Maioria dos deputados do PSDB quer saída imediata do governo

Fim de aliança? Otávio Leite é um dos principais defensores do desembarque tucano

Por Leonel Rocha
A maioria dos deputados federais do PSDB quer deixar imediatamente a base de apoio do governo Michel Temer. A decisão formal pode ser tomada em reunião da bancada de 46 deputados na terça-feira (6), em Brasília. Os tucanos “cabeças pretas”, como é conhecida a ala mais jovem de parlamentares, são maioria e concluíram que apoiar a permanência do chefe de governo no cargo, mesmo mantendo sob controle do partido ministérios importantes, provocará severos prejuízos eleitorais à legenda em 2018.

A nova geração de deputados da sigla não pretende apenas desembarcar do governo Temer. Articula a organização de um movimento político interno para provocar a redefinição da estratégia de longo prazo da agremiação. No curto prazo, os deputados argumentam que não podem apoiar um presidente investigado por corrupção e outros crimes graves apontados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, nem ficar omissos em relação às denúncias de corrupção que atingem diretamente o partido.

No longo prazo, eles pregam a reconstrução do PSDB. “Mais do que decidir se afastar do governo, o PSDB precisa se reinventar, se reconstruir”, diz o presidente da legenda no Rio de Janeiro, deputado Octávio Leite, que, no segundo mandato e prestes a completar 56 anos, é um dos veteranos do movimento “cabeças pretas”. “Defendo que se deflagre uma ampla discussão para nos organizarmos para as eleições de 2018 em cima de princípios e bandeiras políticas claras”, disse ele ao Congresso em Foco.

Embora defenda o afastamento do governo, Octávio Leite é favorável à aprovação das reformas da Previdência e às mudanças da legislação trabalhista propostas pelo presidente Temer. “Não vamos cerrar fileiras com os que querem o pior porque o Brasil é um paciente em risco e que precisa de um controle em sintonia fina. A crise é um nó maior do que aparenta e um nó difícil de desatar”, acrescentou.

Para outros deputados tucanos, o quadro político resultante do vazamento do diálogo ocorrido entre Temer e Joesley Batista inviabilizou a votação da reforma previdenciária, a menos que sejam feitas novas alterações no texto em debate na Câmara que, na prática, anulariam seus efeitos financeiros, ainda que pudessem ter um peso psicológico subjetivo, sobretudo entre investidores, empresários e operadores do mercado financeiro – principais defensores das reformas preconizadas por Temer e sua equipe.

Esteio tucano

A bancada de deputados delegou ao presidente interino da sigla, senador Tasso Jereissati (CE), a atribuição de negociar com outros partidos da base governista, especialmente o PMDB, o DEM e o PP, uma solução para a crise política. O grupo aceita a solução de uma eleição indireta, feita pelo Congresso, para a escolha do substituto de Temer. Considera insustentável, contudo, o plano do atual presidente da República de continuar no cargo, a despeito da grande rejeição popular que enfrenta e da crescente perda de aliados políticos.

O presidente Temer esteve nesta sexta-feira (2) com o governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin, para negociar uma trégua com os deputados paulistas do PSDB para tentar reverter o ambiente contrário ao chefe de governo. Temer não obteve nenhuma garantia de Alckmin para a empreitada. O governador paulista é um dos nomes cotados como presidenciável em 2018 e também tem dificuldades de continuar com Temer diante de tanto desgaste político do governo.

Tal opinião é encampada por nomes importantes do partido, como o do ex-governador de São Paulo Alberto Goldman. Ele reclama que a direção tucana nunca se reuniu para discutir mais profundamente a situação política. Goldman foi um dos primeiros dirigentes do partido a pedir o afastamento do senador Aécio Neves da presidência do PSDB, tão logo o seu nome foi envolvido nas revelações feitas pelos donos e diretores do grupo JBS.

A reunião da bancada tucana está marcada para o mesmo dia em que o Tribunal Superior Eleitoral iniciará o julgamento da chapa Dilma-Temer, mas em horário anterior, permitindo uma decisão antes de o tribunal chegar a um veredito. A corte vai julgar ação do próprio PSDB que acusa a chapa composta pelo atual presidente da República de vários crimes eleitorais.

 

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