PSL: um partido plasmado com a costela de Jair

Itens mais notórios do ‘mitológico’ repertório de Bolsonaro viram ‘compromissos’ e ‘prioridades’ institucionais da legenda

PSL: um partido plasmado com a costela de Jair
PSL saltou de um partido pequeno para a segunda maior bancada da Câmara em quatro anos (Foto: Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados)
Hugo Souza

A filiação de Jair Bolsonaro ao Partido Social Liberal (PSL), feita em janeiro deste ano e visando as eleições de outubro, dividiu uma família tradicional brasileira. Quem poderia imaginar? E das mais tradicionais, aliás: a família de Luciano Bivar, próspero empresário do setor de seguros e deputado federal eleito por Pernambuco no último domingo, 7 de outubro. Quando Luciano, “dono” do PSL, decidiu dar guarida à candidatura de Bolsonaro, seu filho, Sérgio, anunciou rompimento político com o pai, deixou a legenda e com ele levou a principal corrente da sigla antes da torrente verde-oliva, o grupo Livres.

Na ocasião, em nota dirigida aos membros do Livres, Sérgio Bivar declarou ser “fatal” o que considerava a chegada do “messianismo” e da “demagogia” ao PSL, e resumiu dessa maneira o motivo alegado para a apartação, no melhor estilo Marina Silva: “aos meus olhos, Bolsonaro é como Lula”. No comunicado em que anunciou a saída do PSL pela porta que se abria para Bolsonaro ingressar, o Conselho Nacional do Livres disse assim, não sem lançar mão de um termo enviesado, como é praxe entre as “tendências libertárias” do melhor estilo MBL, para se referir ao mundo do trabalho: “não queremos servir a um grande nome, mas sim à grande massa de batalhadores de nosso Brasil”.

Um grande filósofo brasileiro já observou que os ideólogos da direita, embriagados com os princípios “generosos” forjados por eles próprios, tendem a perder a capacidade de “legitimar com suficiente agilidade e eficácia as jogadas dos líderes políticos, ‘práticos’, dos grupos conservadores” com os quais mantêm ligação.

Mas esse racha causado por Jair Bolsonaro na tradicional família Bivar (do seio da qual, por sinal, não se tem notícia de que tenha saído qualquer ideólogo melhor aparelhado), teve, na verdade, um fundamento bastante pragmático: Sérgio tinha um acordo com Luciano, segundo o qual seu velho pai permitiria a ascensão do Livres ao comando do partido. A combinação, por motivos óbvios, não resistiria à vinda do próprio Messias, com quem o Livres alegou, afinal, e não obstante, incompatibilidade ideológica, para em seguida dar no pé.

O fato, e não é fake, é que o PSL, fundado em 1994 e que desde 1998 disputa eleições, é hoje um partido que parece plasmado a partir da costela de Jair, para usar uma alegoria da qual o capitão certamente faria gosto, porque a referência, além de bíblica, não é lá bem vista entre o movimento feminista. Afinal, “mulher diabo”, Tieta não foi feita da costela de Adão.

Brasil acima de tudo, PSL acima de todos

E no que acredita esse PSL reformulado à imagem e semelhança de Bolsonaro? Para que não haja mais espaço para dissensões no espírito da casa, a seção “em que acreditamos” do site do partido é quase apenas uma profissão de fé bolsonarista. Está lá todo o “mitológico” repertório, cujos itens são apresentados como “compromissos” e “prioridades” institucionais da agremiação:

“Políticas de esclarecimento à população, que visem a conscientização a respeito dos males provocados pelo comunismo e socialismo”; “Combate à censura, ao constrangimento e aos desequilíbrios morais e sociais decorrentes do discurso ‘politicamente correto’”; “Combate à apologia da ideologia de gênero”; “Combate aos privilégios decorrentes de ‘quotas’ (sic) que resultem na divisão do povo, seja em função de gênero, opção sexual, cor, raça, credo”; “Vedação de parcerias, alianças, conjugações e coligações com partidos de esquerda bolivariana”. Está lá também, e não poderia mesmo faltar, o bordão de todo esse rol de lacrações: “O Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Acima de quase todos os outros partidos políticos brasileiros. Foi nessa condição que o PSL saiu da apuração das eleições 2018. Esse partido, que elegeu apenas um parlamentar federal quatro anos atrás, elegeu agora 52 deputados federais, entre eles os mais votados em São Paulo e no Rio de Janeiro: Eduardo Bolsonaro e Helio Fernando Barbosa Lopes, respectivamente. A legenda ocupará 10% da Câmara na próxima legislatura, a segunda maior bancada, atrás apenas da bancada eleita pelo PT. A bancada militar saltou de 10 para 22 deputados, 13 deles do PSL.

Luciano Bivar, que, além de “dono” do partido, foi um dos deputados pesselistas eleitos no último domingo, já avisou que o PSL deve passar o PT na condição de maior partido da Câmara em 2019, com a provável migração de parlamentares de outras legendas para a sua, e que, assim sendo, irá reivindicar para os seus, se não para si, a presidência da casa.

Além disso, o PSL elegeu quatro senadores da República. Nas assembleias estaduais, o partido conseguiu emplacar as maiores bancadas em São Paulo e no Rio, com direito a serem também pesselistas os campeões de votos entre os novos deputados estaduais paulistas e fluminenses, respectivamente Janaina Paschoal (que, após a eleição, disse que vai para a oposição se Bolsonaro “sinalizar um caminho” autoritário…) e Rodrigo Amorim (que poucos dias antes da votação apareceu numa foto viral vandalizando uma placa de homenagem a Marielle Franco).

Nunca na história desse país, portanto, aconteceu um tão rentável contrato de aluguel. O PSL tem ainda três candidatos a governador que disputarão o segundo turno no próximo dia 28:  “Comandante” Moisés, em Santa Catarina; Coronel Marcos Rocha, em Rondônia; e Antonio Denarium, em Roraima. Além, é claro, do próprio locatário disputando a presidência da República. Mas, como se vê, de alguma maneira, se não de todas, Jair Bolsonaro já ganhou.

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