O trauma das crianças separadas por Trump

A experiência traumática da separação das famílias de imigrantes ilegais na fronteira com o México pode causar problemas mentais ao longo da vida

O trauma das crianças separadas por Trump
Política de ‘tolerância zero’ de Trump pode provocar traumas em crianças imigrantes (Foto: Save the Children)

O processo caótico de reunir mais de 2,3 mil crianças e pais separados pela política de “tolerância zero” do governo de Donald Trump resultará em grandes riscos psicológicos, tanto de curto como de longo prazo, disseram especialistas em saúde mental.

Porém, a opção de manter essas famílias em centros de detenção de imigrantes, em bases militares e em outras instituições por longos períodos, enquanto a Justiça examina os pedidos de asilo ou a decisão de deportá-las também resultará em trauma, como aconteceu com as famílias de descendência japonesa mantidas pelos EUA em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

“As pessoas estão preocupadas com os detalhes técnicos desse processo e com a imagem chocante das crianças presas em jaulas”, disse Jennifer Rodriguez, diretora executiva do Youth Law Center, uma organização dedicada à proteção dos direitos das crianças, com sede em São Francisco. “Mas não pensam no trauma psicológico da separação das famílias”.

Em um artigo publicado no New England Journal of Medicine, Fiona Danaher, uma pediatra do MassGeneral Hospital for Children, em Boston, advertiu que experiências traumáticas como as vivenciadas por imigrantes ilegais detidos na fronteira podem provocar “doenças físicas e mentais, cujos efeitos se prolongarão por gerações”.

“Antes de reunir as famílias seria preciso examinar se as crianças não culpam os pais ou a si mesmas pelo o que aconteceu”, disse Brenda Jones Harden, professora de desenvolvimento humano da Universidade de Maryland.

Em uma série de estudos, cientistas sociais da Universidade de Delaware acompanharam a experiência de crianças pequenas adotadas e a interação delas com os pais adotivos.

As crianças pequenas muitas vezes rejeitam a ideia de terem pais adotivos, o que cria um distanciamento na relação. A mesma rejeição pode acontecer quando as crianças são separadas dos pais e, de repente, eles reaparecem.

Os pais, por sua vez, ao se sentirem rejeitados distanciam-se dos filhos. “Essa reação de autodefesa afetiva em geral se dissipa ao longo do tempo, mas os pais não devem criar a expectativa irreal de um reencontro fácil”, disse Mary Dozier, professora de psicologia da Universidade de Delaware.

O impacto psicológico da manutenção de centenas de famílias em centros de detenção de imigrantes ou em outras instituições, durante meses ou anos, é difícil de avaliar. Em uma nota publicada no The Washington Post, a ex-primeira dama Laura Bush observou que os centros de detenção para imigrantes lembram “os campos de concentração cercados por arames farpados onde 120 mil americanos de descendência japonesa viveram durante a Segunda Guerra Mundial”.

Especialistas em saúde mental acreditam que o trauma das famílias dos imigrantes ilegais se assemelharia ao dos cidadãos americanos presos nos campos durante a guerra, em termos de taxas de depressão e estresse pós-traumático.

“Com certeza há paralelos”, disse Donna Nagata, professora de psicologia da Universidade de Michigan, cujos pais se conheceram em um campo de concentração em Utah e que acompanhou o desenvolvimento psíquico de um grande número de pessoas que viveu nos campos.

Carola, uma mulher que mora no Canadá e que pediu que seu sobrenome não fosse citado, porque os pais ainda estão vivos, disse que a mãe passou quatro anos em um campo de concentração durante a guerra, “o que a deixou fragilizada emocionalmente, com crises de depressão e paranoia. E, é claro, seu desequilíbrio psíquico afetou a família”.

Esses relatos causam ainda mais preocupação no que se refere à situação complexa dos imigrantes ilegais detidos na fronteira do México e separados dos filhos.

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