Em entrevista, secretário de Turismo de Pernambuco traça panorama do setor

Felipe Carreras fala sobre relação com o Governo Dilma, limitação de acesso ao Bairro do Recife, polêmica envolvendo os bares de Olinda e novo voo direto para Buenos Aires, entre outros assuntos

Felipe Carreras é o atual secretário de Turismo, Lazer e Esportes de Pernambuco. Foto: Nando Chiappetta/DP/DA Press

Quando o atual governador de Pernambuco assumiu o mandato, a lista do novo secretariado foi prontamente divulgada. Paulo Câmara (PSB) escolheu Felipe Carreras (PSB), ex-secretário de Turismo e Lazer do Recife e quarto deputado federal mais votado do estado nas últimas eleições, para assumir a Secretaria de Turismo, Lazer e Esportes. Há menos de um mês no cargo, o secretário de 39 anos conversou com oPernambuco.com sobre a empreitada. Por e-mail, reafirmou sua posição em relação a assuntos espinhosos, como a limitação de acesso ao Bairro do Recife (“Não é limitar o acesso, mas, sim, dar um bom uso aos espaços públicos”) e a polêmica envolvendo o funcionamento dos bares do Sítio Histórico de Olinda (“É importante o controle urbano, pois uma forte atividade comercial não pode incomodar os moradores”). Questionado sobre o Terminal Marítimo, acusado por alguns de elefante branco, desconversou. “É um equipamento novo, inaugurado em 2013”. Mas sobre o fato de ter que lidar com um governo federal de oposição, garantiu que o estado não sofrerá retaliação por ter apoiado Aécio Neves (PSDB) à presidência. “A presidente Dilma sinalizou que não haverá discriminação com Pernambuco”. A seguir, a entrevista completa.

O senhor deixou a Secretaria de Turismo e Lazer do Recife antes do término do mandato para concorrer a uma vaga como deputado federal. Foi eleito e agora assume a Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco. O que o levou a se desligar da antiga secretaria, disputar a vaga e aceitar a gestão da nova pasta?

Em 15 meses, o tempo em que permaneci na Secretaria de Turismo e Lazer do Recife, desenvolvemos um intenso de trabalho, com diversas ações saindo do papel e recebendo o reconhecimento da população, como foi o caso da Ciclofaixa de Turismo e Lazer, da Academia Recife, do Recife Antigo de Coração e da requalificação da orla de Boa Viagem, que estão fazendo o recifense viver mais a cidade. Em paralelo, já sou filiado ao PSB há 20 anos. Naquele momento, o prefeito Geraldo Julio e nosso saudoso líder Eduardo Campos, diante do resultado do trabalho que realizamos na prefeitura e da necessidade de renovação do quadro na política, me deram esse desafio de disputar uma campanha eleitoral pela primeira vez. Fui o quarto deputado federal com maior votação em Pernambuco e o mais votado no Recife, e isso aumenta nossa responsabilidade. Agora, fui chamado para um novo desafio, desta vez convidado pelo governador Paulo Câmara. Não estarei como deputado federal em Brasília, mas estarei também trabalhando para todo o estado, através das ações de turismo, esportes e lazer. Tenho certeza que podemos realizar grandes ações para o desenvolvimento de Pernambuco e isso me motiva demais.

Tendo em vista os próximos quatro anos de trabalho, quais as metas a curto, médio e longo prazos para o setor turístico do estado? O que mais urgentemente precisa ser feito?

Precisamos ter sempre como foco a estruturação do destino, para receber cada vez melhor as pessoas. E isso envolve estreitar as relações com os municípios, fortalecendo as parcerias também com entidades e o trade turístico. Estruturar o destino remete a uma boa gestão territorial das regiões turísticas, mobilizando a população do entorno, além da melhoria da infraestrutura. Na hora de pensar sobre o desenvolvimento do turismo, é fundamental dar total importância para a questão da interiorização do turismo e da qualificação no atendimento, realizando capacitação para serviços que vão desde taxista e garçom até atendente de hotel. Além disso, alguns temas terão bastante relevância no nosso trabalho, como a restruturação do Centro de Convenções, a conclusão da revitalização da área portuária do Recife e a revitalização do Litoral Norte. O pontapé inicial para o Litoral Norte será um planejamento estratégica para a Ilha de Itamaracá, a fim de reativar o turismo na região. Também vamos criar novas rotas e guias, divulgando os atrativos do ecoturismo e turismo de aventura, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente.

Litoral Norte deve ser uma prioridade da atual gestão. Foto: Annaclarice Almeida/DP/DA Press

O governo anterior era um governo de situação em relação ao executivo federal. Agora se coloca como de oposição. Como será costurada a parceria com o Ministério do Turismo? O senhor já entrou em contato com o ministro Vinicius Lage?

Vamos construir uma parceria institucional para realizar nossos projetos. Entendemos que o trabalho deve ser pautado no desenvolvimento social e econômico, e não em questões partidárias. Já tenho um bom relacionamento com o ministro e seguimos mantendo contato. Ele esteve recentemente no Recife, para conhecer alguns equipamentos turísticos e, inclusive, pedalou na Ciclofaixa de Turismo e Lazer. No mesmo dia, nos encontramos e tivemos uma boa conversa. Ele é um homem de quadro técnico, capacitado, com uma excelente visão em relação ao turismo. Vejo nele um olhar diferente para o setor. A presidente Dilma sinalizou que não haverá discriminação com Pernambuco e que não fará nenhum tipo de retaliação ao nosso estado por questões partidárias.

Conversando com o trade turístico local, percebemos uma insatisfação em relação à divulgação do turismo pernambucano tanto interna como externamente e uma queixa referente ao apoio ao desenvolvimento de ações desse trade. Como pretende estreitar a relacionamento com esses profissionais?

O trabalho realizado no turismo em Pernambuco, nos últimos oito anos, foi exitoso, pois houve aumento da frequência de voos e do número de turistas, novos hotéis chegaram e outros foram ampliados. Desde os tempos em que fui secretário de Turismo e Lazer do Recife, quando me foi dada a oportunidade de aproximação com o trade, que mantemos uma boa relação. Aliás, não só com o trade, mas com a Academia, seja com os professores ou estudantes ligados ao turismo. Vamos ouvir o trade turístico sempre, escutando as críticas e sugestões. Reforçaremos a atuação do Conselho Estadual do Turismo, que é um cenário institucional para este tipo de discussão. Todo o nosso trabalho será pautado no diálogo, em ouvir as pessoas que representam o setor.

A Bahia é um representante fortíssimo do turismo no Nordeste. Um de seus méritos foi conseguir transformar a música baiana em uma marca cultural e também turística. Pernambuco, apesar de ter uma cultura popular diversificada, fica aquém na divulgação do frevo, maracatu, caboclinho, forró, baião, etc em programações oficiais. Como o senhor pretende trabalhar essa questão? A cultura local será privilegiada em eventos da Secretaria?Nossa cultura local é diferenciada e as ações de divulgação do turismo, nos últimos anos, vêm reforçando esse viés. É bom ressaltar que também foram criados espaços culturais, recentemente, que enaltecem esse nosso patrimônio cultural, como é o caso do Paço do Frevo e do Museu Cais do Sertão, obras que ganham e merecem muito destaque dentro do universo da cultura popular brasileira. Sem falar no Centro de Artesanato de Pernambuco, que reúne o que temos de melhor e representa, de forma tão forte, o nosso talento artesanal. A cultural local será, sim, privilegiada em nosso trabalho, pois temos diversas características que nos fazem especiais. Uma delas é a forma receptiva do pernambucano em receber bem as pessoas. E a gente adora mostrar o que temos de melhor, nossa rica cultura. Vamos reforçar nossa identidade cultural no mercado nacional e internacional e tratar a Bahia sem nenhuma disputa. Vamos, inclusive, procurá-los e fazer parcerias benéficas para os dois estados.

Recentemente, a Cidade Alta de Olinda esteve envolvida em uma polêmica sobre a licença de funcionamento de bares à noite. Alguns moradores reclamam do barulho madrugada adentro, outros acreditam que o fechamento dos bares pode afetar a circulação de turistas na área. Qual a posição da Secretaria em relação ao caso?

Compete ao município este tipo de decisão e a Prefeitura de Olinda, inclusive, voltou atrás e permitiu o funcionamento até 1h da madrugada. Acredito que precisamos, sim, buscar um equilíbrio, para conciliar os interesses dos moradores e dos comerciantes. É importante o controle urbano, pois uma forte atividade comercial para atração turística não pode incomodar os moradores. Afinal de contas, uma cidade boa para o cidadão também é uma cidade boa para o turista.

Bares do Sítio Histórico de Olinda devem ou não devem funcionar madrugada adentro? Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/DA Press

Cidades históricas como Ouro Preto (MG) e Paraty (RJ), distantes das capitais Belo Horizonte e Rio de Janeiro, respectivamente, apresentam um fluxo considerável de turistas, com ampla oferta de hospedagem, alimentação e programação cultural. Por que Olinda, tão próxima à capital de Pernambuco, não consegue êxito similar? Existe algum projeto oficial para restabelecer a cadeia turística no Sítio Histórico?Temos que considerar que cada destino tem suas características particulares. Apesar das semelhanças, certas comparações não dão certo. Ouro Preto e Paraty, por exemplo, são distantes das capitais e acredito que essa distância contribuiu para que fosse desenvolvida uma rede hoteleira maior, com ampla oferta de hospedagem e outros serviços. Mesmo Olinda sendo muito próxima ao Recife, lá existem equipamentos e hotéis que estão no mercado há bastante tempo, consolidados, além dos atrativos turísticos. Temos que reforçar a imagem de Olinda como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade e a integração dos destinos. Uma das obras previstas para este ano é a revitalização do Mercado Eufrásio Barbosa. Olinda e Recife se complementam, estão lado a lado e são cidades-irmãs. Temos sempre que cultivar isso, fazer com que o turista que está hospedado no Recife também utilize os serviços de Olinda e vice-versa.

O Bairro do Recife vem sendo alvo constante de projetos de qualificação da Prefeitura do Recife. A proposta recém-anunciada de fechar algumas vias, permitir a entrada de menores apenas acompanhados de adultos e a necessidade de portar um documento de identificação pretende garantir a segurança, mas parece limitar a livre circulação irrestrita. Não há como garantir segurança, sem limitar o acesso?

O conceito maior que vem sendo trabalhado é o de apropriação do espaço público pela população, essa é a base. Não é limitar o acesso, mas, sim, dar um bom uso aos espaços públicos. E alguns ajustes estão sendo feitos para garantir que essa apropriação seja benéfica e saudável para todos. Tudo isso faz parte de uma mudança de hábito e, para isso, muitas vezes temos que fazer ajustes para essa rotina mudar, e isso inclui a questão da segurança. De uma maneira geral, o resultado que estamos vendo no Recife Antigo é muito positivo. As pessoas voltaram a curtir o bairro e hoje se divertem como nunca tinham feito antes. Um forte exemplo dessa mudança é o Complexo Turístico Portuário Governador Eduardo Campos, com um mix de serviços de gastronomia e lazer, atraindo ainda mais a população e os turistas para o bairro.

Ruas do Bairro do Recife passam por mudança no início de 2015. Foto: Paulo Paiva/DP/DA Press

Recife hoje conta com voos diretos para Estados Unidos, Portugal, Alemanha e, agora também, Argentina. Está prevista alguma medida que incentive esse turista estrangeiro a circular pelo estado como um todo, sem ficar restrito apenas à praia de Porto de Galinhas?

Vamos trabalhar ainda mais a integração dos destinos pernambucanos, fazendo com que o turista visite outros locais. Semana passada, inclusive, já tivemos reunião com representantes do trade para tratar sobre este tema. É muito importante estreitar as parcerias com a iniciativa privada de outros municípios, para que eles se fortaleçam também como destinos turísticos.

Além da novidade do voo direto para Buenos Aires, há algum outro destino em vias de ser definido?

O nosso trabalho está apenas começando, mas vamos, sim, buscar novos polos emissores de turista para o Estado. Vamos, sobretudo, reforçar os que já existem.

Os terminais de passageiros marítimo e rodoviário foram apontados como dois espaços que precisam ser melhorados para atender à população com qualidade. A gestão atual tem planos de potencializar essas áreas?

O Terminal Marítimo é um equipamento novo, inaugurado em 2013, e que dá um conforto maior ao turista. O local vem passando permanentemente por melhorias e ajustes, feitos a cada temporada, para oferecer um melhor atendimento ao turista. Para a Copa do Mundo, o investimento no Terminal foi da ordem de R$ 28 milhões. Foi o primeiro terminal marítimo das cidades-sede que ficou pronto. No caso do terminal rodoviário, vamos criar um diálogo permanente com os órgãos responsáveis para garantir melhorias no espaço, tão importante para o turismo regional. São dois portões de entrada que conseguem abranger públicos totalmente distintos, nos trazendo turistas interestaduais, nacionais e internacionais.

O interior de Pernambuco tem um potencial turístico ainda inexplorado. Existe algum projeto destinado tanto a municípios mais visados como Petrolina quanto a outros menos visitados como Buíque? Como despertar o interesse do pernambucano para conhecer o próprio estado?

Esse tema está no radar central do nosso trabalho: a interiorização do turismo. E vamos fortalecer os destinos através de dois eixos: a qualificação e a infraestrutura. Quando você investe nesses dois eixos, naturalmente, começa a despertar e induzir o fluxo turístico para outros locais. Em paralelo, há o trabalho de marketing, com ações promocionais, criação de roteiros, fortalecendo a cadeia produtiva do interior. Também vamos incentivar mais o ecoturismo, o turismo de aventura e outros locais com potencial turístico.

Pernambuco.com

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