presidenciais contra a imprensa são inaceitáveis e indignos de qualquer partido político que almeje governar o país. […]  O discurso de ódio e campanhas de desinformação estão exacerbando as tensões na sociedade já altamente polarizada no Brasil. RSF [Repórteres sem Fronteiras] apoia todos os jornalistas brasileiros, cujo trabalho durante esse período turbulento é essencial”, destacou o diretor regional para a América Latina da RSF, Emmanuel Colombié.

Enquanto isso, Bolsonaro, na última quarta-feira, 24, usou as redes sociais para fazer um tipo de ameaça velada à Folha de São Paulo. Segundo o presidenciável do PSL, “o dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar”. A afirmação gerou revolta e o candidato à presidência foi acusado de estar ameaçando o jornal.

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A mamata da folha de são paulo vai acabar, mas não é com censura não! O dinheiro público que recebem para fazer ativismo político vai secar, e mais, com sua credibilidade no ralo com suas informações tendenciosas são menos sérias que uma revista de piada!

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“Qualquer um pode discordar de uma reportagem, e deve ter o direito de fazê-lo publicamente, mas ameaçar o jornalista e incitar outros a fazer o mesmo não só põe em perigo a segurança pessoal dos jornalistas, mas prejudica a liberdade de expressão e a democracia. […] Os candidatos à presidência devem defender o direito dos jornalistas de informar o público e o direito do público de ser informado”, destacou a diretora da ONG Humans Right Watch no Brasil, Maria Laura Canineu.

Censura e limitação de jornalistas

No último dia 19 de outubro, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no estado de São Paulo (SJSP) divulgou um comunicado denunciando a censura e politização do Grupo Record, do bispo Edir Macedo, que comanda a Record TV e o portal R7. Segundo a nota, a empresa estaria pressionando os jornalistas a divulgar reportagens que beneficiam Bolsonaro e prejudicam Haddad.

De acordo com a SJSP, os jornalistas estariam sendo permanentemente instruídos pela direção da emissora a fazer reportagens apenas com esse viés político, censurando matérias que poderiam prejudicar Bolsonaro ou favorecer Haddad. A pressão por esse tipo de material teria começado no fim do mês de setembro, quando o bispo Edir Macedo tornou público o seu apoio à campanha de Bolsonaro.

“As pressões internas pela distorção do noticiário tomaram a forma de assédio a diversos jornalistas. A tensão na redação tornou-se insuportável para alguns profissionais”, denuncia o SJSP.  “O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo repudia as pressões feitas pela direção da Record e exige o respeito à autonomia de apuração e edição dos jornalistas da empresa”, aponta o órgão.

Coluna Esplanada, do colunista Leandro Mazzini, publicada no dia 7 de outubro no Opinião e Notícia, revelou que Bolsonaro obteve o apoio de Edir Macedo no primeiro turno das eleições. Ainda segundo a coluna, além do bispo, Bolsonaro também se reuniu, em agosto, com João Roberto Marinho, um dos donos do Grupo Globo.

Uma matéria do The Intercept Brasil, publicada no último dia 13 de outubro, revela um e-mail de um jornalista do portal R7. No texto, o repórter do site jornalístico do Grupo Record revela que, no primeiro turno, o apoio foi dado a Geraldo Alckmin (PSDB), enquanto, para o segundo turno, os jornalistas estão sendo obrigados a favorecer Bolsonaro.

“Passado o primeiro turno, começou o jogo sujo. Nada de pauta negativa ao Bolsonaro, a não ser que seja um assunto de grande visibilidade. A gente pode subir pautas positivas do Haddad, mas geralmente elas não são chamadas na capa nem nas redes sociais. Ou seja: ninguém vê”, diz o jornalista.

O repórter revela que ninguém quer assinar as matérias direcionadas. “A gente se sente refém das demandas do alto comando. Recebemos ordens pra fazer um antisserviço à população e nem sequer sabemos quem deu essas ordens lá em cima. Considerando a boa audiência do portal, especialmente entre as classes C e D, dá um aperto no coração saber que a gente pode influenciar negativamente estas eleições”, conclui o e-mail.

Uma denúncia similar foi feita pelo jornal Folha de São Paulo. Uma reportagem da noite da última quinta-feira revelou que a direção de jornalismo da Record TV chegou a vetar uma reportagem sobre o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, o Moa do Katendê, morto após uma discussão política em um bar de Salvador (BA). A emissora ainda não se posicionou sobre o assunto.

Na semana passada, a jornalista Luciana Barcellos, chefe de reportagem do Jornal da Record, pediu demissão. O motivo oficial não foi divulgado nem pela jornalista e nem pela emissora. No entanto, aponta-se que a razão da saída de Barcellos da Record é pela tensão causada pela pressão para preservar Bolsonaro.

Um caso que também ganhou repercussão foi a demissão do jornalista Juremir Machado da Silva, da Rádio Guaíba, do Rio Grande do Sul. Após uma entrevista, ao vivo, de Bolsonaro ao programa Bom Dia com Rogério Mendelski, foi explicado pelo apresentador que apenas ele poderia fazer perguntas, pois foi o acordado para a entrevista. Juremir Machado, por sua vez, não gostou do que classificou como “censura” e questionou os colegas, que não concordaram com a colocação do jornalista. Juremir, então, pediu demissão no momento seguinte, deixando o debate.

“Nós podemos dizer que o candidato nos censurou? […] Por que não podíamos fazer perguntas? […] Eu achei humilhante e por isso estou saindo do programa. Foi um prazer trabalhar aqui 10 anos”, afirmou Juremir.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors), em conjunto com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), divulgou, na última quarta-feira, 23, uma nota de apoio ao jornalista.

“O Sindjors e a Fenaj repudiam toda forma de censura. […] A liberdade de imprensa e o trabalho ético do jornalista constituem um bem fundamental para a democracia e é obrigação de qualquer cidadão respeitar, especialmente aqueles que pretendem alçar ao cargo de chefe de uma nação”, destaca o comunicado.

A Rádio Guaíba está, desde 2007, sob administração do Grupo Record – que também comanda a Record TV e o portal R7 -, como a própria empresa expõe em seu site. Por isso, o presidente da Sindjors, Milton Simas Junior, também direciona as suas críticas, expostas no comunicado do sindicato, ao Grupo Record e ao seu proprietário, Edir Macedo. “Denunciamos que o ‘dono’ está impondo a sua voz autoritária nas redações do grupo, o que é inaceitável para qualquer jornalista. Rejeitamos a censura ao contraditório e a cassação do direito à informação prestada à sociedade”, aponta Simas Junior.

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