Quanta saudade, mamãe!

          

por  Magno Martins

Passo hoje o primeiro dia das mães sem ter a minha mãe ao lado. Deus levou a minha deusa em 27 de março deste ano. Seu nome era Margarida, nome de rosa que nunca desabrocha.

Quanta falta ela me faz! Mas continuo ouvindo a sua voz, e vez por outra ainda, acostumado a falar com ela para encurtar a distância que nos separava do Recife para Afogados da Ingazeira, pego o telefone para escutar a sua voz e só aí é que caio na real.

Mamãe era simples, amava a simplicidade, amava a vida. Amava a beleza, a poesia, o canto dos gregorianos, amava as coisas que dão alegria. Reverenciava a natureza, amava os mistérios e amava principalmente a Deus.

Mamãe era porto seguro, vela para me levar. Nela, eu quebrava as minhas ondas, era mar, litoral. Mamãe, para mim, era uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim.

Para ela, um único momento de beleza e amor, com a sua tacinha de vinho nas mãos – aos 85 anos tomava seu cálice todos os dias – justificava a vida.

Era prazer? Era. Mas era mais que prazer. Era alegria. Mamãe irradiava alegria, nunca tinha tempo de memórias tristes.  Alegria não era aquilo que existia só pela lembrança. Repetia-se sempre a cada instante da sua vida.

Diz o poeta que quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. No amor, o que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Mamãe era assim: leve como uma pluma, suave como a neve, doce como jabuticaba.

Mamãe, mesmo durona, acostumada a botar em ordem a casa dos nove filhos, porque papai trabalhava muito e estava sempre ausente, falava bonito e escutava bonito.

A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. Mamãe tinha o dom da escuta. Fala, filho! Encosta aqui, que o ombro é teu, dizia.

E compreendi, ainda garoto e perdidamente apaixonado por ela, que é na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina. Vivi dias muitos dias felizes ao lado de mamãe.

Fatinha, minha irmã, tem um baú de fotos dela. Jovem, adulta, madura, de todas as fases. E em todas as fases ela era muito linda.

Assim, me convenci que papai tem bons olhos e soube, como ninguém, escolher a sua princesa. E a fez rainha por longos 63 anos de muito amor.

Toda separação é triste, porque guarda memória de tempos felizes e na separação mora a saudade.

Não existe coisa alguma que seja do tamanho do amor de mãe. Amor de mãe não é regido pela lógica das trocas. Como a rosa que floresce porque floresce, amor de mãe é dado de graça, na sua plenitude, no silêncio da noite ou no sereno da tarde. Chega tão forte que o coração bate descompensado.

A beleza da minha mãe se refletia nela. Quando eu a comtemplava, a beleza dela estava refletida em mim. Minha alma tem a essência e o perfume da minha mãe.

Eu sinto isso! Só na dor da saudade descobrimos que pedaços de nós já ficaram para trás. Rubem Alves diz que toda saudade é uma espécie de velhice. É por isso que os olhos dos velhos vão se enchendo de ausências.

Talvez eu seja um pouco de tudo que aprendi com mamãe. Um pouco de tudo do seu olhar sobre o mundo. Um pouco dos seus múltiplos sentimentos, um pouco do seu fascínio, da sua intuição.

Um pouco da sua alegria contagiante, um pouco da sua euforia, um pouco do seu imenso amor que tinha pela vida.

Sem minha mãe neste dia fica o vazio da saudade. Porque seus braços sempre se abriram quando precisei de um abraço. Seu coração sempre compreendeu as aflições do seu filho.

Seus olhos sensíveis sempre endureceram quando precisei de uma lição. A sua força e o seu amor me dirigiram pela vida e me deram as asas que precisava para voar.

Feliz dia das mães aos felizardos que têm as suas!

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