OVACIONADA, TUIUTI É A VOZ DE UM BRASIL

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Por Silvia Bessa – EM FOCO – DP

De turbante colorido, rosto vincado pela noite mal dormida, dona Mércia da Silva transportava sacolas de insumos de uma banca montada provisoriamente durante o carnaval do Recife para garantir o alimento da família em época de desemprego. Em casa, tinha seis bocas para alimentar. Era início da tarde na Rua Mariz e Barros, Centro do Recife mais antigo. Do desfile do Grupo Especial das Escolas de Samba do Rio de Janeiro deste ano ela não ouviu falar, tampouco da Paraíso do Tuiuti. Da precarização do trabalho, tema dos mais comentados na Sapucaí há dois dias, ela entende.

“Tem de criticar mesmo porque a situação do brasileiro é cada dia mais difícil”. Lembrou a frase que ouvi tempos desses de dona Rosalena da Conceição, uma velha senhora quilombola da zona rural de Catolé do Rocha, Alto Sertão da Paraíba: “De liberdade não sei falar, não. Só de pobreza”, sentenciou para então dar uma explicação que nenhum livro didático tinha sido tão claro: “Porque a gente, minha filha, é cativo da pobreza”.

De alguma forma, elas e cada um de nós estávamos representados no desfile mais politizado e crítico de 2018 no Rio de Janeiro, a do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, que ficou em segundo lugar na competição – perdendo para a Beija-Flor por um décimo, mas que conseguiu fazer ecoar um grito de inconformismo do brasileiro. Com o enredo “Meu Deus, meus Deus, está extinta a escravidão?”, a escola de São Cristóvão questionou o fim do trabalho escravo no Brasil 130 anos após a assinatura da Lei Áurea e avivou para o cidadão a escravidão dos tempos modernos, acentuados pela Reforma Trabalhista e precarização promovida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O presidente Michel Temer foi representado por um vampiro com uma faixa presidencial. O desfile ilustrou desde os navios negreiros do Século XVI até as desigualdades e o “cativeiro social” dos dias atuais. Repercutiu tanto que virou hit na internet e acabou no topo do trending topics do Twitter do Brasil e como o segundo do ranking mundial na mesma rede social logo após o desfile histórico.

Uma linha aproximou a ilusão, o temporário, da realidade de um país. A Paraíso do Tuiuti expressou um sentimento nacional. Foi “a nossa voz, dos trabalhadores, dos humildes, dos jovens e crianças que perderam a chance de estudar, dos desempregados, das famílias, de todos os brasileiros menos favorecidos!”, disse o admirador Fábio Nasso, na página oficial da escola no Facebook. “Campeã dos nossos corações. Lavou a alma de milhões de brasileiros. Parabéns pela vitória, pela garra e pela arte com que nos presentearam”, afirmou Sônia Camargo, outra webleitora. Certamente, o que se viu na Marquês de Sapucaí não ficará para trás como um carnaval qualquer. “Sou professor de História e esse samba vai virar questão de prova, material de sala de aula e em tudo que pudermos usaremos para problematizar. Ganhou minhas lágrimas e meu respeito”, garante Neto Almeida, com o apoio de outros profissionais da educação.

É como se, ao ovacionar ao vivo ou na internet o desfile de 2018 da Paraíso do Tuiuti, uma escola que somente no ano de 2017 chegou ao grupo de elite, os brasileiros clamassem juntos pela “luz do candeeiro” e pela libertação do “cativeiro social”, como dizem as frases do enredo que conquistou milhões. Sábado terá o desfile das campeães. A Tuiuti estará de volta à Marquês de Sapucaí com um coro ainda maior.

Foto: Mauro Pimentel/AFP

 

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