A vida que levou Harlan Ellison, cujo temperamento fez mais sucesso que sua obra como escritor de ficção científica

A má fama do escritor americano obscureceu sua obra

A personalidade forte e a índole beligerante de Ellison escondiam um artista preocupado com questões sociais e engajado em grandes temas políticos (Foto: BARBARA ALPER/GETTY)
ALESSANDRO GIANNINI

Como acontece com algumas mentes brilhantes, a má fama de Harlan Ellison precedeu sua obra e obscureceu a carreira de um dos grandes nomes da ficção científica na literatura mundial. Foi Isaac Asimov, ele mesmo lembrado como um dos expoentes do gênero, quem classificou Ellison como “um dos melhores escritores do mundo”. O autor do clássico Eu, robô, no entanto, lamentava o fato de o temperamento forte e a índole beligerante deixarem o trabalho literário do talentoso colega em segundo plano.

Harlan Ellison morreu dormindo no dia 29 de junho, aos 84 anos, em sua casa em Los Angeles, segundo declarou sua quinta e última mulher, Susan Ann Toth. Deixou um repertório prolífico, que inclui desde 1.700 contos e mais de 100 romances até críticas e ensaios, passando por roteiros de cinema, TV e quadrinhos. As histórias que ele protagonizou na vida pública, entretanto, ganharam mais destaque que as histórias de ficção científica criadas em suas antigas e pesadas máquinas de escrever.

Ellison foi um autor premiado no gênero que o consagrou, embora rejeitasse o rótulo de escritor de ficção científica — preferia dizer que escrevia ficção especulativa ou apenas ficção. Ganhou o prestigiado Prêmio Hugo com o conto “I have no mouth and I must scream” (1967), sobre um futuro em que um computador inteligente arrasa a população terrestre e tortura os únicos cinco sobreviventes com armadilhas sádicas. Pela novela A boy and his dog (1969), sobre um adolescente e seu cão telepata em um cenário pós-apocalíptico sem mulheres, recebeu o também respeitado Prêmio Nebula. Foi pouco publicado no Brasil, com exceção de algumas graphic novels inspiradas em seus roteiros para a TV, como a ótima Demônio da mão de vidro (1989) — o que é visto pelos fãs nacionais do gênero como uma grande lacuna a ser preenchida.

É de Ellison também “Cidade à beira da eternidade”, considerado por críticos e fãs um dos melhores episódios de Jornada nas estrelas, no qual o capitão Kirk — William Shatner — e o Senhor Spock — Leonard Nimoy — voltam no tempo até a Chicago dos anos 1930 para consertar o curso da história. Ele rejeitava o trabalho porque Gene Roddenberry, criador da série, havia editado o script de 300 páginas para adequá-lo às necessidades da produção. Ao receber um prêmio pelo trabalho, dedicou-o “à memória daquilo que massacraram e em respeito às partes que tiveram a vitalidade de brilhar em meio ao desmembramento”.

Em 1965, Ellison virou personagem da famosa reportagem “Sinatra está resfriado”, do jornalista americano Gay Talese, publicada na revista Esquire. De acordo com o relato de Talese, Sinatra ficou incomodado com os sapatos que Ellison usava na sala de sinuca de um clube de Beverly Hills e perguntou o que o escritor fazia para viver. Ele respondeu: “Sou encanador”. O que se seguiu foi um bate-boca cheio de ironias e ataques verbais entre os dois artistas.

Também ficaram famosas suas batalhas legais, envolvendo às vezes o simples reconhecimento de que inspirou uma obra. Uma das mais famosas foi a ação que moveu contra o cineasta James Cameron e os produtores de O exterminador do futuro (1984), blockbuster que Ellison dizia ter sido inspirado em dois roteiros seus para a série A quinta dimensão. Versões recentes do filme trazem uma inscrição em inglês que pode ser traduzida como: “Reconhecimento aos trabalhos de Harlan Ellison”.

Apesar de admitir ter mandado uma marmota morta para um de seus editores e ter atacado a socos um outro, Ellison não era apenas um encrenqueiro que queria descontar no mundo o bullying que sofreu na infância por ser judeu. Politicamente engajado, ele participou em 1965 com Martin Luther King da marcha de Selma a Montgomery e foi eloquente na condenação da Guerra do Vietnã. Ele fez questão de levar para o gênero da ficção científica questões sociais importantes. E era generoso com os estudantes e com os escritores diletantes.

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