Queda do dólar na sexta-feira foi apenas uma pausa no pânico generalizado

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Charge do Sinfrônio (sinfronio.com.br)

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O governo respirou aliviado na sexta-feira com a queda de mais de 5% do dólar — a maior em um dia desde 2008 —, mas nem de longe baixou a guarda. Tanto o Palácio do Planalto quanto a equipe econômica sabem que os mercados estão muito longe de darem trégua. Os investidores responderam favoravelmente à intervenção feita pelo Banco Central. Contudo, deixaram claro que seus movimentos serão guiados por dois eventos importantes. Um, interno, as eleições presidenciais. Outro, externo, o aumento dos juros nos Estados Unidos. Há muita incerteza nos dois campos.

Para integrantes do governo, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, terá que suar muito a camisa. Se as pesquisas de intenção de votos continuarem mostrando Jair Bolsonaro e Ciro Gomes na liderança, a munição do BC terá que aumentar.

DESCOMPROMISSO – Por enquanto, o arsenal de US$ 20 bilhões foi suficiente para espantar o pânico dos mercados. No entanto, o descompromisso desses dois candidatos com reformas como a da Previdência Social tende a enlouquecer os donos do dinheiro. Nesse quadro, combinado a um aumento mais forte dos juros nos EUA, o dólar pode ir a R$ 5 e o BC seria obrigado a elevar a taxa básica de juros (Selic), que está em 6,50% ao ano. Seria “o beijo da morte”, como diz um integrante do governo.

A análise dentro do governo e no mercado é a de que o BC teria dois caminhos a percorrer ante o nervosismo que levou o dólar a flertar com R$ 4, um convencional, outro não convencional. A autoridade monetária optou pela primeira opção. Dentro do regime de metas de inflação e com os índices de preços controlados, interveio no câmbio, mas manteve a taxa de juros inalterada.

ALTA DA SELIC – O BC só subiria a Selic se as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) desandassem, indicando sinais de descontrole. Não é o caso. Pelos modelos do BC, mesmo com o dólar a R$ 3,80, a inflação deste ano ficaria abaixo do centro da meta, de 4,5%. Em 2019, se situaria ligeiramente acima do objetivo definido em lei, de 4,25%.

No caminho não convencional, o BC seguiria a rota tomada pela Turquia. Para conter o ataque à lira turca e evitar a disparada da inflação, a autoridade monetária daquele país elevou os juros para 17,75% ao ano, um baque. Por enquanto, acredita Ilan Goldfajn, não há necessidade de se mexer na Selic. Isso não quer dizer, entretanto, que o BC brasileiro não possa elevar os juros já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 19 e 20 de junho.

Ilan deixa claro que usará todos os instrumentos disponíveis para conter movimentos de pânico. Mas, neste momento, prefere apostar na fragilidade da economia para segurar os repasses da alta do dólar para os preços.

PEDIDO DE TEMER – Nas conversas que manteve com Ilan, o presidente Michel Temer pediu que o BC evite qualquer tentativa de desestabilização da economia. Para o governo, o pior que pode acontecer neste momento, de total fragilidade política, é a inflação disparar, os juros subirem e o país mergulhar novamente na recessão. “Seria uma derrota enorme”, reconhece um integrante do Planalto. “Mas temos confiança de que o Banco Central será bem-sucedido. Se precisar, poderá ofertar mais de US$ 110 bilhões em contratos de swap ao mercado. Quem está disposto a encarar isso?”, indaga.

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