Sexo sem revolução

Em “Frida e Trótski”, Gérard de Cortanze mostra que a relação entre a pintora Frida Kahlo e o líder soviético Leon Trótski, ambos comunistas, foi mais passional que política

Crédito: Heritage Images

BOAS-VINDAS A pintora Frida Kahlo (centro) e o líder comunista americano Max Schachtman (à direita) recebem Leon Trótski e a mulher, Natalia, no porto de Tampico, México, em 8/1/1937: paixão súbita (Crédito: Heritage Images)

Por Luís Antônio Giron

O encontro da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) e do líder da Revolução Russa Leon Trótski (1879-1940) no México em 1937 reunia elementos para gerar uma conjunção política explosiva, já que os dois atuavam como militantes comunistas de destaque e viveram o auge do prestígio planetário do socialismo e da caça do ditador Josef Stalin aos rivais que, como Trótski, o ameaçavam. Mas quis o acaso que Frida e Leon vivessen um simples caso extraconjugal como tantos que povoam a história. O relacionamento permaneceu em sigilo por décadas e só foi revelado aos poucos por novas gerações de pesquisadores. O mais obsessivo deles talvez seja o francês Gérard de Cortanze, que investigou o tema sob todos os ângulos.Ele lançou em 2015 o livro “Frida e Trótski — a História de uma Paixão Secreta”, lançamento da editora Planeta.

 “Fiz um trabalho tão enorme e apaixonante de pesquisa que me tornei uma espécie de Sherlock Holmes, rastreando todos os números e provas, comparando dados e informações“, diz Cortanze à ISTOÉ. “ Tudo o que afirmo e escrevo é justo e verdadeiro. A imprensa da época, testemunhos, os diários íntimos, as memórias, tudo é útil para contar essa história.“
Ele denominou a obra de “romance”, mas a parte romanceada serviu apenas para corrigir dúvidas que os documentos deixaram vagos: “O trabalho do romancista é de preencher as impossibilidades narrativas deixadas pelos historiadores, que não têm, como todo romancista e todo narrador, a oportunidade — ou o dever — de chegar à verdade pela mentira, como diz meu amigo Vargas Llosa”.

“Todo romancista e todo narrador tem a oportunidade — ou o dever — de chegar à verdade pela mentira” Gérard de Cortanze, escritor

Escapadas

Trótski aportou no México após oito anos de exílio. Ele era jurado de morte do ex-camarada Stalin. Se este defendia a burocratização e regionalização do comunismo na União Soviética, Trótski pregava a revolução permanente para a expansão mundial do socialismo. O México lhe pareceu um lugar seguro contra atentados. Errou, pois foi executado a golpes de picareta na cabeça por um capanga de Stalin, em agosto de 1940. Fora ao país a convite do pintor Diego Rivera, dissidente stalinista,
na casa de quem se hospedaria, em Coyoacán, subúrbio da Cidade do México. Ao chegar, com a mulher, Natalia, em 1937, foi recebido pela mulher de Rivera, a pintora Frida Kahlo. A paixão foi súbita. Frida não despregou o olhar do russo de 1,80 metro e olhos azuis. Só sossegou quando o atraiu para sua cama na Casa Azul, onde vivia desde a infância. Bissexual, Frida praticava o sexo livre. Diego amealhava casos, um deles com a cunhada, Cristina. Para se vingar, Frida passou a encontrar Trótski no apartamento da irmã. Por fim, separou-se de Diego.

O livro desce a minúcias e reconstrói discussões, cenas eróticas e escatológicas. Entre outros nomes, Frida chamava Leon de “Piochitas” (cavanhaque). Enquanto durou o caso, ela não lhe deu fôlego nem para planejar a revolução nem publicar livros. A fim de recobrar a lucidez, rompeu com Frida, o que não o impediu de seduzir uma beldade da vizinhança. Segundo Cortanze, Trótski quase deixou a luta política em nome de escapadas tórridas e colheitas de cactos raros no deserto. Ficou com
as plantas, mas perdeu as mulheres. A picaretada na cabeça selou seu destino. “Ele era um político habilidoso, mas péssimo estrategista quando se tratava das coisas do amor”, afirma. Que o diga Frida. Após a morte de Trótski, ela voltou para o marido.

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