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1817 continua

Por José Nivaldo Junior

Este 20 de maio marca os 200 anos da derrocada do governo republicano, constitucionalista e federalista intituído pela Revolução de 1817. A República durou apenas 75 dias mas deixou marcas indeléveis, que moldam a nossa personalidade e o nosso caráter até hoje.

Não tratou-se de um movimento anti-colonial, tem sido dito equivocadamente, até  em pronunciamentos oficiais no Congresso Nacional. Por um simples fato: desde 1808, na prática, e desde 1815, no estatuto das nações, o Brasil já não era mais colônia de Portugal. Era Reino Unido.

Não se tratou, da mesma forma, de um movimento anti-lusitano. Tinha um claro viés internacionalista, tornando automaticamente cidadãos da República sem restrição de direitos qualquer português ou estrangeiro que a ela aderisse.

A Revolução fez parte do grande movimento de transformações políticas que abalavam o mundo ocidental.
É a expressão local, provocada pelas mesmas mega causas, que levaram à independência dos Estados Unidos e à Revolução Francesa, entre outros importantes eventos aquém e além mar.

É a versão local da grande crise do sistema colonial mercantilista e do surgimento do capitalismo industrial, com a ascensão da burguesia ao poder político.

As facetas locais foram asseguradas pela peculiar tradição libertária pernambucana; pela ação iluminista da maçonaria e do clero; pela grande seca de 1816; pelos impostos escorchantes ditados pela Coroa estabelecida no Rio de Janeiro; pela influência das ideias revolucionárias europeias que entravam pelo porto; e, muito especialmente, pela reação ao absolutismo monárquico e adesão aos ideais de justiça social e liberdade.

O governo provisório adotou uma política igualitária radical, onde todos se tratavam por vós, todos eram respeitados como patriotas, iguais. E ao contrário do que se propaga, formulou um plano consistente para a abolição gradual da escravatura, começando pela emancipação imediata dos escravos que se tornassem soldados da República.

Muitos dos temas de 1817 continuam atuais. Exemplos: a liberdade de expressão, de culto, de imprensa. A igualdade entre homens e mulheres. A luta contra a discriminação  de cor. O respeito aos adversários. Governar atendendo demandas prioritárias da sociedade. Respeito à separação dos poderes. Internacionalismo. A honestidade no trato do patrimônio público.

Nunca é demais lembrar que mesmo necessitando de dinheiro para a retirada e a fuga, a junta governativa devolveu à Coroa, intactos, os recursos do tesouro.

A Revolução foi esmagada mas não acabou em 1817.

Os seus ideais, a sua proposta, reapareceriam na Convenção de Beberibe e intactas na Confederação do Equador, em 1824. E chegaram até a Revolução Praieira, em 1848, já aí enriquecidos pelo sentido social identificado pelo Mestre Amaro Quintas.

E continuam até hoje.

Adversário de fronteiras, defenderei as pernambucanas enquanto existirem.
E quando não mais, as gerações futuras deverão honrar aqueles que deram o seu sangue e a sua vida para que um dia todos os seres humanos pudessem viver com justiça social, igualdade, liberdade, fraternidade.

José Nivaldo Junior
Publicitário e historiador. Da Academia Pernambucana de Letras

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